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OCA TERRAVILA GLOCAL - Ocupação Cocriativa ArtFloresta

Sitio Bom Jesus - Rua Quilombo LT 56 - PA Quilombo - Lago do Manso - Chapada dos Guimarães-MT Brasil
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Categorias
Associação, Centro Cultural, DAO
Actividades
Acomodação, Agrofloresta, Aromáticas, Compostagem, Frutas, Grãos, Medicinais, Mudas, Orgânico, PANCs, Permacultura, Pesquisa, Preservação, Reciclagem, Sementes Crioulas, Voluntariado
Fone: +5569999556403
Facebook: brazdyvinnuh
Twitter: @Brazdv
Sobre
OCA - Terravila Glocal             "Alegria, fruto da Liberdade c/ Confiança!" OCUPAÇÃO COCRIATIVA ARTFLORESTA >>Manter um Polo Produtivo utilizando o conceito Agroecológico e da permacultura. Horta c/ alimentos convencionais; cultivo de ervas aromáticas, medicinais, fitoterápicas e PANCs-(Plantas Alimentícias não Convencionais); meliponicultura; manejo extrativista; canteiro de mudas de espécies nativas e/ou  ornamentais para reflorestamento local; Artfloresta (Arte como ferramenta pedagógica); turismo rural; resgate cultural; artesanato e artes em geral. >>Criar um ambiente de convivência e experimentação laboral que dialogue com liberdade a respeito de planejamento consciente e inteligente de geração de riquezas para a sustentação do Polo, com vistas para a regeneração do homem, a fim de dar visibilidade à regeneração do ambiente integral; onde o bem comum (terra, água, ar, fauna e flora) esteja além da geração de conteúdos que estimule a troca de saberes. >>TEATRO CIRCULAR REGENERATIVISTA URUCUMACUÃ - será uma edificação para marcar a presença da OCA OCUPAÇÃO COCRIATIVA ARTFLORESTA neste ambiente como inspiração ao Grande Público (Local e visitante). >>Longe do estereótipo de ações com viés de “cuidados ambientais”, o projeto recebe colaboradores para alavancar esse processo imediato, onde é oferecida hospedagem e alimentação para participação no projeto pelo período acordado entre o interessado e o projeto. O candidato oferece 4(quaro) horas de mão-de-obra diárias por semana, com dois dias de folga.  O tempo restante os colaboradores são incentivados a produzirem para conquista de seus retornos fiduciários. >>Esse sistema de “Terravila” Glocal é um conceito que vem dando certo, por oferecer aos experimentadores a liberdade de produzir o seu próprio sustento. Sem ter um mandatário centralizador. Os modelos comuns existentes, deixam um hiato que não pode ser preenchido. A proposta apresentada é de acesso e não de posse. Os colaboradores podem ser transitórios , temporários e "permanentes" pois é fato a transitoriedade da vida.  Com o processo em andamento para os trabalhos, vem ficando mais clara a proposta de uma “rede de ocupação produtiva e não de um grupo. >>A proposta “Terravila” Glocal existe em três dimensões, LOCAL, com os  colaboradores que a partir do pertencimento, se tornam moradores, por sua vez, locais; VIVENCIAIS são os colaboradores que fazem uma imersão local, por um período de tempo; GLOCAIS são os colaboradores que conhecem a proposta e participam de qualquer lugar do mundo, inclusive localmente. >>Nesta “Terravila” Glocal OCA os trabalhos de infraestrutura estão sendo inicializados. Os colaboradores dessa primeira fase terão a oportunidade de  conhecer de perto o mecanismo de se criar recursos para gerir uma ocupação que vai além da moradia e da propriedade para o plantio, onde se busca a regeneração do ser humano para que ele compreenda e se torne regenerador de sua própria natureza. Em uma rede que vem se espalhando pelo mundo, agregando pessoas que se identificam, principalmente deixando clara a importância da Alegria, Liberdade e da Confiança. Juntos somos mais fortes sem perdermos nossa pessoalidade.  § - O Projeto OCA terravila Glocal - Ocupação Cocriativa Artfloresta está sendo reconfigurado quanto ao formato das atividades locais, para deixar fluir com mais vigor tudo que vier para fortalecer nossa Ocupação. NOVA FASE. <<O que faria a equipe do Projeto OCA TERRAVILA GLOCAL, estar na plataforma?>> època de chuva - Forestando <<<A PRÓXIMA ETAPA É VIABILIZAR RECURSOS PARA FAZER CAPTAÇÃO DE ÁGUA POR GRAVIDADE PARA IRRIGAÇÃO DE BERÇÁRIO DE PLANTAS>>> <<<A OUTRA AÇÃO PARA MELHORIAS É A IMPANTAÇÃO DO BERÇÁRIO DE PLANTAS +++ PARA ATENDER AO VIVEIRO DE MUDAS>>> Confirmada a proposta de multiplicação do VETIVER para substituição do capim Brachiara, em toda pastagem do sitio Marcada a iniciação da poda do VETIVER - na próxima 4a feira dia 29 de janeiro de 2025 O Projeto OCA Terravila Glocal, firma parceria com a Associação do PA Quilombo, no Lago do Manso para desenvolvimento de novas propostas. Tendência a se tornar o carro chefe das ações da OCA para suprir o campo. ***210 mudas de vetiver replantadas e o Campo de Vetiver Regenerativo começa a crescer. Será dada continuidade ao projeto do Campo em junho, quando as matrizes completam um(1) ano. Hoje 245 mudas de vetiver. O Campo terá inicialmente 10 linhas com 100 mudas. Trabalho prazeroso. Em breve nova demanda será apresentada para o deleite de todos que defendem a regeneração. O planejamento para breve é de 500 mudas de Vetiver, até o final do ano. No máximo inicio do ano que vem. Terra pronta para começar a agroflorestinha.
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URUCUMACUÃ By H.H.Entringer Pereira - Livro 3 - Cap. 63
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DEPOIS DO CASAMENTO DO REI Professora Plínia prosseguia suas narrativas, aguçando a curiosidade do Príncipe Urucumacuã, que se mostrava cada vez mais interessado que ela contasse logo, não deixando para depois, o que havia acontecido nos dias da festa de seu nascimento e de seu irmão, Príncipe Kurokuru. Com muito tato e paciência, ela explicara que todas aquelas narrativas, ainda que paralelas aos acontecimentos durante e depois do casamento do Imperador, Rei Médium, com a Imperatriz Rainha Gônia, eram importantes. Precisava conhecer não só o que se passara no reinado de seu pai, como também nos reinados vizinhos. — Um dia, haverás de exercer também teu direito ao Trono e à Coroa deste fabuloso império. Príncipe Urucumacuã ouviu quieto, mas de vez em quando interrompia as narrativas, perguntando sobre alguns personagens que já conhecia e por outros cujas histórias despertavam-lhe especial interesse. Queria saber tudo sobre Rainha Alzira, Rei Naldo, Conde Rasku e, principalmente, Rei Mor e Bruxo Neno. — Calma, Urucum. Temos muita coisa para lhe revelar. Vou primeiro, falar tudo sobre o que aconteceu antes que tu nascentes... porque sobre o que aconteceu nos primeiros tempos de teu nascimento, saberás mesmo, quando regressares do Santuário do Mago Natu, após as quatro estações de tua iniciação. — Quanto tempo terei de ficar com o Mago Natu? — Exatamente quatro estações: um outono, um inverno, uma primavera e um verão. — Por que meu irmão não irá comigo? — Por que vossos caminhos são diferentes. Um andará pelo Caminho do Fogo e o outro pelo Caminho da Água. Ainda sem entender o que aquela profecia significava, o Príncipe Urucumacuã pediu à Professora Plínia: — Podes me contar a história do encantamento da Marquesa de Sonça na Onça Pintada? — Primeiramente, vamos concluir alguns acontecimentos de quando nasceu o Príncipe Gesu Aldo, este que deverá se casar com a tua irmã, esta que nasceu na semana passada; depois saberás do casamento do Bruxo Neno com a serva do Rei Mor, a bela Murmur e vamos concluir então com o que estás me pedindo. A história do teu nascimento contarei quando voltares do Santuário do Mago. No Palácio das Esmeraldas, a Rainha Alzira aguardava, ansiosa, a chegada do filho Calico e da nora, Rainha Araci, para se inteirar das novidades registradas no casamento do Rei Médium com Rainha Gônia, agora Imperador e Imperatriz. Um sonho na noite anterior muito a inquietara. Acordou chorando, porque vira participando de uma outra festa de casamento seu outro filho, o Conde Rasku, e sua odiosa rival, a viúva Pan Thera, Marquesa de Sonça, vizinha das terras do Condado de Rasku, dançando numa frenética orgia ritual, celebrada por sua arqui-inimiga, a Feiticeira das Sombras. A viúva Pan Thera, subitamente, por artes de encantamentos que a Rainha Alzira sabia como funcionavam, transformava-se numa fera ao mesmo tempo terrível e 252H. H. Entringer Pereira encantadora, ameaçando devorá-la. As imagens muito vívidas daquele sonho deixaram Rainha Alzira apreensiva, já que detestava a Marquesa de Sonça com todas as forças do seu coração, porque em épocas passadas, durante uma festa no solar da marquesa, esta lhe servira intragável bebida que lhe causou grande mal-estar e quase a matara. Julgou que fora vítima de tentativa de envenenamento porque a marquesa não disfarçava sua desmedida cobiça pelas famosas e perfeitas esmeraldas que lhe pertenciam. Muito mais lhe odiava ainda porque soube pelo honrado Intendente das Finanças e Justiça, o Marquês de Contagem, que o pai fora aprisionado porque se escusara de obedecer ordem do Rei Albe, o Rico, para levar um mimo à marquesa, Senhorita Pan Thera, consistente numa caixa de prata cheia de esmeraldas, tão logo Rainha Alzira se ausentara numa demorada viagem em visita a sua já falecida prima, a Rainha Olinda, mãe do Rei Médium. Rainha Alzira também sabia que, antes de a Feiticeira Zuzu, a Sacerdotisa das Sombras, se mudar para o Reinado de Trindade, negociara por alto preço com a Marquesa de Sonça o maldito bridão encantado, que ela mesma ordenara entregar à feiticeira, logo depois da tragédia que culminou no enforcamento de seu marido, o Rei Albe, o Rico. Conde Rasku, desde a época do casamento e da coroação do irmão Calico como Rei de Avilhanas, mudou-se para as terras que ganhara de sua mãe, a Rainha Alzira, num jogo de dados, denominando-as de Condado de Rasku, e não mais a visitara. Quase três anos se passaram sem que o Conde Rasku viesse ao Palácio das Esmeraldas. Rainha Alzira sabia notícias esparsas de seu filho porque, além de ser o homem mais belo entre todos os nobres que circulavam por aquelas regiões, tinha fama inigualável de perverso, cruel e sedutor incorrigível. As notícias do filho, geralmente ligadas a acontecimentos pouco edificantes e honrosos, traziam mais desgosto do que alegria à rainha. Para distrair-se e espairecer suas angústias, Rainha Alzira subiu à galeria onde pintava seus quadros — as calic’aturas. Ficou olhando e apreciando-os, admirada de como sua coleção aumentara: havia acrescido algumas outras, além de seus antepassados: o Louco, o Mago Natu, o Imperador Médium, a Imperatriz Gônia e o rei enforcado. Do sonho que tivera, sentindo-se saudosa e aflita pelo filho desnaturado, que não via desde o casamento de Calico, pôs-se a pintá-lo, retratando-o como sonhara: vacilante entre a pretensa noiva e ela própria, sua mãe, alvo certeiro da flechada do implacável Cupido. Deu ao quadro o nome O Enamorado. Nas derradeiras pinceladas em recente obra de arte, ouviu o troar da trombeta do Arauto Real. Pelo tropel da Guarda palaciana, deduziu que a comitiva do Rei Naldo chegara. Guardou rapidamente todo o material espalhado sobre mesas e cavaletes, descendo as escadarias com o coração mais tranquilo. Para sua surpresa, não só a carruagem do Rei Naldo com a Rainha Araci adentrava o pátio do Palácio das Esmeraldas como também o garboso alazão negro do filho temperamental e intratável, mas impressionantemente belo, o Conde Rasku. O primeiro a abraçá-la, desculpando-se pelo longo tempo de ausência, Conde Rasku, de coruscantes olhos azuis, barba crescida e cabeleira selvagemente desalinhada, podia não ser o melhor dos filhos, de caráter dócil e amável igual ao irmão, mas 253H. H. Entringer Pereira inegavelmente era o homem mais belo que já existira, o mais bonito de todos os outros príncipes daquela época. Esquecendo-se das amarguras e sofrimentos que o belo filho, ao longo da infância até a juventude lhe proporcionara, em razão de seus comportamentos cruéis com os animais, temperamentos irascíveis com os serviçais e atitudes odiosas para com seu único irmão, Rainha Alzira o abraçou ternamente, emocionou-se ao ouvir-lhe as batidas do coração e, num relâmpago de lembranças, o pensamento lhe trouxe à memória o mágico momento e a dramática situação em que ele havia sido concebido. Rasku percebeu a fragilidade emocional de sua mãe, fitando-lhe friamente o rosto já sulcado pelo tempo, mas ainda belo, indagando-lhe: — Já sabes que estou noivo e pretendo me casar? — Como saberia, se a notícia ainda não chegou por aqui? – respondeu-lhe a mãe, acrescentando – Mas não me custa adivinhar com quem... — Ah, duvido que acertarias – interrompeu-a. — Antes que me possas revelar, asseguro-te que não faço gosto, tampouco teu irmão aprovará – disse, com firmeza, Rainha Alzira. – Conversaremos depois. Preciso abraçar Calico e Araci. Vamos, entre! À hora do jantar, sob a luz bruxuleante dos archotes e dos castiçais sobre a mesa, o lugar costumeiro da Rainha Araci permaneceu vazio. Rei Naldo justificara a ausência dela alegando excessivo cansaço pela longa e penosa viagem, agravado pela adiantada gravidez. Conde Rasku, sentado à frente de sua mãe, desdenhou da forma como Calico expressara suas desculpas pela ausência da Rainha Araci e provocou: — Diga a tua maravilhosa e barriguda rainha que não precisa mais ter medo de mim. Agora sou um homem comprometido. Além do mais, as unhas da marquesa são bem mais afiadas que as dela. — Rasku, por favor – interrompeu Rainha Alzira – respeite a mulher do seu irmão e não se esqueça de que estás diante do Rei de Avilhanas! O menino Mulato, filho que Calico teve na sua adolescência com a moça Alba, também se sentava à mesa, ao lado de Rainha Alzira. Ainda que não falasse, Mulato sentia pela expressão do rosto que o conde não lhe dirigia olhares de simpatia, porém, na qualidade de mudo que era, apenas observava o clima de animosidade transparente entre os dois irmãos. Fitando Mulato com severidade e desprezo, Rasku prosseguiu em tom provocativo: — Mudemos de assunto. Rei Naldo, como permitis que o bastardinho mudo coma a tua mesa? Não seria o estábulo o lugar mais adequado a ele? Antes que Rei Naldo abrisse a boca para responder ao insulto, Rainha Alzira adiantou-se e, no rompante, posicionou-se em defesa do neto, a quem muito amava: — Conde Rasku, um bastardo a mais ou a menos nesta mesa, não fará diferença ... Também tu poderias ser tratado como tal, não fosse a benevolência do teu irmão Calico. Houve silêncio. O Senhor Louco, que resolvera morar definitivamente no Palácio das Esmeraldas a convite da Rainha Alzira, desde os tempos da tragédia do enforcamento do Rei Albe, o Rico, distante da cabeceira da mesa onde Rei Naldo e Conde Rasku estavam, até então não prestara atenção no que conversavam porque não 254H. H. Entringer Pereira ouvia os diálogos, dada a extensão da mesa e a conversa animada dos outros cortesãos. Percebendo que o clima entre eles modificara e a descontração inicial daquele jantar não era a mesma, adiantou-se, levantando-se como de costume, e iniciou um número na tentativa de distrai-los até a hora da sobremesa. Usando um jogo de palavras que lembrava uma brincadeira de crianças, o Louco cumpriu sua tarefa, começando pelo nobre visitante Conde Rasku: — Meu nobre, o que és? És conde? Onde escondes? Escondes o Conde? Ou és Conde que esconde? Se escondes, não és Conde! Então, nobre Conde, escondes... Se és Conde, não escondes! A maioria dos comensais se divertia. Conde Rasku apenas esboçou um sorriso pouco à vontade, tentando disfarçar o estranho sentimento que brotara pelas palavras de sua mãe. Rainha Alzira pouco se importou com a falta de educação e o sarcasmo do filho, gargalhando com a engenhosidade e a malícia interpretada nos trocadilhos do Louco. — Amigos – dirigiu-se a Rainha Alzira aos cortesãos – poucos dentre vós sabeis o que o Conde Rasku tem para anunciar. Diga, formoso Conde, qual é a novidade que nos trazes? Aparentemente desconcertado com a brincadeira do Louco e pensativo sobre o que ouvira de sua própria mãe, para não perder a pose, Conde Rasku manifestou-se arrogantemente: — Senhoras, senhores, bem sabeis que também tenho um coração, ainda que minha fama de desalmado percorra o mundo. Quero anunciar-vos que pretendo me casar com a Marquesa de Sonça, aqui mesmo, no Palácio das Esmeraldas, ou no Solar da Marquesa. Daqui a sete luas cheias, irei ao casamento do Bruxo Neno, no Palácio de Trindade, e quando voltar, direi a todos qual a data marcada para as minhas bodas. Aguardem, portanto, meu regresso e preparem-se para a maior e melhor festa de casamento de todos os tempos. — És tu, então, nobre Rasku, quem usará o bridão encantado? – perguntou o Louco, em tom de zombaria. — Já passas de insolente, amigo Louco. Vou me casar porque estou apaixonado. – justificou-se. — Contenha-se, Rasku. Ele está apenas brincando. No mais, a história daquele bridão já causou sofrimento bastante a todos nós – ponderou Rainha Alzira. – A mim, custa admitir que alguém tenha interesse na posse de um objeto que serviu de instrumento à morte do próprio pai. O clima do jantar não se apresentara propriamente festivo pela chegada do Rei Naldo e da Rainha Araci, pois o contraponto do aparecimento do Conde Rasku inquietara a todos, principalmente aos pais das donzelas de Avilhanas. A beleza sedutora de Rasku era perigosamente temperada por suas práticas pervertidas e comportamentos abertamente depravados. Ainda que estivesse comprometido a se casar, era pouco confiável e ardiloso por excelência para seduzir e desonrar mulheres jovens ou matronas, casadas, solteiras ou viúvas. 255H. H. Entringer Pereira Causara surpresa o anúncio do casamento do Conde Rasku com a Marquesa de Sonsa porque, embora apetrechada de grande beleza e sensualidade, era o dobro da idade mais velha do que o noivo, e circulavam rumores de que o primeiro marido da marquesa teria morrido com menos de um ano de casado, por esgotamento físico, face às incontroláveis exigências e ao insaciável apetite de alcova da mulher. Nas conversas entre servos e plebeus, o comportamento indomável da Marquesa de Sonça era assunto pontual. Dizia-se que entre suas predileções sexuais, além de homens jovens e bonitos, também se incluíam algumas belas jovens, e não eram incomuns reuniões em que as orgias duravam dias seguidos, quando a marquesa achava por bem festejar suas datas de aniversário. O próprio Conde Rasku frequentara vez por outra o mal afamado Solar da Marquesa e se jactava de já ter passado por lá semanas na esbórnia, entre efebos e belezuras que se davam aos prazeres sensuais, sem limites e sem censuras. Rainha Alzira sabia de alguns dos desregramentos do filho, mas cultivou por algum tempo a esperança de que Conde Rasku viesse a se casar com uma nobre dama, de fino trato, pudica e prendada para compensar e equilibrar-lhe o temperamento cruel e libertino. Ainda que seu caráter se lhe afigurasse, às vezes, tão sórdido, a beleza do rosto e do corpo eram predicativos que, certamente, serviriam como recompensa ao resgate de alguma nobre virtude que nele ainda estaria incógnita – o que uma mulher verdadeiramente amorosa, virtuosa, fiel e paciente poderia tornar à superfície. De outra parte, Rainha Alzira reconhecia no caráter do filho o temperamento sagaz e impetuoso, concordando que fosse ele o marido ideal, talhado sob medida, para impingir toda sorte de sofrimentos e provações à despudorada, astuta, ambiciosa e depravada, mas certamente apaixonada Marquesa de Sonça. Haveriam de formar um belo par. Ele, belo, sórdido e cruel. Ela, linda, sensual e pervertida. A despeito das insanáveis destemperanças de ambos, ele era o que de melhor poderia ocorrer para transformar a vida da marquesa num inimaginável e prolongado martírio. E ela, astuta e libertina o suficiente para fazê-lo viver um constante inferno. Algo, no entanto, ocupava mais o pensamento da mãe do que as vicissitudes pessoais do filho e da Marquesa de Sonça naquele momento. Chegara a hora de revelar o segredo ao Conde Rasku de sua misteriosa paternidade. Somente a Rainha Alzira e o Mago Natu compartilhavam tal segredo a todos ocultado: o menino Rasku não era filho legítimo do Rei Albe, o Rico. Era filho de Adul Thero, conhecido por toda a Corte pelo apelido de Senhor Dugo — o dileto e fiel feitor da Rainha Alzira, assassinado pelo Rei Albe, o Rico, sem motivos aparentes, dadas às circunstâncias misteriosas em que foi encontrado, na mesma noite em que o rei também se suicidara. A dessemelhança entre o Conde Rasku e seu meio-irmão, Rei Naldo, dizia mais respeito ao temperamento do que ao porte físico. Ambos eram notáveis cavaleiros, belos e saudáveis. Rei Naldo, mais introspectivo e sério, pouco conversava, mas, amiúde, dava provas de sua bondade, nobreza e equidade. A beleza do Conde Rasku, todavia, se notabilizava, pois além dos coruscantes olhos azuis e dos anelados cabelos castanho-dourado, seu sorriso perfeito, seduzia e, ao mesmo tempo, ocultava o que possuía de pior no seu caráter: era malicioso e cruel, além de pérfido e egoísta. 256H. H. Entringer Pereira Não havia mais razões, porém, para postergar a revelação de sua origem ao Conde Rasku. O Reinado de Avilhanas já tinha seu rei e prosperava em paz. E o anunciado casamento conferia ao conde o direito de conhecer toda sua estirpe, para que pudesse construir a própria árvore genealógica, inaugurando por conseguinte nova linhagem. Face à maneira sempre correta com que se conduzira e sua devotada fidelidade à memória do marido falecido, Rainha Alzira não dava margem às especulações nem aos mexericos a respeito de sua última gravidez. Pela contagem do tempo, desde que Rei Albe, o Rico, fora encontrado enforcado até o nascimento do menino Rasku, passaram-se exatamente as nove luas cheias: para todos os efeitos, a última coisa que Rei Albe, o Rico, teria feito por derradeiro na sua vida, antes do suicídio, fora um filho. E este filho era Rasku. Disposta a enfrentar o gênio indômito, arrebatado e irascível de Conde Rasku, procurou apoio no filho Calico, o Rei Naldo, de ânimo mais generoso e pacífico, solicitando-lhe o conselho que até então evitara pedir por lhe faltar coragem de compartilhar com ele sua própria infâmia e ignomínia. Não havia alternativas. Chegara a hora, afinal. A sós com Rei Naldo, Rainha Alzira abriu o coração: — Calico, meu filho, não imaginas quanto me custa confessar-te, neste momento, o segredo mais bem guardado de toda a minha vida. — Se vais me contar que Rasku não é meu irmão por parte de pai, não te aflijas. Desde que nos disseste sobre o feitiço da besteira e da aparição da Mula Sem Cabeça, já o imaginava. — E teu irmão, também desconfia? – indagou-lhe preocupada. — Não que eu saiba. Afinal, somos fisicamente muito parecidos. Nossas principais diferenças residem tão somente no caráter. — Tanto melhor. Achas que Rasku já pode saber que não é filho do teu pai? — Minha mãe, ainda que estejas confirmando que Rasku é meio-irmão meu, não revelastes quem é seu pai verdadeiro. Permite-me o atrevimento? — Evidente. Queres que eu mesma diga ou preferes me dizer? — Se eu não acertar, confias em me dizer? — Sim. Quem tu achas que pode ser o pai de Rasku? — O Senhor Dugo, certamente. E, talvez por isso, meu pai o tenha assassinado. Rainha Alzira começou a chorar. Abraçou-se ao filho, balbuciando, entre soluços, a pergunta cuja resposta precisava ouvir do Rei de Avilhanas: — Tu me perdoas? — Ora, minha mãe. Quem sou eu para vos repreender? Nada sinto contra vós e bem compreendo os motivos que vos levaram a tão grave despautério, àquela asneira desmedida. — Quanto a Rasku, não posso mais ocultar-lhe a verdade, mesmo temendo sua odiosa fúria... Pelo que o conheço, será capaz de matar-me ou me odiar, desejando vingar-se pelo resto dos meus dias. — Poupe-se, então. Melhor que não saiba. Nem a Araci vou revelar o que a mim confiastes. Guardarei vosso segredo. 257H. H. Entringer Pereira — Seria mais confortável... Mas não conseguirei ocultar de Rasku a realidade, porque no dia de seu casamento terei de lhe entregar a arma paterna, o sabre de Adul Thero. — Nesse caso, todos ficarão sabendo quem é o pai do Conde Rasku – contrapôs o Rei Naldo. — Ele vai me odiar. Tenho receio de sua impetuosidade. Conheço suas inclinações para a vingança – conjeturou Rainha Alzira. – Achas que Rasku seria capaz de odiar ao ponto de querer me matar? — Que ele vos odiará, não duvido. Mas não vos mataria antes que descobrisse onde estão os vossos 144 quilos das esmeraldas que meu pai ocultou, enterrando em algum lugar. É melhor que não procureis, nem mesmo encontreis este tesouro... se quereis viver depois de contar a Rasku quem é seu pai – falou Rei Naldo, em tom de brincadeira. — Estou pensando: Rasku jamais conhecerá seu pai, tampouco a Adul Thero foi dado o direito de conhecer o filho... Estranhas armadilhas do destino. Sinceramente, ainda não decidi. Pensando melhor, já nem sei se devo revelar... Se Mago Natu estivesse aqui, pediria a ele para que contasse. — Mãe, vós me pedistes um conselho. Na cerimônia, quando Rasku se casar, entregue-lhe o sabre do Senhor Dugo, sem alardes, nem muito palavreado. Simplesmente como tributo póstumo e devida homenagem à memória daquele que foi seu fiel servo. Assim como o Rei Albe, o Rico, morreu levando consigo o segredo de onde enterrou vosso grande e precioso tesouro, assim também morreu com o Senhor Dugo o segredo de Adul Thero, pai do Conde Rasku. — Faremos então um pacto: quando eu descobrir onde estão minhas esmeraldas, direi ao Conde Rasku de quem ele é filho. Rainha Alzira saiu do Salão do Trono e, ao abrir a porta, deparou-se com Conde Rasku. Surpresa com a presença do filho naquela hora, passou-lhe pela cabeça a possibilidade de que já estivesse ali há alguns minutos, ouvindo certamente seu diálogo com o Rei Naldo, atrás da porta. Todavia, não percebeu mudanças no seu semblante, e pela forma com que a abraçou, saudando-a, certificou-se de que ele havia chegado naquele momento. — Salve, salve, Mãe Rainha. Viestes confabular com Calico sobre o meu casamento? — Não exatamente, meu filho! Conversávamos sobre as minhas esmeraldas que o Rei Albe escondeu... Tens algum palpite a respeito? — Por que não mandas cavar no local onde ele se enforcou? — Já o fiz. No exato lugar onde havia sinais de terra revolvida, acharam enterradas as cabeças do Senhor Dugo e da Mula Tá. Ah, e antes de encontrarem as duas cabeças, retiraram da cova um sabre com o nome de Adul Thero gravado na lâmina. Queres portar aquela arma no dia do teu casamento e com ela permanecer, como homenagem ao mais fiel de todos os servos reais? — É da forja de Kalibur? — Certamente. Pela têmpera e beleza, não poderia ter sido de outro artífice. — Então considere-a minha. E do meu pai, o que dar-me-ás? 258H. H. Entringer Pereira — A porção de terras que pertenceu ao Senhor Dugo, contíguas às do teu Condado, para que acrescenteis ainda mais às tuas posses algo do teu pai. Conde Rasku não compreendeu que a porção de terras a que sua mãe se referia, que acrescentaria àquelas que já possuía, era, de fato, a herdade de seu legítimo pai. Naturalmente satisfeito pelo quinhão prometido, imaginou que talvez pudesse estar escondido naquelas plagas do reinado o tão cobiçado e precioso tesouro da Rainha Alzira: as maravilhosas e valiosíssimas pedras verdes. Adentrando sem cerimônia o Salão do Trono, Conde Rasku negou-se observar o protocolo para falar com o Rei de Avilhanas. Enquanto Rei Naldo anotava em finas lâminas de ouro mensagens para convidar os reis vizinhos, seus filhos e outros amigos nobres para festejarem o nascimento de seu primogênito, o príncipe herdeiro, prestes a acontecer, o irmão o interceptou com uma saudação que usavam desde os tempos de adolescentes. Levantando os olhos das folhas de ouro, sem interromper seu trabalho, respondeu à saudação do irmão, perguntando: — O que desejas, Conde Rasku? – voltando os olhos ao que fazia, continuando a tarefa. — Vim saudá-lo, primeiramente, majestoso Rei Naldo, Senhor de Avilhanas. Na qualidade de vosso irmão, penso que agradaria muito à nossa mãe que tivéssemos um relacionamento mais cordial e amigável. — Nunca fui teu inimigo, em princípio... — Mas ainda não me perdoastes pela infelicidade do flagrante na cama com Alba. — Coisas passadas, meu caro irmão... O amor do meu filho Mulato, hoje me recompensa da vergonha que me fizestes sofrer; e pela verdadeira paixão de Alba por mim. Não fosse o trágico final que resultou no sutil encantamento dela naquele pássaro, a Albatroz, teria me casado com ela e não com Araci, arcando com o castigo de perder o direito ao trono deste Reinado. — Neste caso, seria eu o rei de Avilhanas? — Serias. O que farias, fosses tu rei de Avilhanas? Porventura encontrarias o tesouro escondido pelo Rei Albe, o Rico? — Certamente. Não dormiria até descobri-lo. Onde achas que estão as misteriosas pedras verdes? Não tens gana de possuí-las? — Conde Rasku... como és ingênuo, apesar da tua insidiosa malícia... — Por que assim me julgas, Rei Naldo? Achas incorreto alguém pretender o que lhe é de direito? — Nem tanto. Parece-me incorreto, meu nobre irmão, pleitear o que por direito não lhe é pertinente. — Reputa-me indigno do meu quinhão? — Em absoluto. Discordo da irrefletida ânsia e desta aflição desvelada por te assenhorear daquele tesouro, cismando em fazer-te rico. Não te esqueças de que antes de nós dois, as preciosas pedras verdes pertencem de fato à nossa mãe, cabendo a ela querer ou não as encontrar. 259H. H. Entringer Pereira — Calico, nossa mãe já desistiu de seus sonhos. Mesmo porque nada lhe interessa mais, nem se ocupa atualmente de outra coisa que não pintar quadros de mau gosto e tocar cavaquinho. — Rasku, Rainha Alzira é a mulher mais inteligente que conheço. Lutou e continua pelejando com forças potencialmente misteriosas, sem temer nem se dominar pelo medo. Desafia poderes ocultos inferiores, não por abuso, mas por sua superioridade, benevolência e equidade. Nossa mãe fez por merecer seu cognome de soberana RARA, tanto por mérito quanto por honradez. — Vejo que meu irmão é um ardoroso defensor dos afetos filiais... com justa razão. Afinal, da Rainha Alzira recebeste o glorioso trono de um reinado rico e pujante apenas por seres primogênito e beijar-lhe as mãos, submisso e dócil... Quanto a mim, não me aquinhoou o destino com tanta candura e sujeição. Não me deu a natureza ânimo de afetada humildade e servil rebaixamento. — Conde Rasku, insinuas que recebi o trono de Avilhanas de mão beijada? Ofende-me tua insolência e irreconhecida ingratidão. Não somente és ingrato à Rainha Alzira, que te aquinhoou com as belas terras do teu Condado, como o sois à figura da nossa venerada mãe, que desacatais na minha pessoa. — Desculpe-me, Senhor Rei Naldo, se vos ofendo. Apenas manifesto com sinceridade meu sentimento de que na balança do coração da Rainha Alzira um prato é teu, o outro da Rainha Araci. Sinto que me excluem e que me ocultam alguma verdade inconveniente. — E tu também nos oculta algo que teu coração sonega? Por acaso pretendes casar-vos com uma mulher tão mais velha, ainda que bonita, só por amor? A pergunta deixou Conde Rasku encabulado. Era preciso sair do assunto, sem transparecer que havia algo oculto no interesse repentino do Conde Rasku pela Marquesa de Sonça, a Senhora Pan Thera. — Rei Naldo, Senhor de Avilhanas, ocupo-me agora exclusivamente do meu casamento. Vou preveni-lo de que, até antes de casar-me, escavarei por todos os locais que suspeito ocultar o tesouro do Rei Albe, o Rico, quer dizer... da Rainha Alzira, a Soberana RARA. Até mais vê-lo. Salve, salve. — Escave à vontade, Conde Rasku. Dentro dos limites do teu território. Se o fizerdes onde não vos pertence, tenho autoridade o bastante para mandar matar-vos. Dando de ombros, como se não tivesse ouvido a advertência do Rei Naldo, deixando o Salão do Trono, o belo Conde Rasku, antes de bater a porta atrás de si, ainda falou a ele: — Estou me preparando para viajar ao Reinado de Trindade. Vou ao casamento do Bruxo Neno. Não irás? — Estou aguardando o nascimento do meu filho. Aproveite e leve à Corte do Rei Mor o convite para a festa do nascimento de Gesu Aldo. Creio que as datas vão coincidir: a da festa de nascimento com a data do casamento. Apresente minhas desculpas. Conde Rasku bateu a porta meio irritado, enquanto o rei prosseguiu gravando suas placas de ouro, formulando o restante dos convites para a festa da natividade do esperado Príncipe Gesu Aldo. 260H. H. Entringer Pereira Pensando sobre o comportamento astucioso de seu meio-irmão, o rei de Avilhanas concluiu que, por direito, era também honesto revelar a Rasku sua filiação, porém não era prudente intentá-lo naquele momento. A vingança e o ódio de Rasku seriam implacáveis. Não obstante o provável revide, não descartava a possibilidade de ele, por vingança e revolta, tramar a morte não só da rainha-mãe como de sua mulher, Rainha Araci, ou dos filhos que porventura viessem ter. Que Rasku era perigoso e pérfido não havia dúvidas. Era preciso vigiar-lhe os passos, mantê-lo sob controle e, na medida do possível, evitar contrariá-lo. O arauto real anunciou com sua trombeta a chegada de um visitante. Rainha Alzira abriu a janela de seus confortáveis aposentos e viu a caravana se aproximando. Além dos fornecedores de provisões para o Palácio das Esmeraldas, junto dos mercadores, uma mulher com suas damas de companhia e servos desceram das carruagens. Facilmente identificou a primeira delas: era Professora Plínia. Em meio a uma festiva algazarra, viu também descarregar dos animais uma canastra de cobre e madeira marchetada, com o desenho de um pássaro, trazendo ao bico um bebê: era a bagagem da Senhora Natividade da Luz, a parteira das rainhas. O coração da Rainha Alzira acelerou-se e ela, por breves instantes, lembrou-se das duas últimas vezes em que a parteira veio ao palácio: por ocasião do nascimento do menino Mulato e, anteriormente, no nascimento de seu filho Rasku. Lembranças que lhe traziam secretos sofrimentos, pois evocavam recordações que Rainha Alzira preferia não trazer ao presente. Arrumou-se, penteou sua longa cabeleira já agrisalhada, desceu as escadarias e veio ao pórtico principal receber suas nobres e queridas visitantes. Rainha Araci também estava na recepção, segurando carinhosamente sua barriga com muita expectativa, feliz por saber que teria a assistência da competente profissional, Senhora Natividade da Luz, além da assessoria impecável da Professora Plínia, que entendia como ninguém de todas as arrumações necessárias para uma grande e inesquecível comemoração. Rei Naldo não economizou gentilezas, providenciando as melhores acomodações, os mais saborosos acepipes, engalanando o Palácio das Esmeraldas com os adornos e emblemas próprios daquela Casa Real, exibidos pela derradeira vez na festa de sua coroação como Soberano de Avilhanas e casamento com a Rainha AraciH. H. Entringer Pereira encantadora, ameaçando devorá-la. As imagens muito vívidas daquele sonho deixaram Rainha Alzira apreensiva, já que detestava a Marquesa de Sonça com todas as forças do seu coração, porque em épocas passadas, durante uma festa no solar da marquesa, esta lhe servira intragável bebida que lhe causou grande mal-estar e quase a matara. Julgou que fora vítima de tentativa de envenenamento porque a marquesa não disfarçava sua desmedida cobiça pelas famosas e perfeitas esmeraldas que lhe pertenciam. Muito mais lhe odiava ainda porque soube pelo honrado Intendente das Finanças e Justiça, o Marquês de Contagem, que o pai fora aprisionado porque se escusara de obedecer ordem do Rei Albe, o Rico, para levar um mimo à marquesa, Senhorita Pan Thera, consistente numa caixa de prata cheia de esmeraldas, tão logo Rainha Alzira se ausentara numa demorada viagem em visita a sua já falecida prima, a Rainha Olinda, mãe do Rei Médium. Rainha Alzira também sabia que, antes de a Feiticeira Zuzu, a Sacerdotisa das Sombras, se mudar para o Reinado de Trindade, negociara por alto preço com a Marquesa de Sonça o maldito bridão encantado, que ela mesma ordenara entregar à feiticeira, logo depois da tragédia que culminou no enforcamento de seu marido, o Rei Albe, o Rico. Conde Rasku, desde a época do casamento e da coroação do irmão Calico como Rei de Avilhanas, mudou-se para as terras que ganhara de sua mãe, a Rainha Alzira, num jogo de dados, denominando-as de Condado de Rasku, e não mais a visitara. Quase três anos se passaram sem que o Conde Rasku viesse ao Palácio das Esmeraldas. Rainha Alzira sabia notícias esparsas de seu filho porque, além de ser o homem mais belo entre todos os nobres que circulavam por aquelas regiões, tinha fama inigualável de perverso, cruel e sedutor incorrigível. As notícias do filho, geralmente ligadas a acontecimentos pouco edificantes e honrosos, traziam mais desgosto do que alegria à rainha. Para distrair-se e espairecer suas angústias, Rainha Alzira subiu à galeria onde pintava seus quadros — as calic’aturas. Ficou olhando e apreciando-os, admirada de como sua coleção aumentara: havia acrescido algumas outras, além de seus antepassados: o Louco, o Mago Natu, o Imperador Médium, a Imperatriz Gônia e o rei enforcado. Do sonho que tivera, sentindo-se saudosa e aflita pelo filho desnaturado, que não via desde o casamento de Calico, pôs-se a pintá-lo, retratando-o como sonhara: vacilante entre a pretensa noiva e ela própria, sua mãe, alvo certeiro da flechada do implacável Cupido. Deu ao quadro o nome O Enamorado. Nas derradeiras pinceladas em recente obra de arte, ouviu o troar da trombeta do Arauto Real. Pelo tropel da Guarda palaciana, deduziu que a comitiva do Rei Naldo chegara. Guardou rapidamente todo o material espalhado sobre mesas e cavaletes, descendo as escadarias com o coração mais tranquilo. Para sua surpresa, não só a carruagem do Rei Naldo com a Rainha Araci adentrava o pátio do Palácio das Esmeraldas como também o garboso alazão negro do filho temperamental e intratável, mas impressionantemente belo, o Conde Rasku. O primeiro a abraçá-la, desculpando-se pelo longo tempo de ausência, Conde Rasku, de coruscantes olhos azuis, barba crescida e cabeleira selvagemente desalinhada, podia não ser o melhor dos filhos, de caráter dócil e amável igual ao irmão, mas 253H. H. Entringer Pereira inegavelmente era o homem mais belo que já existira, o mais bonito de todos os outros príncipes daquela época. Esquecendo-se das amarguras e sofrimentos que o belo filho, ao longo da infância até a juventude lhe proporcionara, em razão de seus comportamentos cruéis com os animais, temperamentos irascíveis com os serviçais e atitudes odiosas para com seu único irmão, Rainha Alzira o abraçou ternamente, emocionou-se ao ouvir-lhe as batidas do coração e, num relâmpago de lembranças, o pensamento lhe trouxe à memória o mágico momento e a dramática situação em que ele havia sido concebido. Rasku percebeu a fragilidade emocional de sua mãe, fitando-lhe friamente o rosto já sulcado pelo tempo, mas ainda belo, indagando-lhe: — Já sabes que estou noivo e pretendo me casar? — Como saberia, se a notícia ainda não chegou por aqui? – respondeu-lhe a mãe, acrescentando – Mas não me custa adivinhar com quem... — Ah, duvido que acertarias – interrompeu-a. — Antes que me possas revelar, asseguro-te que não faço gosto, tampouco teu irmão aprovará – disse, com firmeza, Rainha Alzira. – Conversaremos depois. Preciso abraçar Calico e Araci. Vamos, entre! À hora do jantar, sob a luz bruxuleante dos archotes e dos castiçais sobre a mesa, o lugar costumeiro da Rainha Araci permaneceu vazio. Rei Naldo justificara a ausência dela alegando excessivo cansaço pela longa e penosa viagem, agravado pela adiantada gravidez. Conde Rasku, sentado à frente de sua mãe, desdenhou da forma como Calico expressara suas desculpas pela ausência da Rainha Araci e provocou: — Diga a tua maravilhosa e barriguda rainha que não precisa mais ter medo de mim. Agora sou um homem comprometido. Além do mais, as unhas da marquesa são bem mais afiadas que as dela. — Rasku, por favor – interrompeu Rainha Alzira – respeite a mulher do seu irmão e não se esqueça de que estás diante do Rei de Avilhanas! O menino Mulato, filho que Calico teve na sua adolescência com a moça Alba, também se sentava à mesa, ao lado de Rainha Alzira. Ainda que não falasse, Mulato sentia pela expressão do rosto que o conde não lhe dirigia olhares de simpatia, porém, na qualidade de mudo que era, apenas observava o clima de animosidade transparente entre os dois irmãos. Fitando Mulato com severidade e desprezo, Rasku prosseguiu em tom provocativo: — Mudemos de assunto. Rei Naldo, como permitis que o bastardinho mudo coma a tua mesa? Não seria o estábulo o lugar mais adequado a ele? Antes que Rei Naldo abrisse a boca para responder ao insulto, Rainha Alzira adiantou-se e, no rompante, posicionou-se em defesa do neto, a quem muito amava: — Conde Rasku, um bastardo a mais ou a menos nesta mesa, não fará diferença ... Também tu poderias ser tratado como tal, não fosse a benevolência do teu irmão Calico. Houve silêncio. O Senhor Louco, que resolvera morar definitivamente no Palácio das Esmeraldas a convite da Rainha Alzira, desde os tempos da tragédia do enforcamento do Rei Albe, o Rico, distante da cabeceira da mesa onde Rei Naldo e Conde Rasku estavam, até então não prestara atenção no que conversavam porque não 254H. H. Entringer Pereira ouvia os diálogos, dada a extensão da mesa e a conversa animada dos outros cortesãos. Percebendo que o clima entre eles modificara e a descontração inicial daquele jantar não era a mesma, adiantou-se, levantando-se como de costume, e iniciou um número na tentativa de distrai-los até a hora da sobremesa. Usando um jogo de palavras que lembrava uma brincadeira de crianças, o Louco cumpriu sua tarefa, começando pelo nobre visitante Conde Rasku: — Meu nobre, o que és? És conde? Onde escondes? Escondes o Conde? Ou és Conde que esconde? Se escondes, não és Conde! Então, nobre Conde, escondes... Se és Conde, não escondes! A maioria dos comensais se divertia. Conde Rasku apenas esboçou um sorriso pouco à vontade, tentando disfarçar o estranho sentimento que brotara pelas palavras de sua mãe. Rainha Alzira pouco se importou com a falta de educação e o sarcasmo do filho, gargalhando com a engenhosidade e a malícia interpretada nos trocadilhos do Louco. — Amigos – dirigiu-se a Rainha Alzira aos cortesãos – poucos dentre vós sabeis o que o Conde Rasku tem para anunciar. Diga, formoso Conde, qual é a novidade que nos trazes? Aparentemente desconcertado com a brincadeira do Louco e pensativo sobre o que ouvira de sua própria mãe, para não perder a pose, Conde Rasku manifestou-se arrogantemente: — Senhoras, senhores, bem sabeis que também tenho um coração, ainda que minha fama de desalmado percorra o mundo. Quero anunciar-vos que pretendo me casar com a Marquesa de Sonça, aqui mesmo, no Palácio das Esmeraldas, ou no Solar da Marquesa. Daqui a sete luas cheias, irei ao casamento do Bruxo Neno, no Palácio de Trindade, e quando voltar, direi a todos qual a data marcada para as minhas bodas. Aguardem, portanto, meu regresso e preparem-se para a maior e melhor festa de casamento de todos os tempos. — És tu, então, nobre Rasku, quem usará o bridão encantado? – perguntou o Louco, em tom de zombaria. — Já passas de insolente, amigo Louco. Vou me casar porque estou apaixonado. – justificou-se. — Contenha-se, Rasku. Ele está apenas brincando. No mais, a história daquele bridão já causou sofrimento bastante a todos nós – ponderou Rainha Alzira. – A mim, custa admitir que alguém tenha interesse na posse de um objeto que serviu de instrumento à morte do próprio pai. O clima do jantar não se apresentara propriamente festivo pela chegada do Rei Naldo e da Rainha Araci, pois o contraponto do aparecimento do Conde Rasku inquietara a todos, principalmente aos pais das donzelas de Avilhanas. A beleza sedutora de Rasku era perigosamente temperada por suas práticas pervertidas e comportamentos abertamente depravados. Ainda que estivesse comprometido a se casar, era pouco confiável e ardiloso por excelência para seduzir e desonrar mulheres jovens ou matronas, casadas, solteiras ou viúvas. 255H. H. Entringer Pereira Causara surpresa o anúncio do casamento do Conde Rasku com a Marquesa de Sonsa porque, embora apetrechada de grande beleza e sensualidade, era o dobro da idade mais velha do que o noivo, e circulavam rumores de que o primeiro marido da marquesa teria morrido com menos de um ano de casado, por esgotamento físico, face às incontroláveis exigências e ao insaciável apetite de alcova da mulher. Nas conversas entre servos e plebeus, o comportamento indomável da Marquesa de Sonça era assunto pontual. Dizia-se que entre suas predileções sexuais, além de homens jovens e bonitos, também se incluíam algumas belas jovens, e não eram incomuns reuniões em que as orgias duravam dias seguidos, quando a marquesa achava por bem festejar suas datas de aniversário. O próprio Conde Rasku frequentara vez por outra o mal afamado Solar da Marquesa e se jactava de já ter passado por lá semanas na esbórnia, entre efebos e belezuras que se davam aos prazeres sensuais, sem limites e sem censuras. Rainha Alzira sabia de alguns dos desregramentos do filho, mas cultivou por algum tempo a esperança de que Conde Rasku viesse a se casar com uma nobre dama, de fino trato, pudica e prendada para compensar e equilibrar-lhe o temperamento cruel e libertino. Ainda que seu caráter se lhe afigurasse, às vezes, tão sórdido, a beleza do rosto e do corpo eram predicativos que, certamente, serviriam como recompensa ao resgate de alguma nobre virtude que nele ainda estaria incógnita – o que uma mulher verdadeiramente amorosa, virtuosa, fiel e paciente poderia tornar à superfície. De outra parte, Rainha Alzira reconhecia no caráter do filho o temperamento sagaz e impetuoso, concordando que fosse ele o marido ideal, talhado sob medida, para impingir toda sorte de sofrimentos e provações à despudorada, astuta, ambiciosa e depravada, mas certamente apaixonada Marquesa de Sonça. Haveriam de formar um belo par. Ele, belo, sórdido e cruel. Ela, linda, sensual e pervertida. A despeito das insanáveis destemperanças de ambos, ele era o que de melhor poderia ocorrer para transformar a vida da marquesa num inimaginável e prolongado martírio. E ela, astuta e libertina o suficiente para fazê-lo viver um constante inferno. Algo, no entanto, ocupava mais o pensamento da mãe do que as vicissitudes pessoais do filho e da Marquesa de Sonça naquele momento. Chegara a hora de revelar o segredo ao Conde Rasku de sua misteriosa paternidade. Somente a Rainha Alzira e o Mago Natu compartilhavam tal segredo a todos ocultado: o menino Rasku não era filho legítimo do Rei Albe, o Rico. Era filho de Adul Thero, conhecido por toda a Corte pelo apelido de Senhor Dugo — o dileto e fiel feitor da Rainha Alzira, assassinado pelo Rei Albe, o Rico, sem motivos aparentes, dadas às circunstâncias misteriosas em que foi encontrado, na mesma noite em que o rei também se suicidara. A dessemelhança entre o Conde Rasku e seu meio-irmão, Rei Naldo, dizia mais respeito ao temperamento do que ao porte físico. Ambos eram notáveis cavaleiros, belos e saudáveis. Rei Naldo, mais introspectivo e sério, pouco conversava, mas, amiúde, dava provas de sua bondade, nobreza e equidade. A beleza do Conde Rasku, todavia, se notabilizava, pois além dos coruscantes olhos azuis e dos anelados cabelos castanho-dourado, seu sorriso perfeito, seduzia e, ao mesmo tempo, ocultava o que possuía de pior no seu caráter: era malicioso e cruel, além de pérfido e egoísta. 256H. H. Entringer Pereira Não havia mais razões, porém, para postergar a revelação de sua origem ao Conde Rasku. O Reinado de Avilhanas já tinha seu rei e prosperava em paz. E o anunciado casamento conferia ao conde o direito de conhecer toda sua estirpe, para que pudesse construir a própria árvore genealógica, inaugurando por conseguinte nova linhagem. Face à maneira sempre correta com que se conduzira e sua devotada fidelidade à memória do marido falecido, Rainha Alzira não dava margem às especulações nem aos mexericos a respeito de sua última gravidez. Pela contagem do tempo, desde que Rei Albe, o Rico, fora encontrado enforcado até o nascimento do menino Rasku, passaram-se exatamente as nove luas cheias: para todos os efeitos, a última coisa que Rei Albe, o Rico, teria feito por derradeiro na sua vida, antes do suicídio, fora um filho. E este filho era Rasku. Disposta a enfrentar o gênio indômito, arrebatado e irascível de Conde Rasku, procurou apoio no filho Calico, o Rei Naldo, de ânimo mais generoso e pacífico, solicitando-lhe o conselho que até então evitara pedir por lhe faltar coragem de compartilhar com ele sua própria infâmia e ignomínia. Não havia alternativas. Chegara a hora, afinal. A sós com Rei Naldo, Rainha Alzira abriu o coração: — Calico, meu filho, não imaginas quanto me custa confessar-te, neste momento, o segredo mais bem guardado de toda a minha vida. — Se vais me contar que Rasku não é meu irmão por parte de pai, não te aflijas. Desde que nos disseste sobre o feitiço da besteira e da aparição da Mula Sem Cabeça, já o imaginava. — E teu irmão, também desconfia? – indagou-lhe preocupada. — Não que eu saiba. Afinal, somos fisicamente muito parecidos. Nossas principais diferenças residem tão somente no caráter. — Tanto melhor. Achas que Rasku já pode saber que não é filho do teu pai? — Minha mãe, ainda que estejas confirmando que Rasku é meio-irmão meu, não revelastes quem é seu pai verdadeiro. Permite-me o atrevimento? — Evidente. Queres que eu mesma diga ou preferes me dizer? — Se eu não acertar, confias em me dizer? — Sim. Quem tu achas que pode ser o pai de Rasku? — O Senhor Dugo, certamente. E, talvez por isso, meu pai o tenha assassinado. Rainha Alzira começou a chorar. Abraçou-se ao filho, balbuciando, entre soluços, a pergunta cuja resposta precisava ouvir do Rei de Avilhanas: — Tu me perdoas? — Ora, minha mãe. Quem sou eu para vos repreender? Nada sinto contra vós e bem compreendo os motivos que vos levaram a tão grave despautério, àquela asneira desmedida. — Quanto a Rasku, não posso mais ocultar-lhe a verdade, mesmo temendo sua odiosa fúria... Pelo que o conheço, será capaz de matar-me ou me odiar, desejando vingar-se pelo resto dos meus dias. — Poupe-se, então. Melhor que não saiba. Nem a Araci vou revelar o que a mim confiastes. Guardarei vosso segredo. 257H. H. Entringer Pereira — Seria mais confortável... Mas não conseguirei ocultar de Rasku a realidade, porque no dia de seu casamento terei de lhe entregar a arma paterna, o sabre de Adul Thero. — Nesse caso, todos ficarão sabendo quem é o pai do Conde Rasku – contrapôs o Rei Naldo. — Ele vai me odiar. Tenho receio de sua impetuosidade. Conheço suas inclinações para a vingança – conjeturou Rainha Alzira. – Achas que Rasku seria capaz de odiar ao ponto de querer me matar? — Que ele vos odiará, não duvido. Mas não vos mataria antes que descobrisse onde estão os vossos 144 quilos das esmeraldas que meu pai ocultou, enterrando em algum lugar. É melhor que não procureis, nem mesmo encontreis este tesouro... se quereis viver depois de contar a Rasku quem é seu pai – falou Rei Naldo, em tom de brincadeira. — Estou pensando: Rasku jamais conhecerá seu pai, tampouco a Adul Thero foi dado o direito de conhecer o filho... Estranhas armadilhas do destino. Sinceramente, ainda não decidi. Pensando melhor, já nem sei se devo revelar... Se Mago Natu estivesse aqui, pediria a ele para que contasse. — Mãe, vós me pedistes um conselho. Na cerimônia, quando Rasku se casar, entregue-lhe o sabre do Senhor Dugo, sem alardes, nem muito palavreado. Simplesmente como tributo póstumo e devida homenagem à memória daquele que foi seu fiel servo. Assim como o Rei Albe, o Rico, morreu levando consigo o segredo de onde enterrou vosso grande e precioso tesouro, assim também morreu com o Senhor Dugo o segredo de Adul Thero, pai do Conde Rasku. — Faremos então um pacto: quando eu descobrir onde estão minhas esmeraldas, direi ao Conde Rasku de quem ele é filho. Rainha Alzira saiu do Salão do Trono e, ao abrir a porta, deparou-se com Conde Rasku. Surpresa com a presença do filho naquela hora, passou-lhe pela cabeça a possibilidade de que já estivesse ali há alguns minutos, ouvindo certamente seu diálogo com o Rei Naldo, atrás da porta. Todavia, não percebeu mudanças no seu semblante, e pela forma com que a abraçou, saudando-a, certificou-se de que ele havia chegado naquele momento. — Salve, salve, Mãe Rainha. Viestes confabular com Calico sobre o meu casamento? — Não exatamente, meu filho! Conversávamos sobre as minhas esmeraldas que o Rei Albe escondeu... Tens algum palpite a respeito? — Por que não mandas cavar no local onde ele se enforcou? — Já o fiz. No exato lugar onde havia sinais de terra revolvida, acharam enterradas as cabeças do Senhor Dugo e da Mula Tá. Ah, e antes de encontrarem as duas cabeças, retiraram da cova um sabre com o nome de Adul Thero gravado na lâmina. Queres portar aquela arma no dia do teu casamento e com ela permanecer, como homenagem ao mais fiel de todos os servos reais? — É da forja de Kalibur? — Certamente. Pela têmpera e beleza, não poderia ter sido de outro artífice. — Então considere-a minha. E do meu pai, o que dar-me-ás? 258H. H. Entringer Pereira — A porção de terras que pertenceu ao Senhor Dugo, contíguas às do teu Condado, para que acrescenteis ainda mais às tuas posses algo do teu pai. Conde Rasku não compreendeu que a porção de terras a que sua mãe se referia, que acrescentaria àquelas que já possuía, era, de fato, a herdade de seu legítimo pai. Naturalmente satisfeito pelo quinhão prometido, imaginou que talvez pudesse estar escondido naquelas plagas do reinado o tão cobiçado e precioso tesouro da Rainha Alzira: as maravilhosas e valiosíssimas pedras verdes. Adentrando sem cerimônia o Salão do Trono, Conde Rasku negou-se observar o protocolo para falar com o Rei de Avilhanas. Enquanto Rei Naldo anotava em finas lâminas de ouro mensagens para convidar os reis vizinhos, seus filhos e outros amigos nobres para festejarem o nascimento de seu primogênito, o príncipe herdeiro, prestes a acontecer, o irmão o interceptou com uma saudação que usavam desde os tempos de adolescentes. Levantando os olhos das folhas de ouro, sem interromper seu trabalho, respondeu à saudação do irmão, perguntando: — O que desejas, Conde Rasku? – voltando os olhos ao que fazia, continuando a tarefa. — Vim saudá-lo, primeiramente, majestoso Rei Naldo, Senhor de Avilhanas. Na qualidade de vosso irmão, penso que agradaria muito à nossa mãe que tivéssemos um relacionamento mais cordial e amigável. — Nunca fui teu inimigo, em princípio... — Mas ainda não me perdoastes pela infelicidade do flagrante na cama com Alba. — Coisas passadas, meu caro irmão... O amor do meu filho Mulato, hoje me recompensa da vergonha que me fizestes sofrer; e pela verdadeira paixão de Alba por mim. Não fosse o trágico final que resultou no sutil encantamento dela naquele pássaro, a Albatroz, teria me casado com ela e não com Araci, arcando com o castigo de perder o direito ao trono deste Reinado. — Neste caso, seria eu o rei de Avilhanas? — Serias. O que farias, fosses tu rei de Avilhanas? Porventura encontrarias o tesouro escondido pelo Rei Albe, o Rico? — Certamente. Não dormiria até descobri-lo. Onde achas que estão as misteriosas pedras verdes? Não tens gana de possuí-las? — Conde Rasku... como és ingênuo, apesar da tua insidiosa malícia... — Por que assim me julgas, Rei Naldo? Achas incorreto alguém pretender o que lhe é de direito? — Nem tanto. Parece-me incorreto, meu nobre irmão, pleitear o que por direito não lhe é pertinente. — Reputa-me indigno do meu quinhão? — Em absoluto. Discordo da irrefletida ânsia e desta aflição desvelada por te assenhorear daquele tesouro, cismando em fazer-te rico. Não te esqueças de que antes de nós dois, as preciosas pedras verdes pertencem de fato à nossa mãe, cabendo a ela querer ou não as encontrar. 259H. H. Entringer Pereira — Calico, nossa mãe já desistiu de seus sonhos. Mesmo porque nada lhe interessa mais, nem se ocupa atualmente de outra coisa que não pintar quadros de mau gosto e tocar cavaquinho. — Rasku, Rainha Alzira é a mulher mais inteligente que conheço. Lutou e continua pelejando com forças potencialmente misteriosas, sem temer nem se dominar pelo medo. Desafia poderes ocultos inferiores, não por abuso, mas por sua superioridade, benevolência e equidade. Nossa mãe fez por merecer seu cognome de soberana RARA, tanto por mérito quanto por honradez. — Vejo que meu irmão é um ardoroso defensor dos afetos filiais... com justa razão. Afinal, da Rainha Alzira recebeste o glorioso trono de um reinado rico e pujante apenas por seres primogênito e beijar-lhe as mãos, submisso e dócil... Quanto a mim, não me aquinhoou o destino com tanta candura e sujeição. Não me deu a natureza ânimo de afetada humildade e servil rebaixamento. — Conde Rasku, insinuas que recebi o trono de Avilhanas de mão beijada? Ofende-me tua insolência e irreconhecida ingratidão. Não somente és ingrato à Rainha Alzira, que te aquinhoou com as belas terras do teu Condado, como o sois à figura da nossa venerada mãe, que desacatais na minha pessoa. — Desculpe-me, Senhor Rei Naldo, se vos ofendo. Apenas manifesto com sinceridade meu sentimento de que na balança do coração da Rainha Alzira um prato é teu, o outro da Rainha Araci. Sinto que me excluem e que me ocultam alguma verdade inconveniente. — E tu também nos oculta algo que teu coração sonega? Por acaso pretendes casar-vos com uma mulher tão mais velha, ainda que bonita, só por amor? A pergunta deixou Conde Rasku encabulado. Era preciso sair do assunto, sem transparecer que havia algo oculto no interesse repentino do Conde Rasku pela Marquesa de Sonça, a Senhora Pan Thera. — Rei Naldo, Senhor de Avilhanas, ocupo-me agora exclusivamente do meu casamento. Vou preveni-lo de que, até antes de casar-me, escavarei por todos os locais que suspeito ocultar o tesouro do Rei Albe, o Rico, quer dizer... da Rainha Alzira, a Soberana RARA. Até mais vê-lo. Salve, salve. — Escave à vontade, Conde Rasku. Dentro dos limites do teu território. Se o fizerdes onde não vos pertence, tenho autoridade o bastante para mandar matar-vos. Dando de ombros, como se não tivesse ouvido a advertência do Rei Naldo, deixando o Salão do Trono, o belo Conde Rasku, antes de bater a porta atrás de si, ainda falou a ele: — Estou me preparando para viajar ao Reinado de Trindade. Vou ao casamento do Bruxo Neno. Não irás? — Estou aguardando o nascimento do meu filho. Aproveite e leve à Corte do Rei Mor o convite para a festa do nascimento de Gesu Aldo. Creio que as datas vão coincidir: a da festa de nascimento com a data do casamento. Apresente minhas desculpas. Conde Rasku bateu a porta meio irritado, enquanto o rei prosseguiu gravando suas placas de ouro, formulando o restante dos convites para a festa da natividade do esperado Príncipe Gesu Aldo. 260H. H. Entringer Pereira Pensando sobre o comportamento astucioso de seu meio-irmão, o rei de Avilhanas concluiu que, por direito, era também honesto revelar a Rasku sua filiação, porém não era prudente intentá-lo naquele momento. A vingança e o ódio de Rasku seriam implacáveis. Não obstante o provável revide, não descartava a possibilidade de ele, por vingança e revolta, tramar a morte não só da rainha-mãe como de sua mulher, Rainha Araci, ou dos filhos que porventura viessem ter. Que Rasku era perigoso e pérfido não havia dúvidas. Era preciso vigiar-lhe os passos, mantê-lo sob controle e, na medida do possível, evitar contrariá-lo. O arauto real anunciou com sua trombeta a chegada de um visitante. Rainha Alzira abriu a janela de seus confortáveis aposentos e viu a caravana se aproximando. Além dos fornecedores de provisões para o Palácio das Esmeraldas, junto dos mercadores, uma mulher com suas damas de companhia e servos desceram das carruagens. Facilmente identificou a primeira delas: era Professora Plínia. Em meio a uma festiva algazarra, viu também descarregar dos animais uma canastra de cobre e madeira marchetada, com o desenho de um pássaro, trazendo ao bico um bebê: era a bagagem da Senhora Natividade da Luz, a parteira das rainhas. O coração da Rainha Alzira acelerou-se e ela, por breves instantes, lembrou-se das duas últimas vezes em que a parteira veio ao palácio: por ocasião do nascimento do menino Mulato e, anteriormente, no nascimento de seu filho Rasku. Lembranças que lhe traziam secretos sofrimentos, pois evocavam recordações que Rainha Alzira preferia não trazer ao presente. Arrumou-se, penteou sua longa cabeleira já agrisalhada, desceu as escadarias e veio ao pórtico principal receber suas nobres e queridas visitantes. Rainha Araci também estava na recepção, segurando carinhosamente sua barriga com muita expectativa, feliz por saber que teria a assistência da competente profissional, Senhora Natividade da Luz, além da assessoria impecável da Professora Plínia, que entendia como ninguém de todas as arrumações necessárias para uma grande e inesquecível comemoração. Rei Naldo não economizou gentilezas, providenciando as melhores acomodações, os mais saborosos acepipes, engalanando o Palácio das Esmeraldas com os adornos e emblemas próprios daquela Casa Real, exibidos pela derradeira vez na festa de sua coroação como Soberano de Avilhanas e casamento com a Rainha Araci
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA LIVRO 3 CAPITULO 62
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A GAIOLA Chegar com sua nova corte ao Reinado da Madeira foi umas das grandes alegrias que a Imperatriz Gônia compartilhou com o Imperador Médium, ainda que o motivo principal da viagem também lhes causasse mais preocupações que simplesmente deleite. O Palácio da Madeira, uma portentosa construção de pedras e madeira, rústico, mas luxuosamente confortável, não tinha o mesmo esplendor que o Palácio Fortaleza, no entanto seus bem cuidados jardins, artisticamente projetados, só rivalizavam com os do Palácio das Esmeraldas, cultivados com muito zelo pela própria soberana Rara, Rainha Alzira. Bem em frente ao palácio, um canteiro de rosadas flores exóticas, muito exuberantes, parecendo de porcelana, chamou atenção do Imperador Médium, que ainda não as conhecia. Encantado com sua beleza, perguntou à Imperatriz Gônia: — Que maravilhosas. Como se chamam? — Não têm nome ainda. Nasceram aqui desde que sepultamos o meu pavão cor-de-rosa e branco neste local. Para mim vão sempre lembrar meu pavão encantado. Dê-lhes o nome que quiser... — De agora em diante, serão conhecidas como Bastão do Imperador (Etlingera elater ), em minha homenagem! – disse, gracejando. A Imperatriz sorriu e concordou: — Assim seja! Reencontrando nobres amigos, vassalos e serviçais do Palácio da Madeira, atualizaram-se das notícias com os minuciosos relatórios sobre os acontecimentos desde a viagem da Rainha Gônia para o Reinado do Elo Dourado quando da celebração de suas núpcias. A Imperatriz e o Imperador, recebidos com honrarias e festas, sentiram a ausência do Arauto Real, o Senhor Gaio, que não veio saudá-los em cumprimento ao protocolo da recepção do casal imperial. Cumpridas as formalidades da chegada, logo a Imperatriz perguntou onde se encontrava o Senhor Gaio, considerado por ela seu segundo pai, a quem carinhosamente tratava de Papai Gaio, um nobre e honrado cortesão, arauto real do Palácio da Madeira desde tempos imemoriais. Senhor Gaio desfrutava de grande notoriedade. Informado e bem-falante, era quem se incumbia de levar à Rainha Gônia todas as novidades do reinado, além de dedicar-lhe especial apreço e paternal afeição, merecendo dela, em contrapartida, consideração e devotamento de filha. — Como está o meu Papai Gaio? – perguntou a sua afetuosa ama, Senhora Grã Dona. — Em situação bem delicada, Senhora. Assim que a Imperatriz viajou, entristeceu-se, calou-se e parece descontente de viver... — Preciso vê-lo agora mesmo. Pelo janelão dos aposentos do Senhor Gaio, entrava a luz da tarde. A brisa que vinha do rio da Madeira arejava todo o espaçoso cômodo. Ao anúncio da chegada da Imperatriz Gônia com o marido, o Imperador Médium, o Senhor Gaio postou-se de pé 250H. H. Entringer Pereira com dificuldade e, fraquejando, veio ao seu encontro, abraçando-os saudoso. O coração da Imperatriz encheu-se de tristeza, seus olhos marejaram lágrimas. Diferençava bastante no semblante de quando o vira pela derradeira vez, antes de viajar. Reunindo suas derradeiras forças, o Senhor Gaio correspondeu aos abraços da Imperatriz e balbuciou trêmulo, com a voz rouca e grave: — Minha filhinha querida, minha amada rainha... Gônia, minha rainha... Minha... rai... min... E prostrou-se, desmaiando aos pés da Imperatriz que, na tentativa de ampará-lo sustentou-o por debaixo dos braços, e subitamente desapareceu o peso do Senhor Gaio, desfez-se o formato de seu corpo e, ao olhar para suas mãos, a Imperatriz segurava um maravilhoso pássaro de penas verdes brilhantes, bico encurvado, lembrando o nariz adunco do Papai Gaio. Transformara-se numa ave diferente de todas as que ela conhecia. O Senhor Gaio havia se encantado. Surpresa e enternecida, murmurou: — Meu Papai Gaio, meu Papá Gaio, fique sempre comigo! A ave subiu-lhe aos ombros e continuou falando: — Gônia, oh Gônia!... Sou eu... seu papai Gaio... Sou seu papá, seu papagaio! Apenas o Imperador e a Imperatriz presenciaram o momento daquele encantamento. Dali por diante, a todos os lugares que se dirigiam, o Papagaio os acompanhava, despertando admiração pelo seu inusitado jeito de falar, cantando e alegrando o casal imperial, como se continuasse exercendo sua honrosa e vitalícia função de arauto real. A Imperatriz tratou de reservar como vivenda para sua encantadora e estimada ave verde uma grande jaula de ouro, residência antiga de uma outra ave que muito estimara: um raro pavão cor-de-rosa, cuja morte, há alguns anos, deixou-a entristecida e consternada. A jaula ornamentada de belas flores de prata, cravejadas de pedras preciosas, com poleiro de marfim, seria então a pousada noturna a sua encantadora e falante ave verde. Todos os dias, ao cair da noite, entregava a ave falante nas mãos do Imperador Médium, solicitando: — Por favor, leve meu Papai Gaio lá para dormir! Ao anoitecer, era o Imperador Médium quem carinhosamente cumpria aquele ritual, pegando a ave encantada de plumagem verde brilhante pelos pés, conduzindo-a dos arbustos e arvoredos dos jardins do Palácio, onde passava todo o dia, até a maravilhosa jaula, atendendo ao pedido da Imperatriz. Já habituada àquela rotina, a ave falante divertia o Imperador, conversando com ele durante o percurso do jardim até sua pousada, imitando a ordem da Imperatriz: — Médium, Médium, leve o papai Gaio lá... leve o papagaio lá! O hábito de levar o Papai Gaio lá, fez com que o Imperador denominasse aquela clausura de GAIO LÁ, Gaiola.
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URUCUMACUÃ H.H.ENTRINGER PERERIRA - LIVRO 3 CAPÍTULO 61
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O NASCIMENTO DE OUTROS PRÍNCIPES E PRINCESAS, INCLUINDO URUCUMACUÃ E KUROKURU Quando os derradeiros hóspedes do Palácio Fortaleza, remanescentes da festa de casamento, regressaram aos seus próprios reinados, o imperador, Rei Médium, e a Imperatriz, Rainha Gônia, se empenharam na administração dos interesses de seus vastos domínios, nomeando intendentes nas diversas áreas de interesse do Império do Elo Dourado. Convocaram tantos conselheiros reais quantos foram necessários, entre os que apresentavam melhor disposição de trabalho e competência para a gestão administrativa, visando restaurar a ordem e o equilíbrio, com a manutenção da paz e o contínuo progresso do colossal e recém-formado. Restabelecida a rotina no Palácio Fortaleza, o imperador, Rei Médium, pôde voltar as suas observações astrológicas, dando continuidade aos estudos e à prática dos rituais da alta Magia. Sempre que precisava se defender das incessantes interferências de bruxos e feiticeiros que agiam naqueles domínios atendendo desígnios de soberanos rivais, desdenhosos e invejosos da beleza, da exuberância e da incomparável riqueza da cidade do Elo Dourado, recorria à proficiência do Mago Natu. Devido à ausência deste, em viagem demorada para o Reino da Perfeição, interessara-se, ele mesmo, ainda mais, por desvendar os secretos e misteriosos efeitos da baixa magia manipulada pelo Bruxo Neno, que utilizara, sem qualquer escrúpulo, poderes ocultos na transformação de alguns de seus especiais convidados – um rei, duas rainhas, dois príncipes e uma princesa – em horrendas criaturas das águas: o Rei Negro Norato transformara-se na Cobra Grande (Cobra Norato); a Rainha Zomba, no peixe arara, a Pirarara; a Rainha Trapa, na Enguia (Poraquê ou Peixe-Elétrico); o Príncipe Pintado, no peixe Pintado; o Príncipe Ur, no peixe Surubim; e a Princesa Kachara, no peixe Cachara. Ainda que o objeto utilizado pelo Bruxo Neno para produzir aqueles encantamentos – a joia de camafeus da Tia Ara pertencente à Rainha Gônia – já estivesse neutralizado e desencantado, transformado pelo Mago Natu num inofensivo punhado de amendoins, preocupava-se o Imperador Médium com a possibilidade de vingança do Bruxo Neno. Ao se mudar para o reinado do Rei Mor, no Reino de Trindade, certamente ele acrescentaria outras forças ocultas aliando-se a sua mãe, a Feiticeira Zureta, apelidada de Zuzu, a Sacerdotisa das Sombras, igualmente moradora do Reinado de Trindade. Não descartaria a provável conjugação de esforços para desestabilizar a paz e a ordem do Império do Elo Dourado. O Imperador Médium, informado por seus vassalos das proezas mágicas da Sacerdotisa das Sombras, a Feiticeira Zuzu, temia suas invectivas contra seu império, porque não duvidava da probabilidade de a feiticeira lançar mão das poderosas forças magnetizadas com o encantamento do bridão de ouro que pertencera à Mula Tá do seu tio-avô, Rei Albe, o Rico. Depois dos testemunhos da Rainha Araci e do marido Rei Naldo, o Calico, do Reinado de Avilhanas, sobre os controvertidos acontecimentos decorrentes da utilização daquele bridão de fios de ouro, que se encontrava agora sob a posse da carocha, Rei Médium temia que a feiticeira continuasse usando a seu bel-prazer aquele instrumento 243H. H. Entringer Pereira para desencadear catástrofes, dizimar plantações, estragar colheitas, encantar pessoas em animais ou produzir outras feras e monstros. Havia, porém, entre as informações desencontradas, uma que carecia averiguar. Ao mesmo tempo em que circulavam comentários de que o bridão mágico permanecia sob poder e guarda da Feiticeira Zuzu, coisa que o Mago Natu confirmara e o próprio Rei Mor contara ao Bruxo Neno, também chegou-lhe aos ouvidos que o mesmo acessório encantado fora vendido pela feiticeira à Marquesa de Sonça, por boa quantidade de pedras preciosas, antes de se mudar para o Reinado de Trindade. A marquesa mantinha aquela valiosa peça mágica guardada sob chaves, no mais secreto dos secretos esconderijos de sua mansão. Segundo comentavam maliciosamente, essa seria a razão principal que levara o belíssimo e intrépido sedutor, Conde Rasku, irmão do Rei Naldo, a proclamar seu noivado durante a festa de casamento do Imperador, anunciando a intenção de esposar a não menos sedutora e voluptuosa Marquesa de Sonça, a Senhorita Pan Thera. “Haveria, então, dois bridões encantados? ”, inquietou-se Rei Médium. “Ou a Feiticeira Zuzu teria duplicado a peça, falsificando-a e vendendo a cópia? Ou teria ficado com a cópia e, inadvertidamente, vendido o original? Em que mãos estaria o objeto verdadeiro?” Esquecera-se de questionar sobre o tal dilema, assunto do qual o Mago Natu certamente lhe daria a resposta exata. Interrompendo os momentos de estudo e meditação do marido em seu claustro, Rainha Gônia adentrou a Câmara do GRAU. Afoita e um tanto ansiosa, desculpou-se pela interferência nos contatos do marido diante do Espelho Universal (EU), com quem ele se consultava sempre que algo o inquietava ou requeria solução urgente. A Imperatriz solicitou ao Imperador Rei Médium sua pedra redonda, o cabochão de diamante presenteado pelo Grande Rei. Explicou que precisava vê-lo. Antes de entregar-lhe o objeto, o marido, pegando na tal pedra de filosofar, a examinou atenciosamente, passando às mãos da mulher, observando: — Gônia, olhe bem dentro do cabochão. Consegues ver algo? — O que queres que eu veja diz respeito a mim ou a ti? — Parece com alguém que conheces? – perguntou, mostrando o semblante de uma pessoa que se apresentava no interior da cristalina pedra reluzente. Colocando o valioso cabochão brilhante na palma aberta da mão esquerda, a Imperatriz lembrou-se das recomendações do Grande Rei sobre os poderes mágicos especiais imantizados naquele coruscante diamante. Dirigiu o pensamento ao Grande Rei e viu quando se projetou no centro translúcido, em miniatura, uma pessoa acamada: — É Gaio, o meu segundo pai. Meu Papai Gaio. Parece-me que está de cama! — surpreendeu-se a Imperatriz. — Exatamente. Penso que deveremos nos ausentar do Palácio Fortaleza por uns tempos. É bom que visitemos o Palácio da Madeira. — Concordo. Estou mesmo precisando rever meu adorado palácio e sinto que meu Papai Gaio parece adoentado! A Imperatriz Gônia, saudosa de rever sua antiga Corte, manifestou ao marido o desejo de se ausentar do Palácio Fortaleza, ainda que por breve tempo. Dizendo-se, além de preocupada com o que vira no cabochão de diamante, muito saudosa de sua 244H. H. Entringer Pereira aprazível e antiga moradia, no Reinado da Madeira, lugar também encantador, onde nascera, crescera e reinara, desde a época do misterioso desaparecimento de seus pais, o Rei Ofin e a Rainha Tarope. Disposto a satisfazer-lhe os desejos para que nenhuma tristeza pudesse abatê-la, turvando-lhe a beleza, o Imperador Médium planejou de pronto a demorada viagem, reunindo e escolhendo dentre seus súditos os que iriam acompanhá-los, arrumando suprimentos nas embarcações, tudo quanto fosse necessário ao conforto e à sobrevivência da comitiva real, durante o extenso percurso pelas águas do plácido rio Aguaporé. Entre os mimos e objetos ganhados no seu casamento, um deles especialmente pelas características secretas, a Imperatriz Gônia resolvera não deixar exposto à curiosidade da criadagem: a grande caixa preta de madeira, que só o tempo haveria de abrir, quando nascessem os filhos gêmeos Urucumacuã e Kurokuru. Pediu ao Imperador que a guardasse na Câmara do GRAU, no compartimento onde a nenhum serviçal era permitido penetrar. O outro, pela afeição e ternura que lhe despertara, conseguiu que o marido providenciasse acomodação especial na embarcação para transportar: o filhote do animalzinho de pelagem branca, presenteado pelo Rei Kornio e pela Rainha Bisca: o fofo e adorável Unikórnio. Levaria consigo também seu cabochão de diamante. Antes de partirem para demorada jornada até ao Reinado da Madeira, o Imperador Médium se lembrou do pedido que lhe fizera o amigo Mago Natu: que encomendasse as duas espadas dos filhos gêmeos, cujo nascimento aconteceria dentro dos três anos. Era preciso tempo o bastante para que o habilidoso ourives e inigualável ferreiro Kalibur pudesse aprontá-las com indispensável esmero, requerido pelo Imperador Médium. Seus futuros donos e legítimos senhores, o Príncipe Urucumacuã e o Príncipe Kurokuru, certamente teriam não só as melhores, mas as mais belas espadas que o joalheiro, ourives e ferreiro já fabricara. Dirigindo-se às forjas de Kalibur, o Imperador levou uma preciosa quantidade de esmeraldas, rubis e brilhantes, além de ouro fino para modelar as empunhaduras das espadas. O metal das lâminas o próprio Kalibur providenciaria, pois a liga com que as preparava era o seu mais bem guardado e indevassável segredo. Imperador Médium detalhou sua encomenda, fazendo apenas uma recomendação: — Senhor Kalibur, deverás incrustar os rubis na espada do Príncipe Urucumacuã e as esmeraldas na do Príncipe Kurokuru. Os brilhantes nas duas, conforme teus próprios critérios, lembrando-te de que na espada do Príncipe Urucumacuã deverás insculpir o emblema do Império do Elo Dourado, acrescido de um pássaro adornado de rubis. Na espada do Príncipe Kurokuru, esse mesmo emblema, porém no lugar do pássaro, farás um sapo adornado com as esmeraldas. — De todas as encomendas que de vós recebi, Senhor Imperador, esta é a mais nobre e a mais honrosa. Permita-me, Senhor, fazer-vos um modesto e singelo comentário. Por que emblemas tão diferentes para uma e outra, se os príncipes serão gêmeos? — Senhor Kalibur, são mistérios que não nos cabe questionar. Estou vos transmitindo a ordem conforme recomendação do Mago Natu. Deste momento em 245H. H. Entringer Pereira diante, está dada a Ordem Imperial da Espada do Pássaro de Fogo e a Ordem Imperial da Espada do Sapo Verde, no Império do Elo Dourado. O Senhor Kalibur desculpou-se pela ousadia de questionar a imperial ordenação e timidamente pediu ao Imperador Médium: — Grande Imperador, Senhor do Elo Dourado, dá-me a ordem para fazer uma outra espada, para meu futuro filho? — Então também esperas por um filho? – surpreendeu-se o Imperador. — Sim – respondeu Kalibur – antes que o Mago Natu partisse, falou-me e à minha mulher que teremos um filho em breve. Seu nascimento antecederá o de vossos reais príncipes. Ele será chamado pelo nome de Guará. Será guardião e companheiro de vossos príncipes. — Tens, a partir de agora, minha autorização para confeccionar a espada. Já sabes o emblema que lhe convém? — Ainda não. Quero ouvir a ordem de Vossa Imperial vontade. — Faça-lhe a espada com o emblema de um lobo e incruste-lhe nos olhos rubis e brilhantes, com uma pedra ônix no centro. Pertencerá à Ordem Imperial da Espada do Lobo dos Olhos Vermelhos. — Assim farei, Senhor Imperador. Numa reverência respeitosa e amiga, saudou o Imperador, que também o abraçou antes de se despedir, avisando-o de que se ausentaria por algum tempo da cidade do Elo Dourado com a Imperatriz Gônia. Quando voltassem, provavelmente o menino Guará já haveria nascido. Das forjas do Senhor Kalibur, o Imperador Médium dirigiu-se às cavalariças. Levou consigo suas finas lâminas de ouro sobre pranchas de madeira e o pontiagudo estilete para anotações e o assentamento dos potros nascidos naquela semana. Inicialmente, foi à baia da égua Metida, registrando o potrinho negro já denominado Tição, registrado sob o número 171 de sua lista de corcéis nascidos naquele último ano. Conversou com o palafreneiro, que esfregava a almofaça num jovem e irrequieto corcel branco e perguntou: — Já iniciastes a doma deste corcel? — Não é tempo ainda, Senhor Imperador. Ele estará perfeito para montaria daqui uns três anos. Pretendeis que eu o faça logo? — Sim, iniciai este trabalho. Quero domados alguns dos meus melhores corcéis, para quando meus filhos puderem cavalgar, os dois melhores dentre os que já estiverem prontos serão reservados a eles. Quero também que deixes o Tição, aquele potrinho negro que nasceu na noite do meu casamento, adequadamente adestrado tão logo atinja a idade própria. Vou entregá-lo como prêmio ao vencedor da grande Corrida Numpessó, quando comemorarmos o nascimento dos príncipes Urucumacuã e Kurokuru. Recomendou ao cavalariço trato diferenciado ao único exemplar negro de sua criação de corcéis, o Tição, por isso, separado como prêmio ao ganhador da Corrida de Numpessó. Haveria ainda outras duas premiações que tencionava entregar ao primeiro e ao segundo corredores colocados. Voltou às forjas de Kalibur e fez a encomenda: 246H. H. Entringer Pereira — Senhor Kalibur, apronte-me outra encomenda. Faça-me a gentileza de forjar uma taça de ouro, cravejada de brilhantes, no formato deste copo. Assim também outro objeto, todo de prata, no formato desta bacia, só que mais funda, com uma alça em cada lado. Adorne-a com estas pequenas pérolas. Descreveu os tamanhos e os formatos dos objetos pretendidos e entregou ao Senhor Kalibur os materiais necessários para a confecção das duas peças com as quais honraria os dois melhores corredores de Numpessó, por ocasião do nascimento dos príncipes. De volta ao Palácio Fortaleza, no grande portal da ala Leste, reservada à entrada dos cavaleiros, o Imperador recebeu um aviso de seu emissário: — Saúdo-vos em Paz, Grande Imperador. Anuncio-vos uma visita que já vos aguarda no Salão de Audiências. — Quem é, dizei-me... — O Senhor Frutuoso. — Diga-lhe que não demoro a atendê-lo. Imperador Médium desmontou-se, entregou seu corcel para ser levado às baias e dirigiu-se até o salão onde o aguardava o Senhor Frutuoso. Ao ver o Imperador, o humilde súdito curvou-se e, sem direcionar os olhos ao soberano, saudou-o: — Grande Imperador Médium, Paz e Saúde vos abençoem! — Senhor Frutuoso, o que vos aflige? — Senhor Imperador, desculpe-me incomodar-vos com assunto de tão pequena importância... Mas, trata-se de algo que Vossa Realeza Imperial deve dizer-me como proceder. — Sim. Dizei-me do que se cuida. — Trago-vos este anel. Olhai-o e avaliai. Parece-vos uma joia de real valor ou apenas uma imitação de um adorno vulgar? Examinando cuidadosamente a peça, o Imperador Médium emitiu sem titubear sua avaliação: — Trata-se de finíssima e preciosa joia de grande valor. Ainda não vi brilhante mais raro e de tão avantajado quilate. De quem o adquiriste? — Senhor Imperador, esse é o meu grande dilema. Não descobri ainda de quem é, nem a quem pertence essa maravilhosa joia... — Isto quer dizer que a encontraste? — Exatamente, Senhor... — Dizei-me onde, como e quando? Senhor Frutuoso, nascido e criado na cidade do Elo Dourado, era descendente de uma tradicional família camponesa que sempre se dedicou exclusivamente a produzir variedades de frutas e verduras. Desde jovem, herdara dos pais o especial pendor para o cultivo de espécies diversas, algumas bem raras, mantendo na chácara em que morava uma extensa área plantada com fruteiras, recanto predileto dos pássaros, borboletas e abelhas. A propriedade do Senhor Frutuoso era uma espécie de paraíso particular de tão bem cuidada. Na cidade do Elo Dourado, numa singela e acolhedora construção de pedras, toda avarandada, comercializava seletas variedades do que cultivava e colhia. 247H. H. Entringer Pereira Senhor Frutuoso ficara viúvo há alguns anos, antes de ter tido filhos, na mesma época em que o pai do Rei Médium, Rei Pay, também enviuvara. Acostumara-se tão rápido à viuvez que não mais intencionara casar-se. Vivia exclusivamente dedicado à lida do pomar, na qualidade de homem simples, mas trabalhador, honrado e virtuoso, pelo que granjeava a distinta consideração de toda a nobreza e dos demais moradores do reinado. Por suas qualidades, tinha livre acesso ao Palácio Fortaleza, que mantinha sempre farto e bem provido de todas as delícias que cultivava. O Imperador, por isso, o tratava com requintes de fidalgo. Sua frutaria era frequentada pela alta corte do Elo Dourado e, amiúde, transformava-se em ponto de encontro não só dos nobres, mas também dos populares, que desfrutavam aprazíveis momentos, conversando e saboreando os frutos doces e suculentos dos cultivares do Senhor Frutuoso. À pergunta do Imperador, o Senhor Frutuoso respondeu: — Senhor Imperador, como sabeis, passam pelo meu comércio nobres e súditos não só deste como também de outros reinos que nos visitam. Recebo em estabelecimento desde a Vossa imperial pessoa até o vosso mais humilde serviçal. Logo após a festa de vosso casamento, que a nenhuma outra se poderá comparar, muitos de vossos convidados honraram-me com suas presenças. Depois que quase todos se foram, fiz uma grande conferência nas minhas bancas de frutas, para contar as unidades vendidas e as restantes nas cestas, para calcular meu lucro correspondente às moedas de ouro que recebi. Quando concluía o procedimento, limpando uma das bancas que praticamente estava com os cestos vazios, deparei-me com este precioso anel deixado no fundo de uma delas. Fiquei receoso de sair indagando diretamente aos vossos súditos, ou mesmo aos vossos nobres convidados, a quem deles pertenceria, porque receei que qualquer que não fosse o dono legítimo se passasse por tal, tentando enganar-me. — Estais certo, Senhor Frutuoso... É evidente que tão valiosa peça pertença a um rei, uma rainha ou algum fidalgo da Corte. — Decerto, Senhor Imperador. Este é o motivo que me traz até vós. Quero saber se algum dentre os vossos convidados notificou a perda desta preciosidade. E, também, solicito vossa orientação quanto ao que devo fazer com este valiosíssimo objeto. Tenho comigo que deverei entregá-lo a vós para que fique honrosamente depositado e em segurança, até que seu verdadeiro dono o reclame. — Senhor Frutuoso, muito me alegra vossa conduta fiel e honrada. Todavia, o mais digno depositário desta joia sois vós. Fique com ela e a guarde em sigilo para que malfeitores não venham saber que tens sob vosso poder objeto tão precioso. Espere até que seu dono o reclame. Dentro de algum tempo, haverá a festa de nascimento dos meus filhos e, certamente, os mesmos convidados estarão por aqui, novamente. Assim, poderás devolver o anel pessoalmente, ao legítimo proprietário. Não indagues a ninguém mais sobre este achado. Falastes com alguém mais a respeito deste anel? — Não propriamente, Senhor Imperador. Lembro-me, no entanto, de que no momento em que o resgatei dentre as frutas, havia um dos vossos convidados, um dos derradeiros a retirar-se naquela tarde da frutaria. Sinto que ele percebeu quando o peguei no fundo da cesta e o coloquei no cofre... 248H. H. Entringer Pereira — Tinha aquela pessoa aparência de nobre ou ares de fidalgo? Vós o conheceis? — Sim, estava ele momentos antes em companhia do Rei Mor, da Rainha Sissu e de um príncipe cujo nome não me lembro... Depois que os outros três saíram... o Bruxo Neno... sim, era ele mesmo, o Bruxo Neno, demorou-se mais um pouco, escolhendo algumas outras frutas para comê-las durante a viagem de mudança para o Reinado de Trindade, segundo me confidenciou... Não perguntei a ele se o anel lhe pertencia, porque não é o tipo de joia que um bruxo poderia ter, nem tampouco haveria de ser do Rei Mor, da Rainha Sissu ou do príncipe porque nenhum deles circulou nas proximidades da cesta em que o anel foi deixado. — Senhor Frutuoso, não temo que o Bruxo Neno seja motivado a molestá-lo para se apoderar do anel, mas receio que comente o acontecido com pessoas de seu relacionamento, pouco ou nada escrupulosas, na intenção de fazer-se de importante e conhecedor de segredos no intuito de angariar fama e credibilidade. Este me parece o verdadeiro perigo. — Neste caso, ficai com o anel, Senhor Imperador! É mais seguro para mim e estarei a salvo de quaisquer contratempos. — Parece-me razoável, Senhor Frutuoso, a vossa proposta. Mas estou para me ausentar por uma temporada da cidade do Elo Dourado. Estando o dono do anel ainda por aqui, certamente virá procurá-lo nos mesmos lugares por onde passeou. Ficará mais fácil reencontrá-lo se estiver convosco. Fique com a joia. Também estará segura sob sua guarda. Senhor Frutuoso, com a posse do magnífico anel de brilhante autorizada pelo Imperador, despediu-se respeitosa e reverentemente, augurando ao Imperador Médium feliz viagem em companhia de sua adorável Imperatriz Gônia. Entregou uma cesta repleta das mais saborosas ameixas e apetitosos pêssegos, preferências da Imperatriz, colhidos especialmente no alvorecer.
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA LIVRO 2 CAPÍTULO 60
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NASCIMENTO DA PRINCESA HÉVEA Exatamente quarenta e cinco dias haviam se passado, desde que a Professora Plínia iniciara as aulas de leitura de seus manuscritos sobre o casamento do Rei Médium e da Rainha Gônia e de alguns outros episódios envolvendo personagens do mundo em que viviam os dois príncipes gêmeos. Com muita paciência e zelo, explicara alguns trechos que exigiam mais atenção, com palavreado simples e resumindo outros; não ia além do que a compreensão do Príncipe Urucumacuã e do Príncipe Kurokuru suportava, embora os dois meninos possuíssem excepcional capacidade de entendimento. Nada ainda havia relatado com referência às efemérides do nascimento de Urucumacuã e Kurokuru. Quando Professora Plínia olhou para o céu, avistou um pássaro branco, identificado por Albatroz, cruzar num voo elegante, de Leste a Oeste e depois de Norte a Sul, sobre o pátio interno do Palácio Fortaleza. Imediatamente, se levantou, desculpando-se com os príncipes: — Queridos Urucumacuã e Kurokuru, hoje não teremos nem mais leitura, nem mais histórias. Preciso preparar o cerimonial para a recepção da Princesa Hévea, que deve estar nascendo. Ela chegou neste momento. — Princesa Hévea? Nossa irmã? – falaram juntos. — Sim. Ela mesma. Depois que a Senhora Natividade da Luz trouxer o bebê para mostrá-lo ao Sol, e a Rainha Alzira depositar o óleo de mirra e o sal cor-de-rosa atrás da porta nos aposentos de vossa mãe, podereis entrar para conhecer a princesinha e desejar-lhe boas-vindas! Fechou os manuscritos dentro de uma caixa dourada, concluindo: — Não haverá festa no Palácio Fortaleza desta vez, conforme houve quando vós nascestes, mas só voltaremos às nossas histórias de hoje em sete dias... — Professora Plínia, já entendi o que se passou até o casamento dos meus pais. Hoje está fazendo dez anos que eles se casaram e sete anos que nós nascemos... O Príncipe Kurokuru, menos paciente que o irmão, manifestou-se: — Por que não vai haver sete dias de festa, se hoje também estamos inteirando sete anos? — Querem que eu continue contando a história para entenderem por quê? – indagou Professora Plínia, brincando com os dois. — Por mim, a gente continua escutando as histórias, já que não teremos festa – opinou Urucumacuã. — Por mim, só daqui a sete dias mesmo. Estou com vontade de sair com meu pai, para catar folhas – preferiu o Príncipe Kurokuru. Então, continuaremos de hoje a sete dias. Passados os sete dias do nascimento da Princesa Hévea, a Professora Plínia, depois de cumpridos todos os rituais propiciatórios com os pais da recém-nascida e o Mago Natu, reiniciou a leitura de seus manuscritos aos dois príncipes, voltando à história, a partir da época em que os convidados da festa do casamento do Rei Médium com a Rainha Gônia voltaram para os seus reinados, já convidados para um outro casamento no Reino de Trindade – do Bruxo Neno com a serva Murmur – e para os cerimoniais de nascimento do Príncipe Gesu Aldo, filho do Rei Naldo com a Rainha Araci, no Reino de Avilhanas. Continuando, assim disse Plínia...
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA LIVRO 2 CAPÍTULO 59
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A DESPEDIDA Na Praia da Lua Clara, uma multidão de convidados ocupava seus lugares às mesas para o monumental banquete de despedida do casamento imperial. Não havia lugares desocupados, à exceção dos cinco assentos marcados com os nomes Rei Negro Norato, Rainha Zomba, Princesa Kachara, Príncipe Surubim e Príncipe Pintado. Nenhum dos convidados próximos daquelas cadeiras teve audácia suficiente para indagar ao Mago Natu porque ainda não havia desfeito o embaraçoso feitiço. Tampouco houve corajoso suficiente para exigir providências quanto à leviana e inconsequente atitude do Bruxo Neno. Os vizinhos das cadeiras vazias guardavam silêncio indicativo de que confiavam que algo ainda pudesse acontecer no sentido de reverter o encantamento dos cinco. Deslumbrante, vestida de prateado, com um arranjo de mimosas orquídeas lhe adornando os cabelos, na falta da joia da Tia Ara, a Imperatriz Gônia verteu para si todos os fascinados olhares quando chegou envolta numa nuvem de borboletinhas brancas, ao lado do Imperador Médium, não menos garboso, trajado de branco, sob uma casaca bordada de ouro. Não havia no local casal mais sobranceiro. O Grande Rei veio recebê-los; colocando-se entre os dois, conduzia a Imperatriz a sua esquerda e o imperador, a sua direita. Levou-os até o lugar reservado, preparado adequadamente e ornamentado para o trio mais importante e radioso do banquete, no meio de uma gigantesca mesa, em cujas cabeceiras nenhum convidado ousara se assentar, enquanto uma sinfonia celestial envolveu a todos com os mais harmoniosos e sublimes acordes. Mago Natu, um pouquinho atrasado, entrou discretamente pela ala lateral das mesas dos reis, rainhas e princesas e viu quando o Conde Rasku acintosamente cortejava a Marquesa de Sonsa, roçando-lhe a perna por debaixo da mesa. Não era preciso dizer nada: os dois estavam enamorados. Mago Natu apenas pensou: “Conde Rasku é mesmo incorrigível, e a Senhorita Pan Thera, Marquesa de Sonsa, nem faz ideia de que vai entrar numa enrascada. Era o que faltava: o belo e a fera! ”Fez um muxoxo descontraído, tomando assento ao lado de sua irmã, a Professora Plínia, que, disfarçadamente, secava algumas lágrimas, tão emocionada ficara pela inebriante beleza daquela comemoração. — Reparaste no Conde Rasku e na Marquesa de Sonsa? – perguntou à irmã, também percebendo que entre os dois havia mais que a afeição desinteressada ou simples sentimento amoroso. — Sim, visível que o Conde Rasku está interessado em algo mais... posso lhe adiantar, mas guarde em segredo... Ele já está sabendo que o bridão de fios de ouro da Mula Tá, aquela peça encantada pela Sacerdotisa das Sombras para o Rei Albe, o Rico, está com a Marquesa de Sonsa... Veremos em que bicho vai dar! — Por que não entregaste a tiara de Gônia? – perguntou Professora Plínia ao irmão, para disfarçar a comoção. — Porque resolvemos colocar um ponto final nesta história e presenteá-la de uma vez à Rainha Trapa, a mãe do “Y ” – confidenciou-lhe aos ouvidos. 236H. H. Entringer Pereira — Depois das artimanhas do Bruxo Neno e das trapalhadas por causa daquela joia, o melhor é livrarmos a Imperatriz dos riscos de ser atingida por semelhantes trapaças. — Daqui a pouco, vou entregá-la... Aguardemos o resultado! – disse, enigmático. — Mas quem está mesmo querendo usar a tiara é a Rainha Sissu. Foi por ela que... quando a Rainha Trapa ceava... — É – interrompeu a frase – mas quem planejou tudo foi o Bruxo Neno. Aproveitou-se do grande desejo da mãe do “Y” de ver sua irmã, Rainha Sissu, engravidar e também porque ela própria cobiçava aquela joia encantadora. Em meio à festa e à alegria geral, Mago Natu se levantou. Solicitou polidamente que fizessem silêncio. Precisava entregar um valioso objeto encantado a uma pessoa. Surpreendendo a todos, conclamou: — Bruxo Neno, por obséquio, venha cá! Senhora Rainha Trapa, aproxime-se também, até aqui. Rainha Trapa imediatamente levantou-se, ajeitando os babados e as dobras das mangas bufantes de seu esdrúxulo traje, de ninguém escondendo seu espalhafatoso temperamento para festejar o recebimento daquela panóplia. Bruxo Neno, ao contrário, esquivando-se entre os arranjos de bambus, relutava a atender ao chamado do Mago Natu. — Bruxo Neno, por gentileza. Ninguém mais indicado que vós para fazerdes a entrega solene deste objeto que, usando de vossos apropriados conhecimentos nas artes mágicas da feitiçaria, subjugastes aos vossos caprichos, convertendo-o num amuleto de poderes imperscrutáveis. Ouvindo tão lisonjeira convocação, mas sem compreender exatamente seu irônico significado, consultou-se com o Rei Mor, perguntando: — O que é impres.... impescruit... impercut... — Imperscrutável – disse-lhe Rei Mor, socorrendo-o. — Isso. É bom ou é ruim? — Depende de quem perscruta. Bruxo Neno, é só uma palavra... vá lá e mostre logo seu feitiço imperscrutável. Apresentando-se diante de Mago Natu, temeroso de que ele pudesse ter desfeito o encantamento da reluzente peça de camafeus com rubis da Tia Ara, indagou na intenção de gracejar: — Chamaste-me aqui só para pôr aquela coisa na tua cabeça, Magnânimo? – perguntou, apontando para a tiara, que estava dentro de uma caixa almofadada de seda preta sobre uma mesa próxima das águas correntes do rio Aguaporé. Uns riram, outros discretamente censuraram-lhe a insolência de escarnecer do Mago Natu, depois de ter causado tantos malefícios. Sem se abater nem fraquejar diante da provocação, Mago Natu rebateu: — Seria a mais completa estultícia não vos reconhecer os méritos e a excelência para encantar entes da terra em seres das águas. Ainda não fizestes tudo. Conclui o que começastes. A Imperatriz Gônia e o Imperador Médium vos concedem a 237H. H. Entringer Pereira grande honra de pôr aquela coisa sobre a cabeça da Rainha Trapa, de quem vos transforma em guia e, assim, tornar esta joia à mãe do “Y”. Houve aplausos, exclamações, interjeições, entre manifestações de surpresa, inveja, ciúme. Tomada de indizível euforia, Rainha Trapa de pronto curvou-se, postando-se ao lado do Bruxo Neno, que se dirigiu à mesa para pegar a enfeitiçada tiara. Ao tocar na deslumbrante e encantadora joia de camafeus e rubis, num gesto cerimonioso, elevou a tiara sobre a cabeça da Rainha Trapa, que tremia emocionada. Ao contato com a cabeça da rainha, uma forte descarga elétrica percorreu o corpo do Bruxo Neno, estremecendo-o e descarregando-se pelas suas mãos na tiara, eletrizando-a fulminantemente. O Bruxo soltou-a de imediato, transferindo para o corpo da rainha os inacreditáveis efeitos da energia magnetizante. O objeto faiscante e encantado ajustou-se à cabeça da Rainha, produzindo brutal impacto, jogando-a imediatamente ao chão. Sacudindo-se em convulsões frenéticas, diante dos olhares estupefatos da grande plateia, seu corpo eletrizado, saracoteando na areia, atirou-se dentro d’água. Tão miraculosamente quanto os outros cinco casos, em poucos segundos, a Rainha Trapa passa a ser uma grande e eletrizada criatura escorregadia, nadando vagarosamente, agitando suas longas nadadeiras sob o alongado corpo, como os babados e as dobras das mangas de seu esdrúxulo vestido acinzentado com manchas amareladas. Atônitos, os espectadores, observando a enorme criatura virada num peixe-elétrico, perguntavam: — Foi pôr aquela coisa na cabeça para quê? O Príncipe “Y”, tanto menos desesperado pela desventura que atingira sua mãe transformada no Poraquê, quanto mais desejoso de se apropriar da tiara, correu a pegar a joia de camafeus e rubis que reluzia na areia. Ao estender cobiçosamente a mão, diante de seus olhos, o objeto encantado afundou-se na areia. Atordoado, fascinado pela beleza da raridade, mais do que afoito, enfiou as duas mãos nas finas areias brancas na tentativa de agarrar a joia antes que afundasse, pois que não poderia desfazer-se assim, feito uma miragem. Ao encontrar e tocar concretamente algo sob as areias, sentiu encher-lhe as mãos uma coisa sólida, retirando-a fora. Outra grande surpresa e ainda maior decepção: olhou nas suas mãos o que não era mais a tiara. Apenas um punhado de bagas, pequenas vagens semelhantes a caixinhas cilíndricas, na mesma cor que o marfim dos camafeus. Sofregamente, apertou-as entre os dedos, e das cascas quebradiças e crocantes saltaram umas bolinhas vermelhas. No interior daquelas fantásticas caixinhas de marfim estavam bem dispostas algumas amêndoas, tais como caroços parecidos com os grandes e preciosos rubis que adornavam os camafeus de marfim da joia da Tia Ara. Boquiaberto, inconformado, com as mãos cheias daquelas bagas desprezíveis, ouvia as pessoas exclamarem admiradas e irônicas: — Vejam o que virou a joia da mãe do “Y”. Surgiu, assim, naquele instante, da “joia da Tia Ara”, o amendoim. O Bruxo Neno ficou incrédulo, exasperado diante daquele imprevisível desfecho, com o sumiço da tiara na areia, agachou-se, meteu as duas mãos no mesmo lugar de onde o Príncipe Andy havia retirado apenas um punhado de bagas com as amêndoas vermelhas, 238H. H. Entringer Pereira cobiçoso na tentativa de resgatar o objeto encantado e se apropriar dele definitivamente. Escavou mais profundamente ainda na areia, nada encontrando além das mesmas vagens cheias de caroços vermelhos. Olhou pro Mago Natu que, de pé, acompanhava tudo, se divertindo frente à inusitada cena. Fuzilando-o de raiva, disse: — Foi tu que fizeste isto, né Magnético? — Não, Bruxo Neno. Foi o imperscrutável! Diga ao teu Rei Mor que, para ele engravidar a Rainha Sissu, basta comer a joia d’a mãe do “Y ”. Tome, leve e plante essas sementes. Apenas isto! Volveu as costas, enquanto o banquete de despedida do casamento continuava com música, diversão e alegria. Esquecidas a turbulência e a agitação verificadas momentos antes com o desfecho do encantamento da tiara em amendoim, ouviu-se um pedido de silêncio. Sufocando as vozes dos convidados, Conde Rasku anunciou: — Com Vossa permissão e obséquio, Senhor Imperador, Senhora Imperatriz, anuncio-vos meu noivado com a Marquesa de Sonça, daqui a sete luas cheias. Estais convidados também para a festa de nosso casamento, mas ainda não marcamos a data... Tão logo decidirmos, Bruxo Neno, poderás nos honrar com a celebração da cerimônia? Sem titubear, Bruxo Neno quase pulou de contentamento. Aceitou de imediato, ainda que não soubesse a data. Era o que precisava. Viu ali a oportunidade de se apropriar do mágico bridão de fios de ouro, que sua mãe, a Feiticeira Zureta, por descuido e afobação passara às mãos da agora noiva do Conde Rasku, Senhorita Pan Thera, a Marquesa de Sonsa. — Dependo apenas de que o nobre Conde Rasku me diga em que lugar e quando será a festa. No vosso condado ou no Solar da Senhorita Pan Thera? — No Palácio das Esmeraldas, Bruxo Neno. Como convém a um nobre da minha estirpe. Daqui a algumas luas cheias... Faça seus cálculos astrológicos, quando encontrar a conjunção astral perfeita para um casamento bem-sucedido, avise-me. O restante, deixe por minha conta. — Fechado, Senhor Conde! Mago Natu olhou seriamente na direção do Imperador Médium e da Imperatriz Gônia. Saíram do local acompanhados pelo Grande Rei, que já pedira licença para se retirar. Despedira-se de todos, augurando-lhes ordem e progresso, prevenindo-os de que ao amanhecer zarparia com suas naus Patientia, Humilitas e Sapientia, de volta ao Reino da Perfeição com sua nobilíssima Corte e seu muito especial convidado e amigo: Mago Natu.
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Superando o período de transição da estação chuvosa para a estação seca, ou estiagem. Perdi algumas mudas, devido à inexperiência. Tudo fluindo bem e prosperando. Ando até a fazer poemas de tanto contentamento. [email protected]
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA - LIVRO 2 CAPITULO 58
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O ENCONTRO DA TIARA Mago Natu, fiel à palavra empenhada à Imperatriz Gônia de recuperar sua joia de camafeus, dirigiu-se ao porto, desatou as amarras de sua embarcação, manobrou a proa na direção Sul e um vento forte impeliu o barco, que subiu o rio rumo ao seu Santuário. A tarde prenunciava seus últimos momentos, arejados de brisa suave com eflúvios levemente perfumados de nostálgica magia, simultânea ao clima de romantismo proveniente da arrumação na Praia da Lua Clara, que Professora Plínia diligentemente ornamentava para o grande banquete de despedida. Dentro de poucas horas, reunir-se-iam ali quase todos os sete mil convidados em despedida aos festejos comemorativos à celebração do casamento imperial. Nadando paralelamente à embarcação do Mago Natu, que singrava as águas plácidas e cristalinas do rio Aguaporé, quatro peixes – uma enorme Pirarara, uma Cachara, um Pintado e um Surubim – seguiram-no até o Portal do Santuário. Mago Natu desceu da embarcação, olhou adiante, na direção em que o Sol se punha. Avistou um objeto cintilando, reluzindo, dependurado no galho de uma árvore ressequida: era a tiara de camafeus brilhando sob os últimos raios do Sol daquele dia. Estava presa a um galho de uma pequena árvore aparentemente seca. Aproximou-se para pegá-la e constatou que, ao longo da galhada ressequida, nascia uma profusão de brotos novos de folhas tenras. Admirou-se e disse consigo: — Eis o galho qui ‘tá co ’a tiara! Na árvore, o que Andy rouba... Nominou, assim, àquela árvore morta que renascia, Andiroba Suruba, para rememorar o episódio do furto da tiara, ligando-o ao nome do Príncipe Andy Suruba, o Príncipe “Y”. Quis se lembrar do nome do reinado do seu pai, Rei Mende, e da sua mãe, Rainha Trapa, e como não lhe ocorreu de pronto, pensou consigo: — Fica sendo o Reino de Ytacoatiara. Achou o nome engraçado, e retirou cautelosamente a maravilhosa joia de ouro, pedras preciosas e marfim do galho da Andiroba, lavou-a nas águas límpidas do rio Aguaporé e, colocando-a na posição invertida, pronunciou: — O que a tiara virou, eu com a tiara desviro. O que é peixe era da terra, o que era gente agora é do rio. Gente é da terra. Peixe é do rio. Secou toda a água da tiara de camafeus, colocando-a sobre o banco do barco. O vento o impeliu no sentido oposto, descendo o rio no rumo Norte. Os mesmos quatro peixes também o acompanharam. Atracou seu barco junto aos outros no porto da cidade do Elo Dourado e dirigiu-se de imediato à procura da Imperatriz para entregar-lhe a tiara. Encontrando-se com o Grande Rei, que ia à Praia da Lua Clara para o banquete de despedida, Mago Natu mostrou-lhe a joia da Tia Ara, que tencionava devolver à legítima dona, sem demora. Um minuto de argumentação foi suficiente para demovê-lo da ideia e atender à determinação do Grande Rei: — Explicarei à Imperatriz Gônia que não mais deverá usar esta tiara. Ela certamente entenderá as razões. Creio também que não colocará empecilho para doá-la à mãe do Y.
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Quase inacreditável que as coisas melhoram num piscar de olhos. O será a poesia invadindo o ArtFloresteiro de janeiro a janeiro?
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA - LIVRO 2 CAPITULO 57
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FINAL DA HISTÓRIA DA MULA TÁ Enquanto o bruxo proclamava suas intenções de fidelidade ao Rei Mor, Mago Natu se afastou para recuperar a joia de camafeus da Rainha Gônia, ao passo que o imperador, Rei Médium, dirigindo-se ao Salão da Rainha, encontrou a mulher e amiga Rainha Alimpa, ouvindo Rainha Araci concluir a história do enforcamento do seu tio-avô, Rei Albe, o Rico. Polidamente, o Imperador Médium interferiu na conversa: — Desculpai-me se vos interrompo — e justificou-se —, julguei que já tivésseis concluído. — Não te preocupes – tranquilizou-o a Imperatriz – estávamos mesmo querendo chamar-te para escutar o final do caso. Lembro-me de que disseste que ainda não conhecias a história completa... — Verdade – aquiesceu o imperador. — Então – atalhou, eufórica, a Rainha Alimpa – aproveitemos para ouvir juntos. Continue, Araci... falávamos de quando o Rei Albe se surpreendeu com a transformação da Mula Tá numa mulher encantadora... — Bem — prosseguiu Rainha Araci —, a Rainha Alzira chegou de viagem mais ou menos um ano após o acontecimento no Bosque do Iludido, lá no Claro da Gemedeira, debaixo da figueira-do-inferno. — Ah, conta... Conta essa parte. Eu já conheço alguma coisa da história, depois, quando Calico, rapazote, engravidou a moça Alba, filha da criação do Rei Albe, mãe do menino Mulato. É mesmo verdade que ele nasceu com os pés tortos, arredondados, sem dedinhos, iguais aos da mãe Alba, que logo após o parto morreu e se encantou na ave Albatroz? – quis saber o imperador, Rei Médium. — Para mim, de toda a história, essa parte é a mais dolorosa e comovente — acrescentou a Rainha Araci. – Tenho muito afeto pelo menino Mulato e sinto que ele parece muito feliz e alegre, embora seja mudo também igual à sua mãe. É bem-afeiçoado a mim, porque me casei com o Rei Naldo, seu pai. O Rei Naldo também tem por ele muita estima, trata-o como filho legítimo, ainda que a gente desconfie de que talvez ele nem seja filho de Calico, mas do Conde Rasku, por alguns traços de sua fisionomia. — Quantos anos tem Mulato atualmente? – interrompeu Rainha Alimpa. — Mulato está agora com sete anos, trabalha como um serviçal qualquer, apesar de garoto. É muito dedicado no cuidado dos animais e parece ter um jeito diferente de entendê-los. A Rainha Alzira também o quer muito bem e sempre o protege. Trata o Mulato como a um neto legítimo, apesar de ele ser mudo ... igualzinho à mãe dele, a Alba, que não conheci pessoalmente. Rainha Alzira pintou um retrato dela, que está na galeria do Palácio das Esmeraldas, antes que se transformasse na ave Albatroz. Rainha Alimpa, não se contendo, implorou: — Por favor, conte logo o que ainda falta, porque daqui a pouco a Rainha Gônia deverá se preparar para o banquete e nós também. Essa história é realmente extraordinária. 232H. H. Entringer Pereira Rainha Araci descreveu ainda tudo o que conhecia da sequência dos fatos. Porém deteve-se na parte do nascimento do Conde Rasku, pois o assunto da segunda gravidez da Rainha Alzira era mais que reservado e ela mesma nunca falava do nascimento do menino, que ocorrera exatamente nove meses após o enforcamento do Rei Albe, o Rico. Circulavam rumores levantando suspeitas de que o menino Rasku, talvez, não fosse filho legítimo. Rei Naldo também questionara a mãe sobre a real paternidade de Rasku. Ela ratificava o que sempre afirmara antes: ele era seu irmão e ponto final. Desde pequeno, o menino Rasku demonstrava inclinações para a perversidade, muitas vezes comparadas às atrocidades dos algozes. De temperamento odiento, caráter extremamente vaidoso, sórdido e de malíssima índole, despertava, em contrapartida, o muito da admiração que atraía sobre si pela incomparável beleza do rosto e de sua compleição física. Homem de pele amorenada, de grande porte, farta cabeleira de cachos castanho-dourado, penteados para trás, à moda dos heroicos cavaleiros, barba por fazer e bigodes aparados, olhos da cor de mel, amendoados, sob espessas sobrancelhas, era o mais belo exemplar masculino que pontuava pelos salões reais nas habituais festas e comemorações. Ao lado do Príncipe Naldo, que se destacava pelas virtudes de bom moço, em Rasku era a beleza que se notabilizava, da qual ele galantemente usufruía na conquista fortuita de muitas e nobres damas, a maioria mais velhas que ele, pois as virgens casadouras afastavam-se prudentemente de sua lábia sedutora, advertidas de suas históricas tendências de conquistador incorrigível e das suspeitas de que estuprava donzelas com o mesmo prazer com que caçava coelhos. Ainda que muitos de seus atos sinistros e criminosos ficassem irremediavelmente impunes pela astúcia e sagacidade com que os encobria, sempre arrumava terceiros a quem impingir a culpa. Sua mais notória e conhecida proeza desde que estuprou a moçoila Alba Esmeralda, criada pela Rainha Alzira cuidadosamente tal como sua irmã, foi simular a autoria do violento abuso ao irmão Calico, porque Alba era muda, não se expressava, e seu irmão, Príncipe Naldo, o Calico, ingenuamente se deixou flagrar deitado nos aposentos junto de Alba, resultando, nove luas após, no nascimento do menino que creditaram a paternidade a Calico, ainda que quem tenha estuprado Alba, em verdade, tenha sido o sedutor, sagaz e abominável Rasku. Atrocidades com animais pequenos, gatos e cães, principalmente, eram suas diversões favoritas. Aos gatos, se comprazia furar-lhes os olhos, e aos cães castrá-los, quando os encontrava naturalmente atrelados às cadelas, no ato da procriação. Gostava de ele mesmo aplicar os castigos aos serviçais do Palácio, comprazendo-se em açoitá-los por alguma desobediência ou descumprimento às ordens da Rainha Alzira. Não raro era chamado a atenção pela mãe sobre os excessos com que manuseava o látego, ultrapassando os limites da correção prescrita. Ao simples chamado de sua pessoa para aplicar algum corretivo, era motivo suficiente a que o supliciado ao açoite implorasse: — Por piedade, não venha cá, Rasku! Sua impiedade alcançava extremos que, à repetida menção de não venha cá, Rasku, atribuíram-lhe o epíteto de Carrasco. 233H. H. Entringer Pereira No dia do casamento do Príncipe Calico, na mesma oportunidade em que a Rainha Alzira abdicou em seu favor o Trono do Reinado de Avilhanas, presenteou o Príncipe Rasku, como herdade, com uma grande extensão de terras, entregando-lhe o título de Conde, criando assim o Condado de Rasku. Insatisfeito por se achar merecedor de mais do que estava recebendo, pelo ódio que nutria ao irmão e pelo desejo de desonrar sua noiva, a Princesa Araci, futura rainha, antes do cerimonial do casamento, Rasku se ausentou. Sem que percebessem, escondeu-se nos aposentos da futura rainha. Quando subiu à sua alcova para preparar-se ao cerimonial do casamento, sorrateiramente foi agarrada por Conde Rasku, que tentou estuprá-la, a fim de que, desonrada, fosse rejeitada como esposa pelo irmão Naldo, o futuro rei. A Princesa Araci, moça forte e destemida, aplicou-lhe uma joelhada certeira nas partes baixas, cravando-lhe tão profundamente as unhas nas faces que lhe produziu uma cicatriz, que o acompanharia até a morte. Maculando a beleza de seu jovem rosto com os vincos perpétuos, ficou com o rosto marcado pela lembrança de sua desumana e cruel lascívia. Foi a única vez em que não conseguiu perpetrar seu intento criminoso, flagrado no quarto pelos gritos desesperados da futura rainha, ficando daí por diante apelidado de Rasku-unhado, ou Ku-unhado da Rainha Araci, depois, denominado por ela mesma de Conde Rasku-unho
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA LIVRO 2 CAPÍTULO 56
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O FEITIÇO DAS TRANSFORMAÇÕES Minutos depois que o Imperador, a Imperatriz e o Mago Natu entraram no grande salão de diversões do Palácio Fortaleza, onde a Rainha Alimpa e o Grande Rei jogavam animada partida de gamão, sobre um luxuoso estojo tabuleiro, ornamentado de madrepérola e jade, ouviu-se um estrondoso burburinho vindo do pátio externo. Rainha Alimpa se desconcentrou e o Grande Rei, num lance magistral, retirou todas as peças do tabuleiro. Inconformada com suas constantes e fragorosas derrotas para o Grande Rei, seu melhor e mais poderoso adversário, levantou-se, inconformada, voltou as costas ao tabuleiro e disse, desconcertada: — Revoltante! Esse jogo sempre conspira contra quem estava com mais sorte! O Grande Rei sorriu de seu amadorismo, emendando: — Não é o jogo que conspira contra quem estava com sorte. É a sorte que conspira contra quem estava jogando! Colocando uma a uma as peças de volta ao estojo, dobrou o tabuleiro, fechou-o e devolveu ao Rei Médium. O tumulto instantaneamente formado pela aglomeração dos convidados fez com que o Grande Rei, a Rainha Alimpa, o Imperador, a Imperatriz e o Mago Natu saíssem para saber o que ocorria. Não se admiraram, porque imaginavam que o burburinho e a desordem aparente fossem remanescentes das comemorações pela vitória dos príncipes da corrida Numpésó. Todavia, em meio à algazarra, alguns reis, rainhas e filhos estavam aos prantos. O arauto real, abrindo caminho em meio a aglomeração, adiantou-se, chegando aflito e ofegante ao Imperador: — Senhor Imperador, uma desgraça inusitada aconteceu. Peço-vos que convoque Rei Kórnio e Rainha Bisca, Rei Mende e Rainha Trapa, Rei Boio e Rainha Ália, Rei Negro Norato e Rainha Zomba. Eles deverão relatar pessoalmente o ocorrido. — Assim farei – disse o Imperador – fiquem tranquilos. Grande Rei, Mago Natu, por gentileza, me aguardem na Sala da Rainha. Dirigindo-se aos hóspedes, o Imperador os conclamou: — Por gentileza, amigos, acalmem-se. Depois de mencionar os nomes citados pelo arauto real, chamou-os à Sala da Rainha: — Acompanhem-me ao Salão da Imperatriz. Precisamos ver Gônia. No salão da Imperatriz, os quatro reis e as quatro rainhas, emudecidos, cabisbaixos, muito aflitos, pareciam desnorteados. O Imperador e sua mulher, assistidos pelo Grande Rei e pelo Mago Natu, mantinham-se serenos, até que o Rei Médium perguntou: — Quem deseja falar primeiro? — Eu, senhor Imperador – pronunciou-se Rei Kórnio. — O que aconteceu? – quis saber a Imperatriz. — Meu filho, Príncipe Surubim, o Ur, virou um peixe. — Um peixe? – falaram juntos o Imperador e a Imperatriz. – Como assim? 216H. H. Entringer Pereira — E o meu filho também, senhor Imperador – adiantou-se Rei Boio – meu filho, o Príncipe Pintado, também virou um peixe. — E também a minha filha, a Princesa Kachara – lamentou-se a Rainha Zomba, banhada de lágrimas. Perdendo a calma, o Rei Negro Norato, marido da Rainha Zomba, muito enfurecido, acusava o Príncipe Andy, o “Y”, por toda aquela tragédia: — Tudo por causa daquele maldito. Tudo por causa da joia da tua Tia Ara, Rainha Gônia! Foi ele, o “Y” quem roubou aquela maldita joia e levou para o Bruxo Neno enfeitiçar. Tudo por causa também daqueles malditos sabonetes. Ouvindo as acusações do Rei Negro Norato, a Imperatriz interessou-se e pediu que o ele prosseguisse relatando o que sabia. — Depois que os prêmios foram entregues aos vencedores da Corrida Numpéssó – prosseguiu o Rei Negro Norato, suando frio, espumando pelo canto da boca, enquanto os outros ouviam calados – o Príncipe Surubim, o “Ur”, e o Príncipe Pintado chamaram minha filha Kachara para ir ao Poço dos Desejos e das Transformações. Queriam se banhar e usar as Barra Alimpa presentadas pela Rainha de Sabom. Princesa Kachara foi com nossa permissão. Mas ficamos vigiando e acompanhando de longe o que eles fariam. Vimos quando se molharam e começaram a passar os sabonetes uns nos outros. Começaram a gostar da brincadeira e, inocentemente, tiraram as roupas para esfregar as Barra Alimpa no corpo todo... Enquanto se ensaboavam, avistaram Príncipe Andy Suruba, o filho do Rei Mende e da Rainha Trapa, cavando a areia e desenterrando um objeto escondido. — Era a joia de camafeus? – interrompeu o Imperador. — Era – continuou Rei Negro Norato – mas ele tentou escondê-la dos três. Por curiosidade, os três foram ao seu encontro. Para disfarçar o que fazia, o Príncipe “Y” propôs-lhes uma brincadeira. A brincadeira do Suruba. Pegou a joia da Tia Ara, colocando-a sobre a cabeça deles, cada um de uma vez, pronunciando palavras de magia e esfregando-os ainda mais com os sabonetes. Pareciam praticar um ritual. Até que mandou que rolassem pela areia até chegar dentro d´água, enquanto dizia bem alto: “Esta é a magia do Suruba. Quem a tiara usou, caiu n’água, sendo gente, peixe virou ...”. Assim que os três tocaram na água, transformaram-se imediatamente em peixes. Um, o Príncipe Pintado, ficou cheio de manchas pequenas e pretas por conta das pedrinhas redondas que colaram em seu corpo enquanto rolara na areia. O outro, o Príncipe Surubim, o “Ur”, ficou com as marcas dos gravetos secos que colaram na pele ensaboada. E a outra, minha filha Kachara, ficou marcada com as folhas secas que grudaram em sua pele. Perplexos, os que ouviram o relatório nada disseram. Também não compreendiam como que a brincadeira do Suruba pudesse resultar numa magia daquele porte. Muito sérios, o Grande Rei e o Mago Natu entreolharam-se, como se soubessem de tudo antecipadamente. Rainha Zomba, desesperada, sacodiu Mago Natu pelos ombros, pedindo: — Mago Natu, eles foram enfeitiçados. Por misericórdia, faça qualquer coisa, uma mágica, um feitiço, um enguiromanço, mas faça minha filha voltar a ser gente! 217H. H. Entringer Pereira Rainha Bisca, também descontrolada, puxando os cabelos nervosamente, bradava: — Eu quero o meu filho Ur gente! Eu quero meu Príncipe Ur gente! Rainha Trapa, mãe do Príncipe “Y”, presenciando o desespero das outras mães, diante da passividade do Mago Natu e do Grande Rei, arrependida, resolveu confessar parte do seu envolvimento no sumiço e no enfeitiçamento da joia da Tia Ara. Além de mandar o filho furtar a tiara de camafeus que a Imperatriz usaria na cerimônia lunar do casamento, também admitiu o furto dos talheres e de uma taça, enquanto ceava, para atender ao pedido do Bruxo Neno: — Eu mesma pedi ao Andy Suruba que levasse a joia de camafeus da noiva para que o Bruxo Neno a enfeitiçasse. Queria entregá-la depois à minha irmã, Rainha Sissu, para que conseguisse engravidar. A joia da Tia Ara estava enfeitiçada para isso... Bastava que minha irmã a colocasse na cabeça por alguns minutos que ela haveria de ter o filho que há tanto tempo desejava. Eu iria devolvê-la secretamente. Não sabia que os meninos iriam usá-la como brinquedo. Mago Natu, calado até então, pronunciou-se: — Senhora Imperatriz, a joia da Tia Ara está mesmo enfeitiçada! Não a tome de volta. Quanto ao encantamento perpetrado pelo Príncipe Andy Suruba, o “Y”, só ele poderá desfazê-lo... Bem, quem sabe... Por favor, chamem o rapaz aqui. Rei Mende, pai do Príncipe “Y”, temeroso pelas consequências do pesadelo provocado inadvertidamente pelo filho, tentando protegê-lo, adiantou-se: — “Y” não sabe de nada. Não tem conhecimento do que fez. Nem como fez. “Y” não sente. O responsável por tudo isto é o Bruxo Neno. Ele é quem deve desfazer o feitiço. Tragam-no aqui. Rainha Trapa interveio, desfazendo a esperança de reverter o acontecido: — Bruxo Neno se foi. Vi quando subiu o rio com o Rei Mor e a Rainha Sissu. — Alguma coisa está errada – interrompeu o Mago Natu – Bruxo Neno não mora naquela direção, nem o Rei Mor e a Rainha Sissu foram embora. Seus pertences e acompanhantes ainda estão na casa de hóspedes. Certamente o Príncipe Andy Suruba, o “Y”, já lhes entregou a tiara. O Grande Rei a tudo assistia, sem interferências. Pediu licença, retirou-se discretamente, dirigiu-se aos compartimentos secretos do Palácio Fortaleza, onde se encontrava hospedado, na Câmara do GRAU. O Imperador Médium, a Imperatriz Gônia e o Mago Natu empenhavam-se juntos, buscando a solução, não para reverter o encantamento dos príncipes, porque sabiam ser impossível, mas para reaver a preciosa joia da Imperatriz Gônia e impedir que fosse utilizada para perpetrar outros encantamentos e malefícios ainda piores. Da casa de hóspedes, onde a Rainha Sissu e o Rei Mor estavam, ouviam-se vozes diversas. Rei Médium e Mago Natu julgaram que fossem os hóspedes procurados. Chamaram à porta. O Príncipe Andy Suruba veio atendê-los. Antes que perguntassem pela Rainha Sissu e o Rei Mor, explicou: — Minha tia saiu e está com a joia da Tia Ara! Se é isso que os senhores vieram buscar. Rei Mor, Bruxo Neno e ela passeiam rio acima. 218H. H. Entringer Pereira — Hum, a situação é pior do que imaginava – resmungou Mago Natu. – E quem está aí, conversando contigo, se não é a Rainha Sissu? — É o meu amigo, o Príncipe Putho, filho do Rei Inci e da Rainha Régia. Estamos jogando xadrez. — Venha comigo ao meu Santuário, imediatamente! – decidiu-se Mago Natu, convidando também o Imperador Médium para saírem juntos. Príncipe Andy Suruba, hesitante, perguntou ao Mago Natu: — Por que eu teria de ir com o senhor? Não quero sair daqui agora. Peguei a coisa da Tia Ara porque minha mãe mandou e já entreguei à minha tia, a Rainha Sissu. Ela me disse que devolveria hoje ainda! — Você não sabe, nem faz ideia do que está acontecendo. Você também foi enfeitiçado pela joia da Tia Ara. Por favor, não vá se banhar no rio. Não antes que eu me encontre com o Bruxo Neno – recomendou Mago Natu. Rainha Zomba, Rei Negro Norato, Rainha Bisca e Rei Boio vieram ao encontro do Mago Natu, exigindo a solução para desfazer o encantamento: — Não é justo, Mago Natu – ponderou Rei Negro Norato – que nossos filhos tenham sido encantados em peixes, e ao Príncipe “Y” nada aconteça! — Queremos que ele seja castigado pelo que fez – assentiu Rainha Zomba. — Exatamente – disse Rei Boio – por onde andam Rei Mor e a Rainha Sissu? Cadê o Bruxo Neno? — Acalmem-se, por favor – solicitou polidamente o Imperador Médium. – Já estávamos de saída para buscá-los. Resolveremos esta situação todos juntos. Do alto da janela da Câmara do GRAU, o Grande Rei observava a movimentação das pessoas, o burburinho causado pelo despropositado encantamento dos príncipes Surubim, Pintado e Kachara, e pela indiferença do Príncipe Andy Suruba, o “Y”, por toda a infelicidade que provocara com sua intemperança. A Rainha Trapa também não aparentava preocupação com a desventura dos príncipes, porque alimentava a esperança de que a joia da Tia Ara estivesse mesmo enfeitiçada e, finalmente, sua irmã, a Rainha Sissu, poderia se beneficiar com o encantamento para trazer a este mundo o desejado herdeiro do trono de Trindade. Rei Mende, entretanto, olhou para o alto e viu o Grande Rei à janela. Voltou-lhe contrito o pensamento, formulando o desejo de que o G. R., com todo poder e superioridade, desfizesse aquele terrível feitiço, pondo termo ao horror de que logo alguém pudesse pescar aqueles peixes para comê-los, sem jamais desconfiar de que, há menos de um dia, eram belos e garbosos potenciais herdeiros de tronos reais. O Grande Rei haveria certamente de restabelecer tudo à ordem, voltando até o tempo se preciso fosse, assim como era no princípio, agora e para sempre. Retirando o tecido que cobria o Espelho Universal, o EU, na Câmara do Grande Reflexo Auto Unificado, o Grande Rei viu se projetar uma imagem prevista: Bruxo Neno, Rainha Sissu e o Rei Mor estavam parados à frente do Portal do Santuário do Mago Natu, tentando eliminar o cão Philos, que lhes obstaculizava o ingresso àquele sagrado lugar. — Estão querendo entrar – pensou o Grande Rei – para pegar as mandrágoras que entreguei ao Mago Natu. Desta vez, vou impedi-los. 219H. H. Entringer Pereira Observado pelo cão Philos, um grande animal negro que ficava em frente à esquerda do misterioso portal, Bruxo Neno já havia pronunciado todas as palavras mágicas que conhecia e, que julgava, serviriam de senha para adentrar o Santuário do Mago Natu. Numa derradeira tentativa, voltou-se ao Rei Mor e pediu: — Senhor Rei Mor, não estou encontrando o jeito de eliminar o cão... pelo menos por enquanto. Já pronunciei todas as palavras de ação que conheço e nada... está difícil de fazer o cão dormir. — Você ao menos sabe o nome dele? – perguntou Rei Mor, mostrando interesse e desejando ser útil. — Acho que é Zilos, Pilos, Milos... sei lá, algo parecido com isto. Não é o nome dele a senha? Tenho certeza, mas já falei e não adiantou... Diga lá, Senhor Rei, alguma coisa. Quem sabe acerte a pronúncia e a gente consiga entrar? Daí usaremos o próprio cão para pegar pelo menos uma das três mandrágoras. — Bruxo Neno — disse Rei Mor —, se vós que se dizeis conhecedor de tantos feitiços e magias não estais dando conta, eu que pouco ou quase nada entendo destas ciências, muito menos de palavras secretas com poderes para encantar cães... mas vamos lá... façamos uma última tentativa, se é que vós ainda não bloqueastes a senha... – riu, debochado. — Hum – titubeou Bruxo Neno. – ‘tava me esquecendo de um detalhe: se a gente conseguir entrar, também precisa da senha pra sair... eu não sei, tampouco vós. Ficar preso lá dentro será a mesma coisa que fazer força sem conseguir cagar... Acho melhor a gente abortar essa parte do plano! Rainha Sissu não conteve o ataque de riso com a observação pouco conveniente e vulgar do Bruxo Neno. Lembrou-se do quanto a Rainha Zomba ria de tudo e de todos. Conteve-se, entretanto, quando se sentiu vingada sabendo que a filha da Rainha Zomba, a Princesa Kachara, transformara-se para sempre num enorme peixe liso, gosmento e rajado de preto. Dirigindo-se ao marido, o Rei Mor, falou baixinho: — Penso que conheço a senha... posso tentar? — Pois fale de uma vez... estamos correndo perigo e perdendo muito tempo neste lugar impenetrável – encorajou-a o marido. Postando-se de frente ao Portal do Santuário, evitando prudentemente se aproximar, preferindo distância de segurança do indomável cão negro, Philos, que a encarava, Rainha Sissu puxou fôlego. Ao abrir a boca, Bruxo Neno interrompeu-a abruptamente, ordenando: — Cale-se! Algo me diz que devemos dar o fora logo, imediatamente. Vamos para o barco. As mandrágoras que esperem... daqui a três anos voltarei para apanhá-las. Vamos, rápido! Deixaram o lugar tão apressadamente que a Rainha Sissu se esqueceu da joia de camafeus da Tia Ara pendurada na forquilha de um galho de árvore seca. Quis voltar, mas já estavam dentro da embarcação. Bruxo Neno, pressentindo o perigo a que se expunham, disse: — Deixe que continuem pensando que “Y” ‘tá co’a tiara. A gente pode sair daquele Palácio sem ver Gônia! 220H. H. Entringer Pereira Chegando ao Palácio Fortaleza, inconformada pelo esquecimento da tiara pendurada na forquilha da árvore seca, no portal, fora do Santuário do Mago Natu, Rainha Sissu implorou ao Bruxo Neno que retornasse lá para buscá-la. Percebendo, porém, que seria flagrado com o objeto furtado, caso obedecesse ao desejo da rainha, o Bruxo expôs-lhe os perigos a que se sujeitavam: — Meu coração não me engana. Sinto que o Magnético já sabe que viemos de lá e está procurando pela gente. O Grande Rei, tenho certeza, já avisou para ele que tentamos nos apoderar de suas mandrágoras. Com o Grande Rei na área, se passar do ponto, o doce azeda! Convencendo a Rainha Sissu de que esquecesse a tiara de camafeus e rubis e esperasse a oportunidade certa para se concretizar o encantamento com as mandrágoras, Bruxo Neno continuava relatando ao Rei Mor suas aptidões, prometendo-lhe realizar a segunda alternativa das suas receitas: — Sabe os ovos que Taruga Quelônia enterrou na areia, está lembrado? — Evidentemente – respondeu Rei Mor. — Pois é, estão todos prontos para usar. Posso fazer um excelente feitiço com eles. Garanto ao Senhor Rei engravidar sua rainha logo, logo... — Com os ovos? – indagou ingenuamente a Rainha Sissu. — Claro que não, com o instrumento próximo deles... – divertiu-se Bruxo Neno. Rei Mor não achou a menor graça na piada, porque já havia se submetido a um ritual com aquele propósito, celebrado pela Feiticeira Zuzu, a Sacerdotisa das Sombras, tão logo ela se mudara para o Reinado de Trindade. No entanto, o feitiço funcionara em parte: devolveu-lhe a potência, mas não a fertilidade. Trazendo seriedade ao assunto, proclamou: — Se usares aqueles ovos e, ainda assim, a rainha não engravidar, antes da próxima lua cheia, penduro-te no forcado de uma árvore, tal-qualmente fez Rei Albe, o Rico. — Juro e esconjuro, Senhor Rei Mor, que não carecerá. Vossa mulher haverá de engravidar. Quem já mostrou capacidade de fazer até gente virar bicho... engravidar vossa rainha vai ser mais fácil do que pensais... pode acreditar! Raciocinando nestes termos, Rei Mor demonstrava cada vez mais interesse pelas ciências ocultas, notadamente pelas artes da feitiçaria e seus encantamentos, dos quais o Bruxo Neno se vangloriava, não perdendo oportunidade de jactar-se, preconizando suas superlativas qualidades, suas práticas, maestria nos feitiços e os prodigiosos recursos nos mistérios de transformar até gente em bicho. Para impressionar o Rei Mor ainda mais, Bruxo Neno narrou-lhe particularidades de seu nascimento, dando ênfase ao que aconteceu na noite de sua concepção, por obra das forças ocultas, numa ritualística em que sua avó, a Bruxa Bizarra, celebrava a iniciação de sua mãe, a feiticeira Zureta, a qual recebeu naquela sessão sabática o cognome de Sacerdotisa das Sombras. Explicou-lhe também que a mãe, Feiticeira Zuzu, a despeito de ser extremamente competente naquelas artes e ofícios, não poderia mais adquirir o superlativo grau de Bruxa, porque não muito remotamente, no entrevero com o Rei 221H. H. Entringer Pereira Albe, o Rico, naquele momento de vulnerabilidade do qual o rei soube se aproveitar, tosou-lhe os cabelos rentes à nuca com sua adaga de prata, sentenciando-a, destarte, a jamais poder transformar criaturas em outros seres, criar seus próprios gênios ou transportar-se no forcado até os locais para os rituais sabáticos. E, talvez, por aquilo ainda não tivesse conseguido êxito completo na magia para devolver totalmente ao rei suas forças viris e fecundantes. — E o senhor tem capacidade para fazer tudo isto? – quis saber o Rei Mor. — Tudo isso e ainda mais. Sou especialista mesmo é em transformar gente em animais, sejam da água, sejam da terra ou do ar. Mas esta é uma história que eu levaria uma noite inteira pra lhe contar, Senhor Rei Mor! – atalhou o assunto e voltou-se para a Rainha Sissu: — Posso lhe garantir, Rainha Sissu, que mais ou menos no mesmo tempo em que a rainha Gonha parir os filhos gêmeos, os tais anunciados pelo Magnético durante o casamento, lembra? Um grande pássaro também visitará seus aposentos e a senhora vai parir um filho, ou uma filha... não importa o sexo, não é mesmo? Na noite em que conceberes, sentirás que o vosso rei parecerá diferente. Não se assuste, nem pronuncie uma palavra sequer. Entregue-se a ele totalmente e verá que ele também não pronunciará palavra alguma. Logo, então, te sentirás grávida. Deverão colocar o nome do que nascer, se for homem, Marmito, Príncipe Marmito. Se for mulher, Ana Conda, Princesa Ana Conda! — Não foi este primeiro nome que a Rainha Olinda e o Rei Pay colocaram no menino deles? – interrogou Rainha Sissu. — Aquele que viveu só um dia, está lembrada? Afinal, a senhora e o Senhor Rei Mor queriam mesmo que a Rainha Olinda morresse, não é? Atendi-lhes o pedido. Agora, ouçam o que estou lhes dizendo... – continuou o Bruxo Neno. — Por que teremos que colocar estes nomes horrorosos nos nossos filhos? – observou, contrariado, Rei Mor. — O porquê é segredo do Bruxo Neno – desdenhou. – Não posso explicar no momento. Mas se puserem qualquer outro nome no menino ou na menina, a senhora, Rainha Sissu, também morrerá de parto. Igualzinho ao que sucedeu com a Rainha Olinda, lembra? Desconfiado, um tanto cético a respeito dos saberes ocultos e da ponderabilidade dos efeitos provocados pelas manipulações das indecifráveis forças secretas subjugadas pelos feiticeiros, bruxos ou magos, Rei Mor oscilava entre acreditar nas façanhas mágicas do Bruxo Neno ou se render à evidência pura e simples de que a bruxaria constituía-se mesmo num conjunto sistemático de saberes, crenças e práticas que alcançavam resultados, independentemente do que a lógica ou a ordem natural das coisas prescrevessem. Abandonando momentaneamente sua racionalidade porque desejava fervorosamente que a Rainha Sissu lhe presenteasse com um ou dois herdeiros, deixou de lado suas inabaláveis convicções racionalistas, calando-se diante da enxurrada de questionamentos que gostaria de dirigir ao Bruxo Neno: — Essa questão de nome... Rainha Sissu é quem decide – disse Rei Mor, colocando ponto final na questão. 222H. H. Entringer Pereira — Prefiro não arriscar – consentiu Rainha Sissu – a mim, basta que seja um filho ou uma filha... não me importa que nome tenham! Depois que atracaram a embarcação, subiram as escadarias do porto, rumo ao Palácio Fortaleza, como se voltassem de um agradável e animado passeio vespertino. Rainha Trapa, avistando primeiro a irmã, por quem já procurava há horas, correu em sua direção e, muito afoita, quis logo saber: — Cadê a joia da Tia Ara, Sissu? Onde guardaste a peça de camafeus da Imperatriz Gônia? Surpresa com a afobação e o inesperado questionamento da irmã, Rainha Sissu respondeu, sem pensar: — Não vi, nem sei de Tia Ara de Imperatriz nenhuma... Nunca estive com a joia da Tia Ara! — Como? Não sabes da joia da Tia Ara? Teu sobrinho acaba de nos dizer que te entregou – admirou-se Rainha Zomba. – Disseram-me que o Príncipe Andy só roubou a peça da Tia Ara por tua causa, Rainha Trapa... para tua própria irmã, Rainha Sissu... — Já disse, repito, não estou com nenhuma joia da Tia Ara. Se “Y” roubou a tiara, ele é que preste contas. Virou as costas, cinicamente, deixando atordoadas Rainha Trapa, Rainha Zomba, Rainha Bisca e Rainha Ália. Enquanto discutiam entre si, esbravejando, acusando-se mutuamente em altos brados pela maldição do encantamento da tiara, seus maridos, Rei Mende, Rei Negro Norato, Rei Kórnio e Rei Boio, foram se avistar com o Imperador Médium, que se encontrava com a Imperatriz Gônia, o Mago Natu e o Grande Rei, buscando solucionar o inusitado caso. — Quero a minha princesa de volta! – gritava e esperneava Rainha Zomba. — Também quero meu Príncipe Ur de novo virado gente, quero Ur gente, Ur gente, ouviram? – vindicava Rainha Bisca, mãe do Príncipe Surubim. — Quero meu filho Príncipe Pintado de novo! – esbravejava Rainha Ália. — Tudo culpa tua, Trapa, megera! – insultava acusando-a, a Rainha Zomba. – E você, Rainha Sissu, fingida, falsa, hipócrita... estou uma arara contigo! Não saio daqui se não for junto com minha Princesa Kachara! Rainha Trapa não se conteve diante da indiferença da irmã, Rainha Sissu, que parecia alheia àquela mixórdia, sem esboçar qualquer intenção de defendê-la das injúrias da Rainha Zomba ou propor alguma solução ao dilema. Arrebatada pela sensação de ódio e desprezo, atirou-se sobre a Rainha Zomba, agredindo-a e vociferando: — Agora verás o que é virar uma arara! – disse, agarrando-a pelos cabelos. Rainha Trapa passou-lhe a perna, derrubando-a. Rolaram no chão, engalfinhando-se, até que Rainha Trapa, no esperneio, conseguiu empurrar Rainha Zomba, que bufava feito um boi raivoso para dentro do fosso, precipitando-a no canal que contornava o Palácio Fortaleza, ligando-o ao rio Aguaporé. A Rainha Zomba afundou-se nas águas escuras e profundas do canal. Diante dos olhos estupefatos dos outros reis e rainhas, que não conseguiram evitar o embate, viram um animal no formato de um excêntrico peixe vir à tona, emitindo um sopro 223H. H. Entringer Pereira muito forte, semelhante a bufados assustadores... Era Rainha Zomba, definitivamente e para sempre transformada no peixe arara, a Pirarara. — Nunca mais, Zomba, ria! – disse para si Bruxo Neno, assistindo de longe o embate entre as duas rainhas, Trapa e Zomba, satisfazendo-se ao ver o peixe de formato asqueroso, cascudo e da boca enorme, bem do jeito que ele imaginara transformar Rainha Zomba, na Pirarara. Ao ser avisado de que sua mulher também se transformara no pirarara, e que viesse vê-la, o Rei Negro Norato teve um súbito ataque de ódio. Saiu correndo em direção ao pátio onde estava o Bruxo Neno e, num golpe repentino, atracou-se a ele, enroscando-se, atraindo-o também para próximo do canal. Enquanto os dois rolavam, arrastando-se no chão, Bruxo Neno conseguiu sacar sua adaga de prata escondida sob as vestes, que sempre trazia na bainha, amarrada à cintura, atingindo num golpe certeiro o coração do Rei Negro Norato, atirando-o mortalmente ferido também para dentro do fosso. Nas águas turvas do canal, o sangue do Rei Negro Norato esguichou, contaminando-as, disseminando-se, tornando-as totalmente negras. Seu corpo foi se alongando e espichando até se metamorfosear numa imensa cobra negra, de olhos esbugalhados e vermelhos como tochas. Bruxo Neno, presenciando passivamente a cena, com ares de desprezo, exultou-se pelo resultado de mais uma de suas façanhas. Fez um sinal ao Rei Mor, acenando com um gesto de escárnio, e disse para consigo: Isto acontece com quem cobra do Bruxo Neno. Pode voltar para o seu reinado, Negro Norato. Aproveita e leva junto sua Rainha Pirarara e sua filha Kaxara! Mago Natu já estava ao seu lado quando ordenou: — Bruxo Neno, faça com que as águas negras com que o enfeitiçaste acompanhem a Cobra Norato para bem longe daqui. Que voltem lá para o distante reinado do Negro. Que elas não se misturem com as outras águas dos rios por onde passarem, principalmente com as do Grande Rio. Bruxo Neno sabia das sinistras consequências caso não atendesse ao que Mago Natu ordenava. Meio hesitante, mas forçado a obedecer, com alguns gestos e algumas palavras que pronunciou em voz baixa, fez com que a Cobra Norato se afastasse de vez, deixando limpo o canal do Palácio Fortaleza. Movendo-se com a correnteza para o rio Aguaporé, levou consigo a enorme mancha negra das más águas. A Cobra Grande retirou-se lentamente. Retornava e subia em direção ao Norte, para as longínquas terras do Rei Negro Norato, tingindo de negro o imenso rio que cortava aquele reinado para sempre, perpetuando-se a correr até se limpar quando se encontra com o Grande Rio. Mago Natu disse-lhe no ouvido: — Resolvido o problema das más águas! Porém o que ficou na história do Negro Norato não são as mágoas, mas a grande Cobra criada. O Imperador Médium consultou o Mago Natu sobre a possibilidade de reverter toda situação, com seus poderes de Mago. Mago Natu suspirou profundamente. Com olhar desalentador, desfez-lhe as esperanças: 224H. H. Entringer Pereira — Não há como desvirar encantamentos. Eles mesmos se desfarão, mas daqui a muitos, muitos anos, talvez milhares ... – conformou-o Mago Natu, convidando-o para acalmar apenas aos reis Kórnio e Boio e às rainhas Bisca e Ália. — Não me parece prudente fazer qualquer coisa contrária ao movimento – observou Mago Natu. — Mas podemos minimizar os efeitos, pelo menos? – arguiu o Imperador Médium. — É melhor falarmos destes acontecimentos pessoalmente ao Grande Rei. Embora não me pareça que Ele se sinta constrangido, incomodado ou atingido por eles. Está acima e além de tudo isto – concluiu Mago Natu. — O Grande Rei não recrimina atitudes, não discrimina comportamentos ou interfere no que acontece entre as pessoas. Tem uma visão superior, porque conhece o coração e a mente de todos. Sabe tudo quanto fazemos no presente, fizemos no passado e faremos no futuro! – conformou-se o Imperador Médium. — A realidade é esta, apenas esta. Mas vamos ter com Ele – encorajou-o Mago Natu. Ao encontrarem o Grande Rei na Câmara do GRAU, perceberam que já se preparava para a grande viagem de volta ao seu reinado, nas longínquas terras do outro lado do Oceano, no Reino da Perfeição. O Imperador Médium, visivelmente aflito, perguntou-lhe: — Grande Rei, estais a organizar Vosso regresso? — Certamente, respondeu. Iremos ao amanhecer. Zarparemos com as três naus. Já ordenei as providências. As embarcações encontram-se prontas, munidas das provisões a bordo, aguardando o momento de voltarmos. — Grande Rei, disponha da quantidade de ouro que almejais. Assim como da madeira que precisais... Que levem os vossos navios tudo quanto pudermos vos ofertar como prova de gratidão à Vossa tão excelsa presença – disse o imperador. — Poderei acompanhar-vos de volta, Grande Rei? – pediu Mago Natu. — Certamente, sempre haverá lugar reservado para vós em nossas embarcações. — E quando retornareis? – quis logo saber o imperador. — Quando vossos príncipes nascerem. Estarei de volta para celebrarmos o nascimento de Urucumacuã e Kurokuru – assegurou Mago Natu. O Imperador Médium sentiu uma profunda tristeza, como se fosse uma saudade antecipada. Não conseguiu disfarçar os olhos lacrimosos, porque além do regresso do Grande Rei, também sentia pelo Mago Natu anunciando a intenção de se ausentar por algum tempo. A presença do Grande Rei por aqueles dias no Palácio Fortaleza, no Reino do Elo Dourado, exercera sobre ele um fascínio indescritível. Os incomparáveis eflúvios daquela presença semelhavam-se à inefável suprema felicidade, talvez se comparassem mesmo à presença de um deus. Tudo nele era perfeito. Seus gestos, movimentos, olhares, palavras, atitudes. Emanava uma vibração tão amorosa, benéfica, pacífica, sábia e poderosa que transpunha os limites da realidade circunstante, arrebatando de sublime afabilidade os que estavam em sua presença. A admirável tonalidade de sua voz, a 225H. H. Entringer Pereira majestosa humildade, o semblante sereno e a radiosa fisionomia eram marcas inquestionáveis de sua extraordinária sabedoria. Extremamente grato e feliz por tão excelsa companhia, solicitou: — Grande Rei, venha também para festejar o nascimento dos meus filhos! — Não estarei pessoalmente, mas ainda que não me vejam, saberão da minha presença – garantiu. — Mago Natu – quis saber o imperador – como ficarei sem vossa presença no Elo Dourado, durante este tempo? — Não se inquiete vosso coração pelos acontecimentos passados, nem tampouco pelos vindouros. Confie na excelência da Imperatriz. Ela bem o auxiliará. Aos que precisarem, ordene ver Gônia! Se não quiserem, mande-os ver Neno! Ouvistes o Grande Rei: “não queira mudar o jeito das coisas acontecerem”. Deixe que os rios escavem e desenhem seus próprios cursos, até chegarem ao grande rio e deste ao Oceano. Aos dias de alegria sucederão as aflições e, assim, alternativamente pelos séculos dos séculos... — Mais aflições do que já presenciamos? – interrompeu, cético, o Imperador Médium. — Sim, confirmou. Torno a vos dizer: nada jamais aconteceu nem acontecerá por obra do acaso. Há e haverá sempre uma razão para tudo. Para o sábio, o caminho da vida é para cima, onde nenhum caminho parece aberto, mas por ele mesmo assim o descobre. É preciso um ciclo encerrado para que se comece outro. Deixe que as coisas hão de acontecer como é preciso. Com o dedo indicador desenhou no ar algumas letras no formato maiúsculo e disse, enquanto sinalizava os monogramas: — Obedecer. Lembre-se sempre. O Imperador Médium entendeu ao que se referia o Mago Natu e, antes que os deixasse a sós, fez outra pergunta: — Mago Natu, o que me aconselhas a fazer com o Bruxo Neno? Aprovas o resultado de suas embaraçosas e disparatadas ações? — Deixem-no partir. Antes de viajar, eu mesmo cuidarei disso. Está quase pronto para se mudar para o Reinado de Trindade. Deseja ser vassalo do Rei Mor. A mãe dele, a Sacerdotisa das Sombras, já habita aquelas terras, desde que a Rainha Alzira começou a reinar em Avilhanas e a expulsou, logo depois que o Rei Albe, o Rico, enforcou-se. Os dois, mãe e filho, reunirão forças, em princípio para satisfação do próprio Rei Mor, depois, tentarão destruí-lo. Por fim, destruirão a si mesmos. O Imperador Médium, interessado na revelação, quis outras informações e indagou: — Como destruirão a si mesmos? — De tantas demonstrações, acabarão se transformando em monstros. Mago Natu não acrescentou detalhes, mas antecipou a resposta a uma futura pergunta: — O Príncipe Urucumacuã, vosso anunciado filho, no tempo certo, haverá de dominá-los. Porém, outros monstros surgirão, da mesma forma que surgiu a Mula Sem Cabeça. 226H. H. Entringer Pereira O Imperador Médium ficou muito sério, calou-se por um instante e acrescentou um pedido: — Peço a vós e ao Grande Rei que volteis ao Reino do Elo Dourado, antes do nascimento de Urucumacuã e Kurokuru, daqui a três anos, para que festejemos com uma grande celebração. O Grande Rei abraçou-o amistosamente, assegurando-lhe: — Não virei pessoalmente, mas sentireis minha presença. Darei sinais de que estarei por aqui. Mago Natu, sentindo o Imperador Médium aflito ainda com os extravagantes acontecimentos registrados naquele dia, tranquilizou-o, dizendo que ainda tinham tempo para resolver alguns problemas: — Não vos preocupeis com o que se há de fazer, nem desfazer. O que está feito, está feito. Vou simplesmente advertir o Bruxo Neno para que não cometa outras insanidades, mas tampouco tentarei impedi-lo. É bom que ele se mude deste reinado. No entanto, não o proíbam de vir aqui, quando quiser... ou precisar. — Mago Natu, se ele voltar aqui, é provável que abuse novamente de suas bizarrices. Suscetível também utilizar-se de recursos piores para nos afrontar ou simplesmente provocar. Devo permitir que venha à festa de nascimento dos meus filhos? — Se ele quiser, não atalhe seu destino, nem se contraponha à sua vontade – pediu Mago Natu. – Deixe-o livre para decidir. É necessário que alguns acontecimentos mantenham seus fluxos, sem interrupção. Prepare-se. Muitas outras coisas fantásticas surgirão no decurso do tempo... Não se desespere, nem se julgue culpado. Lembre-se: tudo está como se escrito nas estrelas. Quando Mago Natu concluiu seu diálogo com o Imperador Médium, o Grande Rei pegou um recipiente de prata sobre um móvel de marfim ao lado de sua cama, recomendando: — Ao Mago Natu, presenteei com as três mandrágoras. Ao Imperador Médium, entrego estas sementes. Plante-as, pois algo darão. Se preferir, reparta-as com o Marquês de Corumbi, para que também as cultive. Diga-lhe que deverá plantá-las por toda a extensão de suas terras. No lugar onde o Marquês de Corumbi ara. O Imperador Médium discretamente avisou ao Grande Rei que um banquete suntuoso os aguardava dali a uma hora, na Praia da Lua Clara. Tanto os hóspedes reais quanto os demais súditos convidados teriam, assim, oportunidade de mais uma vez desfrutar da nobre e excelsa companhia, além de poderem despedir-se pessoalmente do Grande Rei. Deixando-o a sós, desceu os trinta e três degraus da escadaria da Câmara do GRAU, pensando como haveria de ser excepcional a viagem que Mago Natu empreenderia ao Reino da Perfeição com o Grande Rei. Desejou por alguns instantes a liberdade de Mago Natu, que podia ir e vir sem compromissos que o impedissem de realizar sua própria vontade. Conformando-se, no entanto, com sua condição de imperador e homem recém-casado, o Imperador Médium sorriu para o Mago Natu. Antes que falasse o que pretendia, Mago Natu leu seu pensamento, dizendo-lhe: “É melhor ser amigo do rei do que ser o próprio rei, meu caro amigo imperador ”. 227H. H. Entringer Pereira Ambos sorriram. Rei Médium pediu licença e saiu: — Vou chamar Gônia e Alimpa. Creio que Araci já terminou de lhes contar toda a história do tio Albe, o Rico. — E eu vou investigar o Bruxo Neno – despediu-se Mago Natu, também se retirando. Mago Natu precisava ouvir o Bruxo Neno a respeito de seus planos, tanto mais para adverti-lo dos seus nefastos e indesejáveis procedimentos. Acertara com o Imperador Médium que aconselharia o bruxo a se mudar, trocando os domínios do Elo Dourado pelo Reinado de Trindade, do Rei Mor, uma vez que suas atitudes feriam princípios de honra e ética necessários aos praticantes das magias e das ciências ocultas. Trouxera constrangimentos para Mago Natu, aflição para o Imperador Médium e a Imperatriz Gônia e grande sofrimento para os convidados atingidos direta e indiretamente pelos efeitos de sua magia transformista. Pensando na maneira de como fazer ao Bruxo Neno as advertências e recomendações que prometera ao imperador, Mago Natu defrontou-se com ele, enquanto conversava animadamente com o Rei Mor. Ao se aproximar, percebeu que mudaram rapidamente o tom da prosa. Mago Natu sabia exatamente do que tratavam: “Tanto melhor que ele esteja combinando com o Rei Mor sua mudança de reinado, uma vez que sua mãe, a Feiticeira Zuzu, já está morando naquelas plagas”, pensou Mago Natu. “Estaremos livres de alguns embaraços futuros. Melhor Bruxo Neno ir para as terras do Rei Mor do que a Sacerdotisa das Sombras vir para o Império do Elo Dourado.” Disfarçando o que havia sondado sobre as intenções do Bruxo Neno, Mago Natu inquiriu: — O senhor pode, por obséquio, dizer-me onde colocou a joia de camafeus da Tia Ara? Aquela mesma que pertence à Imperatriz Gônia e que, por caprichos de tuas amarrações, desencadeou tantas excentricidades? — Dizer eu não preciso, porque sei que o Magnético sabe de tudo. Com certeza, logo, logo, vai encontrar, está lembrado? Se é que ainda não a achou. Procure-a lá pelas bandas de cima do rio, no mesmo lugar onde minha querida Quelônia foi enfeitiçada naquele bicho asqueroso – respondeu, zombeteiro. Mago Natu sentiu que Bruxo Neno agira motivado por vingança. Indiferente, alheio a todas as aflições que provocara, utilizou-se dos seus poderes malignos para desencadear fenômenos irreversíveis de transformações, retaliando o castigo aplicado a sua companheira, Taruga Quelônia, a Tal Taruga. — Obrigado. Já sei onde ela está, Bruxo Neno. Vejo a peça da Tia Ara colocada num galho de árvore seca. Ainda hoje irei buscá-la. Obrigado, passem bem! — Quando a encontrar – desafiou-o Bruxo Neno – duvido que consigas desencantar a joia da Tia Ara! – arrematou, escarnecendo-se do Mago Natu. – A tiara vai ficar enfeitiçada enquanto eu quiser. Com um aceno de cabeça, Mago Natu não contra-argumentou e gentilmente se despediu. Deixou-os, planejando ir ao Santuário Natu Reza, para estar de volta antes do anoitecer. Precisava retornar com a joia de camafeus da Imperatriz Gônia. Já havia se distanciado do Bruxo Neno e do Rei Mor quando uma ideia lhe ocorreu: Bruxo Neno e 228H. H. Entringer Pereira o Rei Mor combinavam alguma coisa sigilosamente. Ouviu chamarem seu nome. Volvendo-se, avistou o bruxo que lhe acenava com a mão: — Mago Natu, Magnético, volte aqui... quero lhe contar uma novidade! — Não é preciso – retrucou Mago Natu, à distância – já sei que estás planejando mudança do Elo Dourado para o Reinado de Trindade, onde está tua mãe, a Feiticeira Zuzu. Boa sorte ao Bruxo Neno, vida longa ao Rei Mor e a toda sua Corte! Intrigado com a antecipada revelação do Mago Natu, a despeito da inveja que lhe devotava, sem querer expor nem demonstrar a extensão de sua incontida rivalidade, Bruxo Neno cochichou nos ouvidos do Rei Mor: — Esse Mago Natu pensa que sabe de tudo. O Senhor, Rei Mor, já viu do que eu sou capaz, o que ainda não pode dizer dele. Não lhe mostrou nada que comprove ser melhor do que eu, tanto nas ciências ocultas como nas artes da magia, além de umas poucas coisinhas que fala aqui e acolá, está lembrado? Que mais ele fez? Nada. Não sei por que o Rei Médium, agora que é imperador, dá tanto crédito a esse mago, ao ponto de permitir que entre lá naqueles aposentos secretos, onde só ele e o Grande Rei deveriam entrar. Percebendo que o Rei Mor não estava interessado em ouvir suas lamentações desrespeitosas e descabidas sobre a pessoa irrepreensível do Mago Natu, Bruxo Neno voltou ao assunto que interessava ao rei: — Continuo prometendo... Vossa Rainha terá o filho, ou a filha, que deseja e vosso reinado vai ser muito, muito mais... maior e melhor do que esse imperiozinho de beira de rio — acrescentou, com indisfarçado sarcasmo. E prometeu mais: — Qualquer um que tentar vos atrapalhar, eu transformo em bicho, dou sumiço e ponto, resolvo o caso. Rei Mor, inflado de orgulho, inchado de soberba com a lisonjeira bajulação com que Bruxo Neno gratuitamente o agraciava, prometeu-lhe sob juramento: 328 — Palavra do Rei Mor: se fizeres mesmo a Rainha Sissu me dar um herdeiro ou herdeiros, ou os dois de uma vez, minhas minas de ouro e prata, dobrarem de produção, como dizes; minhas éguas de corrida aumentarem a fertilidade; sem vos esquecer de fazer progredir também a minha criação de catetos (Tayassu tajacu); concederei a mão da minha jovem e mais bela criada, a Murmur, para que a desposes, além de facultar-vos outros favores que haverão de ser bem convenientes. Mas, lembrai-vos, deverás me prometer lealdade e fidelidade até a própria morte, prestando-me submissão e vassalagem, evidentemente. — Assim será – jurou-lhe Bruxo Neno. Imediatamente ajoelhou-se diante do Rei Mor, ferindo a ponta de seu dedo indicador esquerdo com a afiada lâmina de sua adaga de prata. Juntando algumas gotas de seu sangue, permitiu que pingassem aos pés do Rei Mor, comprometendo-se: — Prometo-vos, por este juramento pactuado de sangue, dar minha própria vida em defesa da vossa e do Reinado de Trindade, se assim for preciso. Encostou a testa aos pés do Rei Mor e beijou-os, selando, com aquele gesto, o pacto de lealdade. Querendo imitar o Mago Natu, que prestava reverência ao Grande 229H. H. Entringer Pereira Rei pronunciando uma sequência enigmática de letras cujo significado só ele e o Grande Rei conheciam, pronunciou em voz alta e solene: — R.M.:T.U.V.X.Z.! Rei Mor, pego de surpresa, não conseguiu decifrar o que a secreta proclamação simbolizava, porque nada entendia de signos, emblemas e enigmas. Não querendo demonstrar sua ignorância, nem se humilhar perante o Bruxo, perguntando o que este queria dizer com a sequência alfabética, respondeu disparatado, dando a entender que decifrara o segredo: — B.N.:T.U.V.X.Z.! O Bruxo Neno, também surpreso com a resposta, pensou: “Será que o Rei Mor adivinhou o que acabei de inventar agora para significar essas letras? Tenho que ser rápido. Se me perguntar, vou dizer que meu enigma é: R.ei M.or: T.erás U.m V.aloroso X.amã Z.oólogo! E se ele quiser que eu decifre o enigma dele, o que vou dizer?” Continuou pensando e imaginando, ao mesmo tempo em que o Rei Mor também procurava dar significado correspondente às letras do enigma que propusera. Refletiu, conjeturou até que lhe ocorreu a seguinte combinação: “B.ruxo N.eno: T.erei U.m V.assalo X.amã Z.eloso ”. Receando ambos que pudessem expor suas deficiências e ignorâncias, por não conhecerem em profundidade o que significavam os respectivos enigmas, Rei Mor ordenou que o Bruxo Neno se levantasse e concluiu: — Aceito vosso juramento. Pertenceis agora ao Reino de Trindade, assim como já pertence aos meus domínios a Feiticeira Zureta. Tempos desses, tua mãe, a Sacerdotisa das Sombras, Feiticeira Zuzu, veio morar no Reino de Trindade. Ela também me jurou lealdade e já lhe devo alguns excelentes favores! Ao ouvir sobre os préstimos de sua mãe, Bruxo Neno interessou-se por descobrir que favores ou que trabalhos seriam aqueles mencionados pelo Rei Mor e de quais instrumentos mágicos a Feiticeira Zuzu andava se utilizando. Sucintamente, o rei descreveu um ritual de magia, numa noite de lua cheia, celebrado no Bosque da Solidão, para lhe devolver a virilidade, perdida desde os tempos em que a Rainha Olinda, mulher do Rei Pay, morrera, grávida de sete meses; e Bruxo Neno se lembrou do episódio por ter sido ele mesmo quem fez o encantamento com ovos de lagartixa, para que a rainha perdesse o filho e morresse. Desde então, o Rei Mor não conseguira ereção para acasalar-se com sua mulher, a Rainha Sissu: — Fizeste o feitiço para Rainha Olinda, mas o efeito contrário também me atingiu. Desde aquele tempo, não consigo nem tentar engravidar minha mulher. É certo que até hoje a Rainha Sissu não engravidou, mas a Feiticeira Zuzu me garantiu que, quando ela e seu próprio filho, que és tu, estivessem morando sob os domínios de um mesmo Senhor, que sou eu, minha descendência estaria assegurada! Ah, agora as coisas se encaixam... É isso que ela queria dizer... Tereis mesmo que se mudar para o Reinado de Trindade a fim de que se cumpra o augúrio de tua mãe e a Rainha Sissu me dê herdeiros... — Perguntei-vos, Senhor meu Rei, que instrumentos minha mãe usou? Não vos recordais? 230H. H. Entringer Pereira — Re-cordo. Corda. Bem, não propriamente uma corda. Parecia um bridão. Isto, um bridão de fios reluzentes! – confidenciou o Rei Mor no ouvido do Bruxo Neno. — Conheço a história desse bridão poderoso! Ele faz e acontece! Agora é todo nosso. Poderemos encantar gente em bicho, bicho em gente e encontrar tesouros! – exclamou, presunçoso, tomado de ambição. — Encontrar tesouros? – interessou-se Rei Mor. “Esta parte muito me interessa”, Rei Mor pensou sem dizer... — Posso conseguir tudo isto. Só preciso que o Senhor Rei cumpra com o prometido. Dê-me a mão da bela Murmur em casamento. — Palavra de rei é palavra de rei, Bruxo Neno. Cumpra com tua parte, então. Não vos esqueçais: ou fazeis por onde, ou mandarei cortar-vos o pescoço! — Não carecerá, Senhor Rei. Bruxo Neno fala... Bruxo Neno faz
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p e s s o a s 🤩 boníssimo início de tarde ☀ é com grande prazer que se convida todxs que já passaram pela experiência do acolhimento do syncup geral do ReRe bem como interagentes exploradores para experienciar daqui a pouco as 14h30 a exploração da originição básica através do ReRe mapeamento básico whitehat do projeto OCA terravila glocal com o querido @brazdyvinnuh 💫 https://us02web.zoom.us/j/86263593876?pwd=ApKXCmnNJnkMPCpmS7MeEj2mM3GRbf.1
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Me interessei ao primeiro contato. Com a observação veio o encantamento, por essa espécie tão singular, e, ao mesmo tempo, multifacetado.
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Festa de Nossa Senhora de Santana
12/07/202512/07/2025
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Comunidade do PA Quilombo no Lago do Manso em Chapada dos Guimarães MT Brasil. Uma iniciativa que soma .
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Oficina de Sistema de Informação Geográfica (SIG) –
27/03/202527/03/2025
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A OCA Terravila Glocal tem a honra de informar, que vem aí a primeira Oficina de Sistema de Informação Geográfica (SIG) – Brigada Voluntária PA Quilombo 📅 Data: 01 e 02 de abril de 2025 📍 Local: Residência do Amorim - Comunidade PA Quilombo, Chapada dos Guimarães/MT 📌 Endereço: Rua Quilombo, Lote 36 - Zona Rural, Sítio Real Verde – CEP 78195-000 🛰 A comunidade está convidada a participar da Oficina de Sistema de Informações Geográficas (SIG), um componente do projeto Rede Floresta. Por meio do mapeamento participativo, monitoramento comunitário e vigilância remota, a oficina oferecerá treinamento teórico-prático para capacitar os participantes no uso de imagens de satélite e ferramentas SIG. 🌱 Junte-se a nós e aprenda como utilizar tecnologias para proteger nossas florestas, prevenir incêndios e promover o uso sustentável do solo e dos recursos naturais! 📌 Evento gratuito. Inscrições através do link: https://www.sympla.com.br/evento/oficina-de-sistema-de-informacao-georreferenciada-sig-brigada-voluntaria-gleba-quilombo/2879319?referrer=statics.teams.cdn.office.net&share_id=whatsapp
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ReRe conVERSA inLOCO c/ OCA TERRAVILA GLOCAL
30/11/202430/11/2024
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O Projeto OCA Terravila Glocal está recebendo a visita de Vinicius Braz e Vania Trindade, para falar da web3 e suas vantagens para a Agricultura Familiar. Os visitantes estarão dando uma prévia do que vem ser a CARAVANA 2025, pelos interiores mais distintos do Brasil
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OCA::ReRe CONversa IN LOCO no LAGO DO MANSO - MT
15/11/202415/11/2024
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OCA::ReRe CONversa IN LOCO no LAGO DO MANSO - Chapada dos Guimarães-MT No dia 06 de dezembro de 2024, o Projeto OCA TERRAVILA GLOCAL recebe a presença de Vinicius Braz e Vânia Trindade (Rio de Janeiro-RJ) em sua sede (PA Quilombo/Lago do Manso), para dialogar com a comunidade, sobre a importância da web3 nas comunidades mais remotas e que utilizam os métodos tradicionais em seus cultivos na agricultura familiar.
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