OCA TERRAVILA GLOCAL - Ocupação Cocriativa ArtFloresta
Sitio Bom Jesus - Rua Quilombo LT 56 - PA Quilombo - Lago do Manso - Chapada dos Guimarães-MT Brasil
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Associação, Centro Cultural, DAOActividades
Acomodação, Agrofloresta, Aromáticas, Compostagem, Frutas, Grãos, Medicinais, Mudas, Orgânico, PANCs, Permacultura, Pesquisa, Preservação, Reciclagem, Sementes Crioulas, VoluntariadoFone: +5569999556403
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OCA - Terravila Glocal
"Alegria, fruto da Liberdade c/ Confiança!"
OCUPAÇÃO COCRIATIVA ARTFLORESTA
>>Manter um Polo Produtivo utilizando o conceito Agroecológico e da permacultura. Horta c/ alimentos convencionais; cultivo de ervas aromáticas, medicinais, fitoterápicas e PANCs-(P...
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750 km de Barreira Regenerativa de Vetiver A OCA Terravila Glocal, em parceria com a APAQ - Associação PA Quilombo, se une para implantar uma barreira protetiva em toda a orla do Lago do Manso. A iniciativa nasceu da observação do assoreamento causado por sedimentos, animais e maus hábitos humanos. Para minimizar a entrada de resíduos no lago, principalmente os involuntários, escolhemos o capim-vetiver. Suas raízes profundas chegam a 6m e a parte aérea atinge 2,2m de altura, tornando-o ideal para contenção. A OCA já produz seu canteiro de matrizes, que completa 2 anos hoje, 01 de junho de 2026. Queremos trabalhar com a comunidade ribeirinha, que soma cerca de 600 famílias, impactando até 2.500 propriedades na região. Junto à população do entorno, vamos instituir uma cooperativa de produtores de mudas nativas e de vetiver. Essa proposta vem sendo construída desde abril de 2025. Nosso objetivo ainda em 2026: iniciar Oficinas de Capacitação para Manejo e Produção de Mudas de Vetiver e promover Rodas de Conversa sobre preservação do Lago e desassoreamento das nascentes. Preservar é um ato coletivo. 💧
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»»» "A OCA Terravila Glocal está em transformação, evoluindo de uma área de pastagem em desuso para um ecossistema hiperlocal vibrante. Com 1.600 mudas de Vetiver, e mais uma diversidade de espécies em fase de adaptação; estamos preparando o terreno para ampliar o cultivo e plantar espécies como arroz, milho e mandioca. Nosso objetivo é criar uma agrofloresta sustentável e orgânica, priorizando irrigação inteligente e consórcio de espécies diversas. Buscamos recursos para melhorar infraestruturas e acomodações, visando contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população do entorno do Lago do Manso. A Barreira Regenerativa de Vetiver protegerá o Lago de sedimentos, garantindo saúde e bem-estar biorregional."
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NA TORRE DO TESOURO No percurso compreendido entre o Salão do Trono e a Torre do Tesouro, o Imperador recebeu orientação do Mago Natu para que subisse aos seus aposentos e trocasse de vestimentas. Era protocolo no reinado, diante das comunicações de morte e de outras calamidades, o rei se apresentar aos súditos com indumentária preta, a fim de prepará-los antecipadamente para receber notícias pouco alvissareiras, evitando assim as surpresas negativas. Poucas vezes, depois que recebera o trono do Elo Dourado, Rei Médium tivera que usar roupa preta. Rainha Gônia também já se vestira de preto outras vezes, e nesta acrescentara ao figurino um solidéu colocado sobre a cabeça, cravejado de pedras ônix e bordado com fios de prata e pérolas negras. Embora seu rosto irradiasse tristeza e intenso sofrimento, sua graciosa beleza aumentara, realçada pelo brilho contrastante das pedras e a cor de suas vestes. De igual forma, estava vestida a Princesa Hévea, que ainda não compreendera exatamente tudo o que estava se passando. Príncipe Kurokuru, alheio aos pormenores do episódio, mas solidário à consternação de seus familiares, apenas cobrira a cabeça com um turbante de linho preto, adornado de cordões de pérolas e bordado com fios de ouro. O Grande Rei escusou-se de acompanhar os familiares do Rei Médium à visita ao Príncipe Urucumacuã, conforme explicara ao Mago Natu: melhor que permanecesse na Câmara do GRAU, absorto e contemplativo, vibrando em energia positiva para neutralizar, trazendo conformação a todos pelas aflições que cruzavam.514 A chegada súbita do tristonho cortejo à entrada secreta da Torre do Tesouro não pegaria o Príncipe Urucumacuã de surpresa. Desde que iniciara a construção daquele é difícil, sob a orientação do Grande Rei e a supervisão permanente do Mago Natu, sabia que cada um dos nove pavimentos, dispostos em espiral na direção do interior da terra, corresponderiam à efetiva prática das nove virtudes, em diferentes fases de sua vida, a partir de então. Intuitivamente, o Príncipe saíra naquela manhã do mais profundo e oculto dos compartimentos, onde se encontrava, recluso há algum tempo, estudando a Pedra de Filosofar e se energizando com os fluidos emanados pela pirâmide de cristal, cujo vértice superior fora instalado voltado ao Interiorem Terrae. Subiu à superfície com o objetivo de abrir o portal mágico, com a senha numérica e a palavra secreta que havia recebido do Grande Rei: Arrematel-20304. Assim que o portal se abriu, Mago Natu entrou primeiro e, um por um, pegou nas mãos dos componentes da família real e os conduziu para dentro, transpondo o portão de jade. Admirado, Rei Médium, o primeiro a entrar, perguntou ao Mago a razão daquele procedimento: — Este lugar está completamente magnetizado com forças telúricas de destruição e criação. Se o Príncipe Urucumacuã vos tocar diretamente, causará extensas e dolorosas queimaduras ou até mesmo poderá matar-vos, não por intenção, mas por condição. Portanto, evitai vos encostar às paredes; tampouco tocai diretamente no príncipe, até que ele saia deste local, após cumprir o pentecostes, transpondo o portal de 357 H. H. Entringer Pereira jade, para descarregar no solo a energia assimilada, enquanto durou o procedimento de construção à conclusão desta Grande Obra. — Quando poderá transpor o Portal e voltar ao nosso convívio, Mago Natu? – perguntou a Rainha Gônia. — Três dias depois que souber do conteúdo desta mensagem. Por gentileza, Rei Médium, entregue-lhe a caixa de ouro. Antes que o Imperador passasse o objeto às mãos do filho, Mago Natu o pegou e o envolveu numa toalha branca de linho, que trouxera dobrada sobre os ombros. Príncipe Urucumacuã serenamente recebeu a caixa, desdobrou a manta de linho, devolveu-a e esperou a ordem do Mago: — Soberano Príncipe da Beira do Rio, Alteza e Sereno Cavaleiro da Misteriosa Ordem do Pássaro de Fogo, descei às profundezas desta bastilha e, no trajeto, abre esta caixa e conhece cada uma das nove partes de seu conteúdo. Não sairás deste confinamento até que venha o pôr do sol no terceiro dia de vossa dor; até que encontreis o verdadeiro mistério de vossa epifania! Até que sintas o súbito entendimento e a compreensão da essência do divino que habita em Tu. Até que sintas a realização de uma parte do vosso sonho de criança. Até que encontreis finalmente a última peça deste enigma e consigas ver tua imagem completa. Até que se ilumine vosso pensamento, inspirado no divino e único dom de tua essência sobrenatural. Nada direis, nem comentareis com os profanos sobre o que vos sucedeu, no entanto! Rainha Gônia passou às mãos do Mago a cesta que trouxera consigo, contendo frutas da estação, pães sem fermento, manteiga, mel, chocolate e leite de búfala. Mago Natu também a envolveu na mesma toalha de linho branco, procedendo a entrega da cesta e ordenando: — Podereis comer de tudo. Todavia, neste primeiro dia, só bebereis o leite. No segundo dia, comereis frutas, pães e manteiga. No terceiro dia, podereis saborear o chocolate e o mel! Antes que o sol se ponha, ao terceiro dia, colocareis todas as lágrimas derramadas dentro desta caixa. Ao anoitecer, lacrai o portal de jade com a senha que recebestes e saía da Torre do Tesouro, fechando a porta exterior com a chave que somente vós sabeis onde se oculta. Terminada vossa missão, depois de passado um tempo, só tornarás à Torre do Tesouro quando as sete caixas e as sete partes quebradas do Espelho Universal, reunindo vossos cinco sentidos, V.oltarem ao I.nterior da T.orre R.evelando o O.culto L.ugar! Rei Médium, Rainha Gônia, Príncipe Kurokuru e Princesa Hévea não compreenderam totalmente a explicação ordenada pelo Mago Natu, mas sabiamente preferiram não fazer perguntas. Despediram-se do príncipe, deixando-o a sós no maravilhoso e fantástico edifício da Torre do Tesouro. No silêncio de seu recolhimento, Príncipe Urucumacuã bebeu três cálices do leite de búfala, depositando a cesta com o restante dos víveres sobre um aparador insculpido na parede revestida de cobre, no primeiro pavimento. Pegou em seguida a caixa de ouro retangular, cuja tampa reluzia e ressaltava a incrustação das três letras R.N.A. em pedras preciosas verdes, abriu-a, retirou o rolo de pergaminho escrito com caracteres pretos e iniciou a descida em espiral, lendo em cada um dos pavimentos, uma 358 H. H. Entringer Pereira das partes correspondente ao número em que a mensagem estava seccionada. A cada patamar descido e a cada parte da missiva lida, o príncipe se consternava e se entristecia mais e mais. No oitavo pavimento, uma dor profunda o arrebatava. Na passagem do oitavo para o nono e último pavimento, completamente tomado por um sofrimento inaudito, o príncipe prostrou-se sobre o último patamar, próximo ao trono que se erguia sobre a pirâmide de cristal. Angustiado, no estertor da aflição que o arrebatava, não conteve a amargura, enquanto lágrimas copiosas saltavam involuntariamente de seus olhos verdes. Sentindo-se no auge da angústia e não conseguindo dominar a tristeza, gritou a plenos pulmões, numa incontrolável explosão de desespero: — Grande Rei, Grande Rei, por que me abandonastes? Sua voz ecoou por longo tempo entre as paredes circulares dos nove compartimentos da Torre do Tesouro e, restabelecido o profundo silêncio imperante no mágico edifício, uma claridade portentosa se instalou, impedindo que o príncipe abrisse seus olhos, ainda que suas lágrimas jorrassem sem parar. Antes que forçasse abrir os olhos, ouviu uma voz nítida e firme, mas calma e pacífica, vinda da direção do lugar onde ficava um trono sobre a pirâmide de cristal: — Por que te angustias tanto, filho meu, se sabes que jamais te abandonarei? Acaso te esquecestes disso? Sem abrir os olhos ainda, o príncipe permaneceu deitado, sentindo-se confortado ao reconhecer a voz do Grande Rei. No entanto, não conseguia conter as lágrimas que brotavam involuntariamente, ainda que mantivesse os olhos fechados. Diante do seu silêncio, a voz o interrogou: — Onde está tua determinação? Porventura sois menos valoroso agora, diante do infortúnio, do que antes? Claro que não! És predestinado a deixar uma grande fortuna. Quereis renegar tua própria natureza? Vamos, abre os olhos! Príncipe Urucumacuã sentiu vontade de atender ao comando daquela voz acalmadoura para abrir os olhos. Mas, no íntimo, experimentava um medo incontido de ver face a face o Grande Rei naquele estado de pusilanimidade em que se deixara fraquejar. Hesitante, mas calado, optou por acatar a repreensão da voz que persistia: — Fostes escolhido dentre milhares para receber esta missão... Melhor herança não vos caberia! És filho do Pai de toda a Criação e a ti também estão reservados trono e coroa de honra e o cetro de louvor! Alegra-te, pois! Considera teu próprio destino e verás que teu espírito se ufana, porque tua glória está próxima! Enquanto ouvia a voz inconfundível do Grande Rei, Príncipe Urucumacuã entreabriu os olhos e uma luz ainda mais intensa, como o brilho do sol, inundou o ambiente. Certo de que inevitavelmente iria se deparar com a imponente figura do Grande Rei, sentado sobre a pirâmide de cristal, esforçou-se para abrir os olhos e erguer-se. Sentando-se, ouviu o barulho de incontáveis pedrinhas caindo sobre o chão. Ao levantar-se, olhou na direção dos seus pés e constatou que estavam entre preciosos diamantes do tamanho dos pingos de suas lágrimas. Em estado de êxtase, dirigiu o foco de seu olhar ao trono de cristal. Surpreendentemente, não avistou o semblante do Grande Rei. No trono sobre a pirâmide de cristal, apenas um feixe de luz azul brilhante entrava resplandecente pela claraboia central da Torre do Tesouro. 359 H. H. Entringer Pereira Inebriado com o mágico aparecimento das pedras de diamante e a miraculosa dissipação de todo o seu sofrimento e dor, recompôs-se, pronunciando em voz alta um salmo de gratidão que há exatos cinquenta dias não recitava: — Grato, grato, grato, Grande Reflexo Auto Unificado! Eu sou o Teu G.R.A.U., filho da tua Divina Natureza Absoluta! Sou essência de tua própria essência. Sou o que te acompanha, desde o princípio, e que te seguirá até o que o primeiro seja o último e o último seja o primeiro. Quero ouvir a Tua voz! Ainda que te desconheça, Tu me reconhecerás, porque És a minha espada e meu escudo! És minha armadura e meu aliado. És minha defesa e fortaleza, minha vitória no combate! Em ti confio, porque és minha esperança e minha força! Oh, Grande Poder! Oh, meu Grande Poder! Três vezes grande, três vezes sábio, três vezes admirável!518 O príncipe transfigurou-se, envolvido pela auréola de luz azul-claro brilhante espargida no recinto. Compreendendo o significado oculto do que o Mago Natu havia exortado, devolveu à caixa de ouro o pergaminho lido, recobrindo-o com milhares dos mais puros diamantes transformados dos pingos de lágrimas caídas, espalhados pelo chão. Lacrou a tampa da caixa com seu selo e, em seguida, abaixo dos monogramas R.N.A., insculpiu usando a energia ígnea que irradiava de seu dedo indicador as letras do enigma — VITRIOL. Depositou o tesouro contido naquele cibório sob o trono de cristal, fechando-o dentro da lápide, sepultando, assim, o pergaminho da trágica missiva e os milhares de preciosos diamantes oriundos de sua dolorosa paixão. Situando-se no tempo, percebeu que já haviam se passado dois dias completos, desde a visita de seus familiares. Sentiu fome. Buscou a cesta de alimentos e percebeu que havia comido as frutas e os pães com manteiga. Mas ainda estavam intactos o pote de mel e as barras de chocolate. Saboreou-os, com gratidão e alegria. Volvera finalmente a sua natureza terrena, sentindo-se fortalecido e conformado, apesar de toda a tragédia relatada por Rei Naldo de Avilhanas, notificando os cruéis assassinatos de seus filhos, Princesa Irina e Príncipe Gesu Aldo, no percurso da viagem para o Elo Dourado, e o bárbaro martírio imposto ao seu filho bastardo, Mulato, esfolado e queimado vivo, sob a acusação de ter sido o autor dos dois crimes.
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O ASSASSINATO DA PRINCESA No prazo de quarenta e cinco dias contados a partir de sua sagração, Príncipe Urucumacuã declarou concluída a construção da Torre do Tesouro, e somente os artífices construtores e seus auxiliares também iniciados no conhecimento secreto das Ciências Sagradas sabiam a exata localização e a senha secreta para adentrar a misteriosa construção. Aguardava-se com muita expectativa a chegada da Princesa Irina, de Avilhanas, a noiva, para que fosse inaugurado o monumento, ainda com a presença do Grande Rei. Da data da inauguração da Grande Obra, também conhecida por Torre da Sabedoria, até o dia do casamento do príncipe, seriam contados exatos noventa dias. O Grande Rei havia programado regressar ao seu reinado tão logo o príncipe inaugurasse a Grande Obra, concluindo, assim, o grande ciclo iniciado, desde que viajara três anos passados para as terras do Oriente, em busca de receber conhecimentos de Alquimia e das Ciências Sagradas. Rei Médium, Mago Natu e o Grande Rei encontravam-se na Câmara do GRAU em confabulação, cumprindo rotina diária antes do desjejum, quando um pássaro preto, emitindo sons agourentos, cruzou quatro vezes em frente à janela. Sem dizer palavra, os três apenas se entreolharam e compreenderam que estavam prestes a receber mensageiros com notícias desfavoráveis. Lembrando-se de que ainda estavam pendentes as negociações dos limites para a confrontação definitiva das terras do falecido Barão de Corumbi, entre os reinados de Trindade, Avilhanas e Elo Dourado, Rei Médium quebrou o silêncio e prognosticou: — Certamente, Bruxo Neno levou para Trindade notícias do Elo Dourado que desagradaram ao Rei Mor! Preparo-me para receber retaliações mais pesadas que há de exigir-me ações também mais decisivas... — Não se trata apenas disso, Rei Médium... Essa é apenas uma outra parte do problema – acrescentou Mago Natu, com relativa serenidade. — O que me dizeis, Grande Rei? – quis saber Rei Médium. — Aguardemos. Não devemos nos preocupar, antecipando acontecimentos, ainda que saibamos de antemão sobre todas as probabilidades. Aguardemos com serenidade – desconversou o Grande Rei. Mago Natu convidou, então, os dois amigos para um passeio matinal pelos bosques floridos, nas cercanias do palácio. Preferiu deixar o Príncipe Urucumacuã às voltas com suas próprias ocupações, respeitando seu período de noventena, pois já passada a quarentena, dali em diante deveria ainda permanecer noventa dias trabalhando na Torre do Tesouro, até se completar o período preparatório ao casamento. Rainha Gônia também não iria com eles, ocupada que estava com a administração dos afazeres palacianos e a atenção aos hóspedes que faziam parte das comitivas do Grande Rei e dos visitantes de alguns outros reinados próximos. Aproximadamente ao meio-dia, o salão de refeições já arrumado com pratos, copos e talheres dispostos às mesas revelava a quantidade exata dos comensais esperados para o almoço. A governanta, como de hábito, saiu a tocar o gongo pelos corredores e alas do palácio, enquanto os copeiros ordenadamente traziam aos 354 H. H. Entringer Pereira aparadores os pratos ainda fumegantes, assados e cozidos, a completar os espaços entre as saladeiras de vegetais crus e frutas da época. Em pouco mais de cinco minutos, toda a família real e a corte do Elo Dourado estavam a postos, recebendo os convidados, com as honrarias de praxe, para iniciarem a refeição. Após o almoço, enquanto aguardavam a sobremesa, os homens conversavam, alegres, sobre banalidades, e as mulheres trocavam opiniões e gostos sobre as receitas dos manjares servidos. Inesperadamente, ouviram-se ao longe as trombetas anunciando visitantes. Rei Médium levantou-se de pronto, pediu licença e saiu para se certificar do que estava acontecendo. Mago Natu o acompanhou e o Grande Rei, no mesmo instante, convidou o Príncipe Urucumacuã e a Rainha Gônia a segui-lo, conduzindo-os até a Câmara do GRAU, onde lhes diria a respeito dos episódios vindouros. Ainda que atrasados sete dias, esperava-se a chegada da comitiva real, procedente de Avilhanas, com a Princesa Irina, Príncipe Gesu Aldo e seu meio-irmão Mulato, cocheiro e pajem dos príncipes, também os tripulantes da embarcação, além dos serviçais da caravana, guardiães e os arqueiros reais. Avistando os adventícios no desembarcadouro, Rei Médium não distinguiu entre eles os três filhos de Rei Naldo de Avilhanas e surpreendeu-se, porque a bandeira sinalizadora da categoria dos visitantes, hasteada ao lado da bandeira do reinado, era preta e não verde, como diria o costume. O primeiro homem a sair da embarcação adiantou-se aos demais, na direção do Rei Médium e do Mago Natu. Saudou-os com as reverências necessárias. Sem muitas explicações, acompanhou o anfitrião e sua assistência. Dentro do Palácio Fortaleza, no Salão do Trono, entregou ao Imperador uma pesada caixa de ouro, cravejada de esmeraldas com os monogramas R.N.A., de onde o Rei Médium tirou um pergaminho amarrado por duas fitas pretas e selado com o lacre do Rei Naldo de Avilhanas. Mago Natu, presciente das informações contidas naquele documento, percebendo o estado de ansiedade e preocupação que dominavam os presentes, sempre ao lado do Imperador, disse-lhe em voz baixa: — Rei Médium, leia com os olhos. Depois conversaremos sobre as providências que havereis de adotar. Sem imaginar que conteúdo tão reservado e grave estava contido naquele rolo, o soberano obedeceu. À medida que desenrolou o pergaminho, sua expressão agravou-se, e quanto mais avançava na leitura, mais se transfigurava. Seus olhos marejaram e, suspirando profundo, não conteve a emoção: começou a chorar. Os mensageiros do Rei Naldo, de cabeça baixa, circunspectos, evitavam dirigir o olhar diretamente ao Imperador, porque nenhum deles, até então, presenciara um rei derramar lágrimas diante de seus súditos. Sem perder a serenidade, no entanto, Rei Médium chegou à conclusão da missiva, recompondo-se. No final da mensagem, Rei Naldo de Avilhanas também solicitava ao Imperador, não obstante abusar de sua generosidade e franca hospitalidade, que acomodasse todos os componentes daquela comitiva no Palácio Fortaleza por uma curta temporada até que ele, sua esposa, Rainha Alimpa, e sua mãe, Rainha Alzira, se encontrassem ali, no prazo máximo de trinta dias, para decidir que rumos dariam aos seus destinos, depois de ouvidos os sábios conselhos do primo Imperador, do Mago Natu e do Grande Rei. 355 H. H. Entringer Pereira Fechando os olhos, suspirando profundo, Rei Médium guardou o rolo, selando-o novamente, agradeceu aos mensageiros pelo cumprimento de sua missão e determinou aos seus assistentes que os acompanhassem até suas acomodações, depois de instrui-los sobre os tratamentos de hospitalidade e costumes do Palácio Fortaleza. A sós com o Mago Natu, o Imperador fez menção de tirar novamente o pergaminho da caixa, no intuito de dar ciência ao amigo da trágica mensagem que havia recebido: — Não, não, Imperador! Podeis deixá-lo selado e guardado. Deveremos conduzi-lo à Torre do Tesouro, onde ficará depositado, depois que o Príncipe Urucumacuã tomar ciência destes acontecimentos. — Já sabeis, então, de tudo o que aconteceu? — Sim, amigo. Tive uma visão terrível, num sonho esta noite... Sei de tudo que se passou. Posso lhe assegurar, antecipadamente, que Calico cometeu o maior de todos os equívocos de sua vida: mandou torturar e queimar o filho Mulato, por um crime que ele não cometeu! — Oh, céus! E quem o punirá por isso? — O tempo, meu caro. O próprio tempo... Vem, vamos encontrar Urucum na Torre do Tesouro. Tenho certeza de que o Grande Rei, no momento, está com a Rainha Gônia, Kururu e a Princesa Hévea, na Câmara do GRAU. Já devem estar cientes ou, no mínimo, preparados para receber as notícias. Rei Médium admirou-se da tranquilidade do Mago Natu, e desta vez o ouviu referir-se aos príncipes gêmeos pelos apelidos familiares. Sem perguntar as razões, pegou a caixa de ouro com o pergaminho, fechou as janelas do salão e cobriu o majestoso trono com uma manta preta. À saída do aposento, ordenou ao guarda de honra postado à entrada que hasteasse a bandeira de luto no mastro à esquerda da bandeira do Elo Dourado e cobrisse todos os outros símbolos da realeza do império, fixados nos quatro baluartes das muralhas do palácio, com um tecido preto. Em menos de dez minutos, o Elo Dourado estava mergulhado em profundo silêncio, e o Sol encoberto de grossas nuvens. Logo depois, um vendaval assolou a cidadela, forçando os que estavam nos campos a voltarem as suas casas e os que estavam nas ruas a se abrigarem, resguardando-se do mau tempo, preparando-se para receber más notícias.
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Talvez nem caiba texto. Porque tudo se lê. Todos lêem um pouco ou muito de tudo. Quem sabe o que pode acontecer entre um piscar de olhos. O vento atinge a visão e o propósito impera às margens do Lago do Manso_Chapada dos Guimarães MT.
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PRÍNCIPE URUCUMACUÃ EM CASA Desde quando o Príncipe Urucumacuã chegara em companhia da extraordinária Corte do Grande Rei em três de suas portentosas embarcações — Patientia, Sapientia e Humilitas —, a vida no Palácio Fortaleza e no reinado do Elo Dourado, em geral, ganhou novos significados. A alegria pelo retorno do amoroso filho, a visita do Grande Rei, sua alegre comitiva e a proximidade da data do casamento do “Príncipe da Beira do Rio” com a “Virgem de Avilhanas” pontuavam entre as mais alvissareiras efemérides das últimas décadas. Príncipe Urucumacuã havia mudado bastante de fisionomia naqueles três anos de ausência. Sua farta cabeleira ruiva e lustrosa emoldurava um rosto de traços bem angulados, seus olhos verdes adquiriram brilho magnetizante e seu porte físico chegara à plenitude da anatomia masculina. Irradiava uma beleza forte e apaziguadora e sua voz ganhara o timbre de firmeza temperada de gentileza e cortesia em suas palavras. Alguns de seus gestos lembravam os mesmos movimentos do Grande Rei, sem parecer frívola imitação. Dos mais humildes serviçais aos altos dignitários da corte do Elo Dourado, todos queriam ouvi-lo, abraçá-lo e ficar o maior tempo possível perto do jovem príncipe. Muitas perguntas lhe faziam e, a cada resposta, mais se maravilhavam do conhecimento e sabedoria adquirida por Urucumacuã, além de sua humildade e simplicidade. — Parece um deus, dizia a criada que o viu nascer. — Acaso conheceis algum deus para compará-lo? – debochavam as outras. — Claro que não, mas continuo achando que ele é um deus, e o irmão gêmeo também. — Deuses não são de carne e osso... — Mas podem se fazer humanos para ensinar o amor e a bondade! — Neste caso, temos alguns deuses aqui, conosco. — Temos mesmo! A voz macia e solícita da Professora Plínia ecoou no corredor do Palácio. Estava às voltas com a preparação da Câmara do GRAU para a solenidade de consagração do Príncipe Urucumacuã à Ordem Misteriosa do Pássaro de Fogo. No dia seguinte, começariam os cerimoniais de apresentação oficial de “Urucum” à nobreza da Casa Real do Elo Dourado. Mago Natu recomendara alguns cuidados especiais quanto à arrumação da Câmara do GRAU e solicitara à irmã selecionar as criadas para adentrar com elas naquele sacrário, especialmente reservado. Entre as servas que conversavam no corredor próximo dos aposentos do príncipe, requisitou duas, particularmente, incumbindo-as de limpar com água perfumada de flores de laranjeira todas as peças do mobiliário, varrer o piso com vassouras de tomilho e ornamentar com lírios do campo, colhidos antes do sol nascer, na manhã seguinte, em jarras solitárias de cristal e de ouro. Ninguém mais deveria pisar o chão da Câmara do GRAU, após a limpeza até o dia seguinte, quando se colocariam as flores nos vasos. Tudo deveria estar providencialmente arrumado para que a seleta plateia que ali viesse fosse honrada com as celebrações pela chegada do príncipe herdeiro. Sua consagração nos antigos e H. H. Entringer Pereira secretos rituais dos Mistérios do Fogo e unção pelo Grande Rei e pelo Mago Natu, testificariam o glorioso final daquele longo círculo de preparações às quais se submetera, seguindo as tradições ancestrais para a formação de sucessores, verdadeiros xamãs, tempos antes de se casarem. Seriam entregues naquela solenidade as honras, galardões e lauréis, símbolos das mais altas comendas do reinado, como salvo-condutos à herança do trono, coroa e cetro reais, legados do pai e legítimo antecessor. Em troca das honrarias, o futuro legatário ganharia também um sem número de tarefas de alta complexidade a executar, subordinando-se ao seu talento invulgar e prestigioso desempenho o sucesso e a vitória em todas elas. Algo diferente aconteceria naquele dia... Os rituais de consagração do Príncipe Urucumacuã começaram bem cedo. Penetrando, pela primeira vez, a Câmara do GRAU, trajando uma comprida túnica preta, de olhos vendados e descalço, entrou no santificado tabernáculo conduzido pelo Mago Natu, postando-se em frente ao altar principal de cedro e olíbano, onde ajoelhou-se para depois se deitar de bruços, apoiando a testa no dorso das mãos espalmadas, a esquerda sobre a direita. O suave perfume dos lírios colhidos na madrugada e os incensos de mirra e nardo combinavam aromas propícios aos arrebatamentos celestiais. Atenta aos acenos do Mago Natu, Professora Plínia iniciou a execução de harmoniosos acordes no saltério acompanhados pela brandura de um harpista da comitiva do Grande Rei. Em formação lado a lado, respeitosa e reverentemente, postaram-se junto ao Grande Rei, o pai e a mãe do príncipe e sete conselheiros reais. Do lado oposto, Mago Natu, Professora Plínia, outros sete conselheiros e o irmão gêmeo, Príncipe Kurokuru. O Grande Rei iniciou a cerimônia salmodiando numa linguagem compreensível apenas aos iniciados. Aspergindo água de essência de rosas sobre o príncipe, entoou o juramento em forma de responsório, com voz afinada e forte: — Crês que somos todos irmãos, gerados à imagem e semelhança da Força Máxima Incalculável, partículas e átomos dessa mesma energia? Usando da mesma entonação e força na voz, Príncipe Urucumacuã respondeu: — Creio! — Juras que dedicarás tua vida a amenizar os sofrimentos de teus próximos? — Juro! — Juras manter-te fiel a esta ordenação por toda tua vida? — Juro! — Juras que não te corromperás nem diante de todo o ouro e toda prata, nem diante da mais valiosa pedra preciosa, nem terá mais valor para ti nenhum objeto do que os dons que recebeis agora? — Juro! — Juras que jamais revelarás o oculto que somente a ti foi revelado? — Juro! — E, assim, comprometido estais consigo mesmo porque jurastes o amor. Por mim, por teus pais, por teus vassalos e servos, eu vos consagro, Urucumacuã, Príncipe da Beira do Rio, neto de Pay e Olinda, Ofin e Tarope, primogênito de Médium e Gônia, Grão-Sacerdote da Eterna e Milenar Ordem dos Mistérios do Pássaro de Fogo, sagrado 343 H. H. Entringer Pereira pela manhã, ao Sol; pela noite, à Lua; e por todo o sempre ao Fogo Original, para sujeitar ao teu domínio, a dor, a mentira, a luxúria e a cobiça, enquanto tua mão direita fizer o que tua mão esquerda não souber. Pedindo que os presentes se ajoelhassem, o Grande Rei pegou um grande círio branco de cera virgem, aceso, enquanto o Mago Natu tirava a venda dos olhos do príncipe, colocando-o em decúbito frontal. Encostando a simbólica vela na cabeça de Urucumacuã, disse: — Abram-se as janelas e descerrem-se de ti os véus para que recebas pelo Portal da Luz a claridade universal do Poder Infinito da Visão Onipotente, que sempre iluminará tua senda e far-te-á invencível, no Norte, no Sul, no Leste, no Oeste, debaixo do Sol e da Lua, em cima da Terra e dentro da Água. Em seguida, impôs as duas mãos sobre a cabeça de Urucumacuã, sem tocá-la, dizendo: — Sejas tu, Pássaro de Fogo, UM com teu corpo e espírito. De posse de um sudário de linho branco encobriu todo o corpo de Urucumacuã, deixando-lhe apenas a cabeça descoberta: — Das trevas saíste, à luz tornarás. Descobre a tua cabeça, para que se complete tua orientação. Em seguida imantou uma taça de água, derramando-lhe parte no chacra coronário, concluindo: — O Fogo morre na água, mas dela é nascente. Purifica-te pela água e pela provação do fogo. Igne natura Renovatur Integra. Pede que todos se levantem. Abraça-os, um por um e na vibração da corrente de energia que começa a circular pela Câmara do GRAU, canta um salmo na mesma língua em que iniciou a celebração. Erguendo o príncipe do chão, Mago Natu revestiu-o, encobrindo a túnica preta, com um longo manto de pura seda, vermelho brilhante, adornado às costas, por um grande pássaro cor de fogo, bordado com fios de ouro no interior do hexágono formado no espaço interno da estrela de seis pontas, desenhada a partir da superposição de dois triângulos com as bases e vértices opostos. Após, rompendo o mais completo silêncio, ouviu-se um estalido forte, agudo como o tinir de objeto metálico, ecoando pelo ambiente até desaparecer. Em seguida, um raio de luz formatou-se numa flama vermelho cintilante, qual chama acesa, vinda da direção do Portal Sul, entrando pela janela e posicionando-se sobre a fronte lívida do Príncipe Urucumacuã. Seus cabelos ruivos ficaram como minúsculos raios brilhantes, e todo o seu semblante resplandecia. No mesmo momento em que ergueu as mãos postas para fazer a saudação de gratidão ao Grande Rei, saíram, de seus dedos longos, faíscas de pequenas chamas de fogo azul fluorescente que, num movimento oscilante, circundaram o corpo do príncipe, ritmados numa dança suave, percorrendo-o em espiral de baixo a cima, para logo então unir-se numa única flama, igual ao olho poderoso que tudo vê, pairando no topo de sua cabeça, por alguns segundos. Enquanto os olhares da plateia, atenciosos e reverentes, observavam a revelação sobrenatural de poder e força cominados ao neófito, aquela chama azul cintilante estilhaçou-se em seu núcleo, fragmentando-se em inúmeras centelhas de luz dourada, semelhantes a partículas de 344 H. H. Entringer Pereira ouro, inundando o ambiente com uma chuva de luz, orbitando em torno do príncipe numa espiral que passou a refletir o espectro das sete cores do arco-íris. O Grande Rei entoou uma sequência de mantras litúrgicos, com portentosa voz de barítono, e à medida que pronunciava monossílabos sagrados, apontava com os dois dedos, indicador e médio esticados, para o espectro radiante da espiral colorida, direcionando-a aos quatro cantos da Câmara do GRAU. Obedecendo ao comando da divina voz e à direção apontada pelo divino maestro, a espiral dividida em quatro segmentos foi aos poucos desaparecendo, como que sugada pelos vasos solitários de ouro com os lírios do campo. O semblante do Príncipe Urucumacuã iluminou-se, e uma aura de luz azul-claro brilhante circundou todo seu corpo. Mago Natu então pegou a coroa de folhas de Loureiro sobre o aparador de marfim e, erguendo-a, ajeitou-a sobre sua cabeça, extinguindo assim, a misteriosa chama de energia vermelho coruscante que se apresentava sobre a fronte de Urucumacuã. A luz que irradiava do corpo do príncipe iluminava todo o recinto. Entregando-lhe também o anel da Ordem e o Colar da Obediência, repassou-lhe a Espada Real com o Pássaro de Fogo, burilado na empunhadura, e as cinco letras de seu enigma pessoal insculpidas sob o símbolo: T.U.V.X.Z., num ritual repetido em outros eventos de sagração real. O Grande Rei o abraçou e concluiu a liturgia, pronunciando em voz alta: Tu, Urucumacuã, vencerás xamãs zombeteiros! Lembre-se sempre de teu juramento. Ao que ele respondeu: — Teu único vassalo, xamã zelador. T.U.V.X.Z. O Grande Rei entoou ainda a liturgia de fechamento, salmodiando em sua língua ancestral. Rei Médium olhou para a esposa e viu quando lágrimas lhe vieram às faces. Dirigindo-se ao iluminado filho, Rainha Gônia entregou-lhe nas mãos o cabochão de diamante, a pedra de filosofar, a mesma que ganhara no dia do seu casamento, obedecendo ao ritual proposto pelo Grande Rei. Em seguida, colocou-lhe no dedo mínimo o anel de pérola negra, que também ganhara do marido quando noivaram, para que pudesse presentear sua noiva, a futura esposa, assim que ela chegasse ao Elo Dourado, dois meses antes do dia do casamento. Apesar de felizes, fruindo as vibrações positivas e benfazejas daquele momento celestial, pai, mãe e filhos, ao cruzarem seus olhares, abraçaram-se os cinco, e compreenderam que nem tudo, dali por diante, haveria de ser só felicidades, mas viveram intensamente a alegria da oportunidade. Aquela parte do ritual estava concluída. A cerimônia da Provação do Fogo Sagrado ocorreria mais tarde, à noite, sob a luz da lua, na Praia da Lua Clara, conduzida pelo Mago Natu. Ao entardecer do mesmo dia, na Praia da Lua Clara, soprava uma brisa agradável, depois de um cálido tempo de céu azul. Alguns serviçais concluíam a instalação de um cenário diferente dos que já haviam sido arrumados naquele local para os casamentos e outras festas de estação. A derradeira vez que aquela extensão de areia branca fora tão cuidadosamente limpa e rastelada remontava ao casamento do Rei Médium com a Rainha Gônia, há vinte e quatro anos passados. 345 H. H. Entringer Pereira À sexta hora da tarde, a praia das areias brancas e macias lembrava um reduto mágico, prestes a experimentar um grande acontecimento. Arquibancadas escavadas na areia e forradas de alcatifa púrpura emprestavam não só beleza, mas também sobriedade àquela simplicidade. No espaço central do grande semicírculo de bancadas na areia, um quadrado de vinte e quatro por vinte e quatro metros, meio metro mais alto que o nível dos assentos, isolado por fitas brancas, azuis e douradas – as cores oficiais do Império do Elo Dourado –, permitia a visão de uma armação em formato de pirâmide, estruturada com roliços de madeira aromática, mais grossos na base, afinando-se à medida que ganhavam altura. No cimo da pirâmide, um reluzente cristal em formato piramidal finalizava e rematava o imponente monumento de madeira. Com os quatro vértices na direção dos pontos cardeais, a face norte e a face sul da pirâmide estavam em parte abertos, formando um portal, para permitir que fossem atravessados de uma direção a outra. Concluído o trabalho, os serviçais entregaram algumas ferramentas especiais ao Mago Natu, que as dispôs em ordem sobre um pequeno tablado à entrada do portal norte da pirâmide de madeira. Professora Plínia veio em seguida, ornamentando de fitas e flores os arcos de palmas verdes, erguidos nas entradas de cada fileira das bancadas na areia. Rei Médium, com antecedência necessária, anunciou aos súditos e amigos dos reinados vizinhos que todos estavam convidados a assistir àquela cerimônia, ao contrário do ritual de consagração na Câmara do GRAU, dirigido pelo Grande Rei, ao amanhecer, cuja plateia resumiu-se à família real e alguns poucos convidados especiais. Não tardou e uma grande plateia já se posicionara nas bancadas de areia, iluminadas nos espaços entre uma e outra por archotes e lanternas feitas de ouro, fincadas na areia, abastecidas de óleos vegetais e resinas naturais de breu, alecrim e sândalo. O aroma que se propagava, o vento conduzia até as residências e a fragrância inebriante convidava a população, ainda que pouco entusiasmada, a chegar até o local da cerimônia. À hora vigésima, surge o Príncipe Urucumacuã, montando um corcel de pelagem láctea reluzente, de par com seu irmão gêmeo, Príncipe Kurokuru, também montando um corcel de pelagem branca, à frente de um séquito, cujo derradeiro elemento era o Mago Natu. Em formação ritual, os dois irmãos apearam das montarias e entraram na pirâmide de madeira, cada um por um portal, enquanto quatro vestais, cavalgando corcéis de cores diferentes – amarelo, vermelho, preto e branco – postaram-se nos quatro vértices indicadores dos pontos cardeais, trazendo às mãos bandejas de prata: A do Leste trouxe o sal; a do Oeste, azeite; a do Norte, enxofre; e a do Sul, o azougue. Mago Natu, o último a tomar posição, numa atitude de humildade e reverência, saudou com um aceno de cabeça toda a plateia, ajoelhando-se diante do Grande Rei, cujo assento estava entre o do Imperador do Elo Dourado, Rei Médium, e da Rainha Gônia. Ainda de joelhos, o Mago pronunciou: — M.N.O.P.Q.R.S.! O Grande Rei também o cumprimentou e respondeu à saudação: — M.N.O.P.Q.R.S.! 346 H. H. Entringer Pereira Desfolhando um antigo alfarrábio nas mãos, Mago Natu iniciou a celebração. Os espectadores, muito atentos, observavam os movimentos dos protagonistas daquele ritual, semelhantes a uma liturgia de teatro sagrado. A partir do momento em que Mago Natu convidou o Príncipe Kurokuru a deixar o interior da pirâmide de madeira pela abertura do Norte, entregando-lhe, além de algumas das ferramentas que estavam colocadas sobre um pequeno tablado ao lado do monumento, um calhamaço no formato de um caderno, aramado de fios de ouro, com toda a sua coleção de folhas curativas, apanhadas nos cata-logo para compor o livro das doenças, o ritual se transformou. O príncipe gêmeo, coroado com uma guirlanda de folhas de oliveira recebeu também vestes cerimoniais, uma túnica verde-esmeralda, forrada de seda amarela, bordada com pedras preciosas em desenhos de flores e folhas, ouviu uma longa profissão de fé, jurando seus credos e comprometendo-se, sob pena de anátema, a trabalhar pela saúde e bem-estar de todos os desafortunados daquele reinado, sem lhes exigir quaisquer formas de pagamento ou retribuição material. Concluindo os juramentos e recebendo a ordenação de Sacerdote da Cura, Príncipe Kurokuru retomou sua montaria, circulando quatro vezes pelos quatro lados no cenário isolado de fitas, saindo pelo portal do sul, em suave marcha. Enquanto isso, Mago Natu solicitou que todos permanecessem em silêncio, enquanto ele cantava hinos de louvor, aguardando o Príncipe Kurokuru retornar. Momentos após, o príncipe regressou andando, vestido com um avental verde sobre uma túnica branca resplandecente, empunhando uma palma verde e uma coroa de ouro branco e esmeraldas na cabeça. Havia entregado as oferendas no oculto altar da Honra Onipresente dos Ancestrais Superiores Consagrados ao Altíssimo. Príncipe Kurokuru sentou-se ao lado esquerdo do Grande Rei, permanecendo em profundo estado de contemplação, sem pronunciar uma palavra. Mago Natu prosseguiu a liturgia, entregando uma taça de bebida sagrada ao Príncipe Urucumacuã, dizendo-lhe: — Oh, Sagrado Pássaro de Fogo, Senhor da Morte e da Vida, resplandecei sobre teu vassalo Urucumacuã, transmutando o sofrimento em gozo e a morte em vida. Fazei-o penetrar nos vossos sacrossantos mistérios e abri-lhe as portas insondáveis da percepção e dos encantos. Que ao seu toque, o metal se dobre e a pedra se quebre e tudo se transforme segundo sua vontade. No Sol se faça a chuva e na Chuva se faça o sol, tudo em conformidade com Vosso imperscrutável domínio e vontade. Tudo em conformidade com a Honra Onipresente dos Ancestrais Superiores Consagrados ao Altíssimo. Mago Natu prosseguiu sua santificada homilia, ao tempo em que as quatro vestais que levavam as oferendas dos elementos sal, azeite, enxofre e azougue, em suas salvas de prata, caminharam à frente, lentamente, até os pontos onde se erguiam os quatro vértices da pirâmide de madeira. Mago Natu continuou sua oratória recebendo-lhes as oferendas e depositando-as, uma a uma, na frente, atrás, à esquerda e à direita de Urucumacuã, que se encontrava dentro da pirâmide, sob o prisma de cristal. Com o cabochão diamante que recebera de sua mãe na cerimônia de consagração ao amanhecer, o príncipe elevou aos céus o precioso presente nas conchas das mãos e viu quando uma chama de fogo azul e vermelha, no formato de um olho, 347 H. H. Entringer Pereira saiu do diamante e veio até a direção dos seus pés. Quase tocando o chão, a chama se dividiu em duas, uma azul e outra vermelha, entrando cada uma por um dos dedões dos pés e percorrendo-lhe vagarosamente as pernas em direção à cabeça. Na altura de seus órgãos sexuais, as duas chamas entrelaçaram-se e seguiram pela sua coluna vertebral, cruzando-se em outros seis pontos distintos coluna acima, até voltar a se unir numa só chama que se colocou no topo de sua cabeça. Por onde se cruzavam aquelas duas chamas de energia, uma área de luz se projetava do corpo, proporcionando ao príncipe uma visão radiográfica que suas roupas brancas não o impediam de perceber. Ele mesmo podia enxergar o funcionamento harmônico de seus órgãos internos, músculos, ossos, nervos, veias azuis e vermelhas, numa maravilhosa radiografia tridimensional de si. Entrou em sublime êxtase e, ao olhar o cabochão diamante em suas mãos, percebeu que ele ganhara uma abertura no centro que correspondia à medida de seu dedo médio. Intuitivamente, colocou-o no dedo, sentindo uma corrente eletrizante percorrer seu corpo, pleno de força. Poucas pessoas na plateia se davam conta do que estava acontecendo, reparando somente nas palavras e na movimentação que o Mago Natu promovia em redor do príncipe, no centro da pirâmide. Concluída a ritualística de entrega dos quatro elementos, nas salvas com as recomendações quanto ao modo de usá-las e das transformações alquímicas possíveis por intermédio das substâncias, o dirigente da cerimônia derramou sobre a cabeça do Príncipe Urucumacuã uma pequena ânfora de nardo, espalhando-o sobre seus cabelos ruivos. O perfume daquela essência propagou-se pelo ambiente, exalando tão agradável fragrância que todos se inebriaram com o aroma suave e penetrante. Ouviam-se, das quatro direções, sons harmoniosos de harpas e saltérios e, à medida que aumentavam o volume da música, quatro tocadores de tambor, em ritmada cadência, se aproximaram da pirâmide, postando-se diante dos vértices do emblemático monumento de costas para o príncipe. Urucumacuã deitou-se no chão sobre um tapete azul ao comando do Mago Natu que, à aproximação dos batedores de tambor, iniciou a leitura das doze tarefas que o Príncipe da Beira do Rio teria de cumprir num curto prazo, até o dia de se casar, para se tornar digno e capaz de receber o trono, a coroa e o cetro do Imperador do Elo Dourado, Rei Médium, para sucedê-lo no poder. Explicando com detalhes cada um dos doze trabalhos, rememorando acontecimentos miraculosos passados naquele reinado e em alguns outros vizinhos, antes, durante e depois de seu nascimento, enumerou-os: — “Em primeiro lugar, construirás para ti a Torre do Tesouro, sete medidas abaixo do chão, onde guardarás, nas entranhas da Terra, em local secretíssimo, todo o ouro e pedras preciosas que amealharás em tua existência. — Tarefa segunda: Destruirás para sempre a fantasmagórica Mula Sem Cabeça. — Tarefa terceira: Desencantarás a Cobra Grande, transformando-a novamente no Rei Negro Norato, para que as más águas que descem do rio Negro para o Grande Rio, sendo recebidas, se desfaçam. 348 H. H. Entringer Pereira — Tarefa quatro: Desencantarás, se assim desejar, a Pirarara e sua filha Kaxara; os príncipes Pintado e Surubim, se quiseres, poderão voltar a ser humanos; Rainha Trapa não deixará de ser enguia, porque sua ambição não permite. — Tarefa cinco: Expulse para as águas salgadas o irmão que botou na irmã, e que seu filho, Pirarucu, não o acompanhe. — Tarefa seis: Não permitirás que a Senhora Pan Thera, a Sonça Pintada, continue carregando em seu pescoço o colar de esmeraldas que pertence à Rainha Alzira, nem mantenha sobre a cabeça o diadema de brilhantes que era da Rainha Araci; retirai-os, e a mulher-fera voltará ao seu formato natural.” Ao pronunciar essa ordem, ouviu-se um grande esturro, abafando o rufar dos tambores. A plateia, assustada, olhou ao mesmo tempo para a direção norte e viu se aproximar, pela ala entre as bancadas de areia que se ligava ao vértice norte da pirâmide, um corpo semelhante ao de mulher, trajado de véus transparentes e rendas brancas, muito ornamentada e reluzente. Sua cabeça, porém, era de felino e portava um diadema de muitos brilhantes. A visão despertava medo e fascínio ao mesmo tempo. Uma fera num corpo de mulher. Alheia a toda a ritualística que se desenrolava naquele cenário, aquele ser encantado caminhou até o portal norte, parou diante do príncipe, que continuava deitado sobre o tapete azul-turquesa e, colocando-se sobre as quatro patas, abaixou a cabeça, encostando o nariz na cabeça do príncipe. Erguendo-se, Urucumacuã impôs as duas mãos sobre os olhos da fera, hipnotizando-a. Em total submissão, a fera aquietou-se, permitindo que lhe despojasse do diadema de brilhantes e do colar de esmeraldas. Ao comando de um gesto, na mesma hora, a fera transformou-se num portentoso animal de pelagem dourada brilhante com manchas negras, retornando na direção Sul, desparecendo no florestal de onde viera. O diadema de brilhantes nas mãos do Príncipe Urucumacuã resplandeceu, irradiando faíscas luminosas que preenchiam todo o espaço interno da pirâmide. Mago Natu, sereno e circunspecto, prosseguiu a ritualística, pedindo que o iniciado se conservasse de pé para ouvir as outras seis tarefas: — Sétima tarefa: Quebrarás a maldição do Conde Rasku, para que a parte do lobo que ora vive nele não mais se manifeste e que toda sua maldade se desfaça na sexta-feira de lua minguante. Os tambores aumentaram a cadência das batidas, elevando o som, quando essa tarefa foi anunciada. Alguém lá no fundo da plateia se levantou, subiu na plataforma de areia, atrás da bancada, e gritou: — Essa tarefa é minha. Não deixarei ninguém meter o bedelho. Essa eu mesmo executo. Tenho um acerto de contas com o maldito do Conde Rasku. Se Bruxo Neno o amaldiçoou. Só Bruxo Neno pode tirar a maldição! Assim o Bruxo Neno se mostrou. Ninguém, no entanto, prestou atenção àquele elemento alheio ao ritual, nem houve manifestações de apoio ou desagrado a sua indesejável interferência. Até aquele momento, a presença do Bruxo Neno passara despercebida e indiferente aos súditos, embora não se pudesse compará-lo a nenhum deles. Diferia fisicamente dos demais, é verdade, não só pela cabeça raspada, mas também pela longa barba negra que deixara crescer fazia algum tempo. Desde que Rei Mor resolvera adotar um novo figurino, deixando a barba crescer, Bruxo Neno também 349 H. H. Entringer Pereira adotara o mesmo estilo. Mago Natu prosseguiu, então, como se ninguém o houvesse interrompido: — “Oitava tarefa: Trarás do mundo das fantasias o menino Sacipe Ererê e seu corcel negro, o Tição, invisíveis e imortalizados desde o quarto dia do teu nascimento — Nona tarefa: Recuperarás o bridão de ouro encantado que pertenceu ao teu tio Albe, o Rico, esteja ele com quem estiver e onde estiver.” Bruxo Neno se levantou de novo. Mesmo sem solicitações, manifestou-se aos brados: — Isso também é comigo, Mago Natu. O bridão encantado está comigo e ninguém tasca! Mas podemos negociar. Eu o entrego mediante uma condição: se Príncipe Urucumacuã se casar com minha filha Angelin, a moça mais Bela de Trindade! Do contrário, nem bridão encantado, nem casamento com filha de rei. — Acalme-se, Bruxo Neno. O bridão encantado não é vosso e vós o sabeis. Príncipe Urucumacuã já tem compromisso de casamento, desde que nasceu. Sabeis que ele está noivo. Portanto, não poderá se casar nem com vossa filha nem com a filha de outro rei. — Isso é o que veremos, Mago Natu... É o que veremos! Mago Natu solicitou que as pessoas permanecessem em silêncio, devido ao tumulto ocasionado pelas intervenções do Bruxo Neno. Voltando à enumeração das três últimas tarefas, prosseguiu: — Tarefa de número dez: Descobrirás quem furtou os pedaços do Espelho Universal que estavam nas sete caixas de metal, para recolocá-los no local de onde não deveriam ter saído. Esperava-se que Bruxo Neno se manifestasse novamente. Mago Natu estava certo de que fora ele quem furtara os estilhaços do espelho mágico que o Rei Médium quebrou e depois condicionou no fundo das sete caixas de metal, na manhã do sexto dia das festividades comemorativas ao nascimento dos príncipes gêmeos. Dado o silêncio do bruxo, Mago Natu resolveu instigá-lo, provocando-o para que ele confessasse, confirmando publicamente estar de posse dos fragmentos do espelho e das sete caixas de metal: — Um dentre vós permaneceis com os sete estilhaços do Espelho Universal, colocados no fundo das sete caixas furtadas no sexto dia das festas de nascimento dos príncipes Urucumacuã e Kurokuru. Devereis devolvê-los ao Príncipe Urucumacuã. Do contrário, tereis aflições e embaraços por sete anos seguidos. Houve um silêncio prolongado. A maioria da plateia olhou na direção do Bruxo Neno, esperando que ele se entregasse. Devido ao comportamento indiferente do bruxo, Mago Natu prosseguiu: — Vamos à tarefa de número onze: submeterás o Mapinguari a tua vontade, mas não o aniquilarás. É preciso que ele cumpra sua sina. À menção daquele nome até então desconhecido dos espectadores, Bruxo Neno se levantou e novamente interpelou Mago Natu: — Podeis nos explicar quem é este tal de mapinguari que dissestes agora mesmo? — Este é um segredo que não chegareis a conhecer, Bruxo Neno. 350 H. H. Entringer Pereira — Por acaso estais troçando comigo? Quereis mangar de mim? Existe alguma coisa que Bruxo Neno não conheça? — Sim, Bruxo Neno. Não conheceis, nem conhecerás a ti mesmo. Este é o segredo do Mapinguari! A plateia toda vaiou Bruxo Neno. Contrariado e raivoso, ele se retirou. Indiferente à atitude do bruxo, Mago Natu concluiu a lista das tarefas: — E por fim, a última tarefa: Contarás a verdade ao Rei Mor, para que sua geração seja conhecida. Bruxo Neno já se ausentara, mas não estava distante o suficiente para não ter ouvido a décima segunda tarefa que o Príncipe Urucumacuã teria de cumprir. Ouvindo o nome do Rei Mor, volveu rapidamente, e de frente ao Mago, perguntou: — Que verdade é essa que Rei Mor não conhece? Pensais que não tenho feito previsões e contado ao meu rei segredos que ele não conhecia? — Também não conheceis a verdade, Bruxo Neno. Tampouco tereis tempo de conhecê-la! Melhor até que não a conheças. O bruxo, aparentemente contrariado, tentou interromper outra vez o interlocutório, interferindo no ritual da Sagração do Príncipe, mas Mago Natu preveniu a inconveniência e não permitiu que a celebração mudasse de rumo. Volvendo ao cumprimento normal da ritualística, o Mago adentrou o interior da pirâmide onde o Príncipe Urucumacuã se mantinha em estado de concentração e meditação, prosseguindo uma cantilena incompreensível à plateia, porém mais audível à medida que aumentava a tonalidade da voz. Invocando forças da natureza e seus elementais, o rito chegou ao ápice quando se ouviu um forte estrondo na direção do horizonte, acompanhado de um clarão originado de um raio precipitado de uma única nuvem azulada que pairava sobre o monumento de madeira, energizando de uma luz vermelha o cristal que pulsava no cume da pirâmide. Na base inferior do cristal, fagulhas luminosas no formato de salamandras se desprendiam, saltando e preenchendo todo o espaço interno do monumento, circulando em órbitas nucleares ao redor do corpo iluminado do príncipe, num espetáculo mágico, nunca apreciado até então. A plateia, fascinada, admirada e reverente, aguardava o desfecho da cerimônia para se dirigir ao Palácio Fortaleza, onde um grande banquete esperava pelos convidados. Na oportunidade, o Imperador anunciaria a data do casamento do Príncipe Urucumacuã com a Princesa Irina, de Avilhanas. Concluindo o protocolo cerimonial, Mago Natu relembrou ao príncipe as doze tarefas que teria de cumprir, classificando-as pela ordem temporal de execução. Antes de se casar, apenas uma das doze teria de estar totalmente concluída: a edificação da Torre do Tesouro ou a Grande Obra. A misteriosa Grande Obra, a Torre do Tesouro, contrariamente ao imaginado, não seria construída do chão para cima, mas do solo para dentro. Tal edificação tanto serviria de laboratório alquímico, onde o príncipe trabalharia, como também seria o cofre seguro, onde guardaria seu grande tesouro: todo o conhecimento que adquirira, materializado sob a forma de cristais e gemas preciosas, metais raros e puríssimo ouro alquímico. No pavimento mais profundo, onde depositaria a grande pirâmide de cristal, a flama do Fogo Frio, juntamente à Pedra de Filosofar, ocultaria ainda seu repositório de 351 H. H. Entringer Pereira rubis, esmeraldas e diamantes. Naquele sagrado lugar, nenhum outro mortal conseguiria chegar, sem antes ter se submetido à construção de seu segundo corpo. Mago Natu resumiu sucintamente os detalhes da construção, enumerando os nove pavimentos que deveriam ser edificados em formato de espiral, com degraus de cima para baixo, correspondendo cada um deles às virtudes que o Príncipe Urucumacuã alcançara, depois das provações que vencera durante o longo período de tempo em que se ausentara, submetendo-se aos rituais exaustivos da secretíssima Iniciação nos Mistérios do Fogo: no primeiro estágio, no primeiro piso, ficaria o compartimento da Coragem; no segundo, a Disciplina; no terceiro, a Laboriosidade; no quarto, a Independência; no quinto, a Perseverança; no sexto, a Generosidade; no sétimo, a Fidelidade; no oitavo, a Honra; e no nono e mais profundo de todos, o pavimento da Verdade. Para finalizar a cerimônia, Mago Natu entregou-lhe uma chave de ouro cravejada de brilhantes e a espada que o Rei Médium mandara o ferreiro Kalibur fundir, enquanto aguardava seu nascimento. Solenemente, reverenciou o príncipe, tocou a base da pirâmide de cristal com a ponta da espada, desenhando um símbolo no formato de uma ave de asas abertas, cuja marca ficou insculpida no cristal como se uma lâmina de fogo sulcasse o material sem nenhuma resistência. Por fim, disse: — É possível que tua marca seja ocultada pelas cinzas do tempo. Por milhares de anos, a pedra do fogo frio e teu valioso tesouro serão insistentemente procurados, mas somente o Homem que não cede aos desejos inferiores, aquele cuja capacidade de criar em si mesmo o fogo que transforma seu mundo interior e todos os outros mundos numa integridade única, poderá encontrar a pedra da felicidade eterna. Visita Interiorem Terrae, Rectificandoque, Invenies Occultum Lapidem. (Vá às profundezas da terra e reforma-te, para que encontres a pedra oculta da felicidade). A maioria dos espectadores, não compreendendo o significado hermético do que Mago Natu proclamava, aos poucos se ausentara do local. Permanecia, ao final, um grupo restrito de sábios e intercessores, cortesãos do Grande Rei, do Rei Médium e da Rainha Gônia. Concluindo a celebração, diante da ausência da maioria dos súditos, após o juramento de compromisso do Príncipe Urucumacuã em observar todos os princípios da Antiga e Misteriosa Ordem do Pássaro de Fogo para vencer a obscuridade, recebida a benção, Mago Natu proclamou: — A ninguém será dado o direito de tocar fisicamente no Príncipe Urucumacuã, até que conclua sua Grande Obra. Muitos virão em seu auxílio, outros o tentarão, mas seu corpo não poderá ser profanado, nem mesmo derramado ao solo o conteúdo de seu vaso sagrado, para que seu despertar consciente permita que se transforme num dominador ou em potência visível e invisível. Esse domínio, verdadeira salvação, será possível somente aos que assim buscarem e desejarem; aos que desafiarem a coragem; aos que se dispuserem lutar para vencer a si mesmos; laborar perseverantemente, a fim de conseguir esse despertar. É necessário destruir os próprios limites e encontrar-se com os sofrimentos interiores, fragmentados pelos embates da sobrevivência. A destruição desses limites requer prolongado esforço, até que não haja mais fronteiras entre morrer e viver. Decorre deste estado interior de arrebatamento, a criação do único fogo que não queima, mas que funde num só, o conhecimento de todas 352 H. H. Entringer Pereira as experiências vividas até então. Igne Natura Renovatur Integra. Ite missa est. (Só o fogo renova toda a Natureza. Ide, a cerimônia acabou).
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12/07/2025 — 12/07/2025
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Comunidade do PA Quilombo no Lago do Manso em Chapada dos Guimarães MT Brasil. Uma iniciativa que soma .
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27/03/2025 — 27/03/2025
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A OCA Terravila Glocal tem a honra de informar, que vem aí a primeira Oficina de Sistema de Informação Geográfica (SIG) – Brigada Voluntária PA Quilombo 📅 Data: 01 e 02 de abril de 2025 📍 Local: Residência do Amorim - Comunidade PA Quilombo, Chapada dos Guimarães/MT 📌 Endereço: Rua Quilombo, Lote 36 - Zona Rural, Sítio Real Verde – CEP 78195-000 🛰 A comunidade está convidada a participar da Oficina de Sistema de Informações Geográficas (SIG), um componente do projeto Rede Floresta. Por meio do mapeamento participativo, monitoramento comunitário e vigilância remota, a oficina oferecerá treinamento teórico-prático para capacitar os participantes no uso de imagens de satélite e ferramentas SIG. 🌱 Junte-se a nós e aprenda como utilizar tecnologias para proteger nossas florestas, prevenir incêndios e promover o uso sustentável do solo e dos recursos naturais! 📌 Evento gratuito. Inscrições através do link: https://www.sympla.com.br/evento/oficina-de-sistema-de-informacao-georreferenciada-sig-brigada-voluntaria-gleba-quilombo/2879319?referrer=statics.teams.cdn.office.net&share_id=whatsapp
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30/11/2024 — 30/11/2024
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O Projeto OCA Terravila Glocal está recebendo a visita de Vinicius Braz e Vania Trindade, para falar da web3 e suas vantagens para a Agricultura Familiar. Os visitantes estarão dando uma prévia do que vem ser a CARAVANA 2025, pelos interiores mais distintos do Brasil
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15/11/2024 — 15/11/2024
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OCA::ReRe CONversa IN LOCO no LAGO DO MANSO - Chapada dos Guimarães-MT No dia 06 de dezembro de 2024, o Projeto OCA TERRAVILA GLOCAL recebe a presença de Vinicius Braz e Vânia Trindade (Rio de Janeiro-RJ) em sua sede (PA Quilombo/Lago do Manso), para dialogar com a comunidade, sobre a importância da web3 nas comunidades mais remotas e que utilizam os métodos tradicionais em seus cultivos na agricultura familiar.
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