OBrasil é conhecido como o país da biodiversidade, e não é para menos, o seu território corresponde a 17% da área terrestre tropical, 12% das águas superficiais, 11% de todas as plantas conhecidas no planeta e é claro que temos bambu.O bambu possui em torno 1600 espécies de 120 gêneros, 40% das espécies se encontram nas Américas, o Brasil abriga 35 gêneros e 258 espécies nativas sendo 120 endêmicas, que só ocorrem aqui! Apenas no estado do Acre está contida a maior floresta de bambu natural do mundo, 4,5 milhões de hectares compondo uma mancha de 150.000km² que se estende até os Andes, passando pelo estado do Amazonas, Colômbia e Perú.Uma coletânea de artigos científicos publicados em universidades do Brasil (EMBRAPA, 2019 O Bambu Brasileiro), que embora em teor mais de 90% tratem de espécies asiáticas e a despeito das políticas públicas nada favoráveis, nota-se o interesse em desenvolver essa cadeia de produção no país, resta saber para quem.Os investimentos em P&D são medíocres, o bambu é ainda considerado uma praga agrícola no país, não figura nem como tema transversal nos currículos das ciências naturais, agrárias e tampouco em nenhuma das engenharias, seja como matéria ou material nobre. Não existem no sistema público, escolas técnicas e de formação profissional especializadas em bambu.Em 8 de setembro de 2011 foi promulgada a Lei 12.484, esta lei instituiu a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu — PNMCB, que tem por objetivo o desenvolvimento da cultura do bambu no Brasil por meio de ações governamentais e de empreendimentos privados. Em seu artigo 3º lê-se:“São diretrizes da PNMCB o desenvolvimento de polos de manejo sustentado, cultivo e de beneficiamento de bambu, em especial nas regiões de maior ocorrência de estoques naturais do vegetal, em regiões cuja produção agrícola baseia-se em unidades familiares de produção e no entorno de centros geradores de tecnologias aplicáveis ao produto.”Enquanto políticas públicas não são efetivamente adotadas, o mercado se ajusta com as suas próprias regras, algumas conquistas questionáveis foram celebradas por entusiastas e investidores, como a entrada do Brasil na INBAR — International Network for Bamboo And Ratan — organização criada na China para o apoio ao desenvolvimento do bambu no mundo, uma incentivadora de commodities que conta com mais de 40 países associados. Os acordos de cooperação técnica que foram selados com a China até agora, resultaram na publicação acima citada, visitas técnicas entre os dois países e o desenvolvimento de pesquisas voltadas para cultivo de espécies asiáticas em território nacional, algumas até então inexistentes em solo brasileiro. O que não se vê ainda são as diretrizes voltadas para os estoques naturais e a tão desejada parcela de participação do social no desenvolvimento sustentável proclamado com o bambu.Seria injusto deixar de citar o estado do Acre que promoveu avanços significativos na legislação conquistando a “permissão” para o extrativismo do bambu na floresta amazônica, que há muito já deveria ter sido incluído nas lista de produtos florestais madeireiros, evitando a derrubada de milhares de árvores ilegalmente. O estado de Santa Catarina também é um exemplo de avanço na legislação e inúmeras iniciativas de associações, grupos de estudo e fomento, tomadas pela sociedade sem qualquer regência governamental, fazem surgir exponencialmente a cada dia um novo negócio sustentável focado em bambu no país.Apesar de até hoje não figurar em números no setor financeiro, o bambu é utilizado no Basil desde tempos remotos, é possível encontrar no Museu Imperial artefatos daquela época, além de inúmeras publicações com ilustrações e relatos de trançados utilizados até hoje em esteiras para forros de construções, carro de boi, peneiras, balaios, movelaria, cercas e utensílios diversos, sem contar a produção dos povos indígenas. Na academia é possível encontrar artigos da década de 1970, tratando do seu uso na irrigação como tubos e calhas para condução de água e na construção de estruturas construtivas.No estado de Pernambuco, até poucos anos operava uma empresa do grupo Tapajós, desde a década de 80, na fabricação de papelão com celulose extraída da maior floresta artificial comercial de bambu das Américas. Segundo informações dadas à imprensa, a empresa migraria para o ramo de carvão ativado de bambu, porém nenhum sinal ainda foi dado.Com exceção da Caatinga, o bambu é encontrado naturalmente em todos os biomas brasileiros, configurando muitas vezes um problema ambiental grave devido o comportamento invasivo de algumas espécies, sobretudo as exóticas asiáticas alastrantes que se desenvolvem agressivamente sufocando ambientes nativos.Acredita-se, por falta de estudo aprofundado, que além das plantações comerciais, estimuladas pela Lei, somadas a grande mancha da Amazônia, possam existir ainda centenas de milhares de hectares de bambu espalhados pelo país, especialmente na Mata Atlântica, sem qualquer tipo de manejo, estudo ou aproveitamento.Tendo como obstáculo a legislação caduca, que proíbe o corte do bambu sob o argumento de preservação ambiental, o que sobra é um gigantesco desperdício de matéria prima e a liberação de toneladas de carbono não fixado, devido a degradação espontânea, postergando a criação de milhares de empregos e renda para as populações vulneráveis, mantidas longe da sociedade de consumo, por detrás das florestas do bambu protegido.Ainda que sem uma política de gestão definida, o Brasil já conseguiu aprovar a norma construtiva NBR16828–1 de 12/2020, acenando com um horizonte de entusiasmo para o investimento em habitações de interesse social e baixo impacto ambiental.Como se vê, em se tratando de bambu o mercado no Brasil é um oceano de oportunidades.
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