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URUCUMACUÃ BY H.H.Entringer Pereira LIVRO 3 Cap. 81
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O FOGO NA CASA DAS MOÇAS Quanto mais se aproximava o dia do casamento, mais Rainha Alimpa se sentia ansiosa. Menos pela saudade de seu reino, pois deixara tudo sob a administração de competentes ministros e bons conselheiros, mas por algo que sua intuição lhe anunciava sob forma de pressentimento de tragédia. Sentia calafrios sem motivos aparentes, como se fossem avisos de imprevistos no percurso. Casar-se uma segunda vez, entretanto, não estava fora dos planos, nem a incomodava tornar-se rainha de outro reinado. Sentia que não se tratava de algo ligado ao seu estado emocional, nem material, mas sombras de preocupação a acompanhavam quando trazia à lembrança o assassinato do irreverente e divertido Louco, providencialmente confundido com o sábio e circunspecto Mago. Interpretava aquele acontecimento criminoso como um aviso agourento de que corriam perigo, mercê que estavam da sanha assassina de algum malfeitor vingativo e odioso. Apenas os participantes do passeio ao Vale do Apertado notaram que, depois do assassinato do Louco, Mago Natu modificara seu estilo de trajar-se. Deixou as túnicas e as vestes brancas sob o avental bordado com o enigma M.N.O.P.Q.R.S., fazendo uso das indumentárias extravagantes do amigo, comportando-se publicamente com a excentricidade peculiar ao falecido personagem. Avizinhando-se a data de seu casamento e impelida pela curiosidade, Rainha Alimpa criou coragem para interpelá-lo: — Mago Natu, por que não tens usado tuas próprias roupas, desde que as trocou pelas do Louco? — Porque minha vida está garantida assim. É mais seguro que o assassino pense que matou o Mago e não o Louco. — Usarás a roupa do Louco até para celebrar meu casamento? — Não, no teu casamento, o Mago ressurgirá. Importa que saibam, neste dia, que quem morreu foi o Louco. — Mas, então, correrás perigo depois... — Enganas-te! Depois outros acontecimentos farão com que me esqueçam... — Podeis me dizer que acontecimentos serão? — Minha cara amiga, se eu vos disser, a história não será a mesma. Deixa o rio seguir seu curso natural. Faltando dois dias, às vésperas das bodas, o Palácio das Esmeraldas já estava ornamentado. Não havia um só detalhe esquecido ou desapercebido pela laboriosa organização da Professora Plínia. A movimentação dos hóspedes era intensa. O clima de alegria imperante só contrastava levemente com resquícios da nostalgia devido à sentida ausência da Rainha Araci e ao desaparecimento inexplicado do Louco, pois o episódio de seu assassinato não mereceu divulgação, atendendo razões de estratégia e segurança aconselhadas pelo Mago Natu, bem compreendidas pelos membros tanto da corte do Rei Médium do Elo Dourado quanto do Rei Naldo de Avilhanas. Todos os convidados haviam comparecido, inclusive o Rei Mor, do Reinado de Trindade. Desde o casamento do Rei Médium com a Rainha Gônia, no Elo Dourado, ele não mais comparecera a festa alguma. Justificava sua ausência designando o Bruxo Neno com outros membros da sua corte para representá-lo. Naquela oportunidade, todavia, viera ele mesmo com a Rainha Sissu e sua única filha, Princesa Anaconda. Foi 330H. H. Entringer Pereira a última comitiva a chegar e todos os aposentos da ala oeste do palácio estavam reservados para acomodá-los. Rainha Alzira e Rainha Gônia não se sentiam inteiramente à vontade com a presença da corte de Trindade, mas em nome das boas relações e da diplomacia entre os soberanos vizinhos, deram-lhes as boas-vindas no estilo protocolar de Avilhanas. Rei Naldo sabia que a visita do Rei Mor a Avilhanas não se prendia apenas à celebração de seu casamento com a também viúva e jovem Rainha Alimpa. Era notório e evidente que Rei Mor andava à procura de um fidalgo para desposar sua filha, a horrorosa e desprezível Princesa Anaconda. O único filho homem do Rei Naldo, Príncipe Gesu Aldo, quase tão belo quanto seu tio, Conde Rasku, era sabido de todos, tinha compromisso de noivado firmado com a Princesa Hévea, irmã dos príncipes Urucumacuã e Kurokuru, filhos do Rei Médium, e deveria se casar tão logo o Príncipe Urucum voltasse de sua longa viagem para desposar a Princesa Irina, sua irmã. O único príncipe solteiro, que ainda não tinha compromisso de noivado, era o Príncipe Kurokuru e, por conseguinte, estava disponível, se quisesse, para consignar um contrato nupcial. Havia ainda solteiro o inveterado sedutor, famoso pelas suas incursões amorosas descomprometidas, o Conde Rasku. O perfil do Conde Rasku, no entanto, não se adequava ao desejado pelo Rei Mor para ser admitido na realeza de Trindade. Era bonito demais, mas tinha caráter de menos. A fama de cruel desabonava suas credenciais. Rei Médium pediu ao Rei Naldo que aproveitassem o ensejo para resolver, de uma vez por todas, as questões ainda pendentes sobre as posses das terras do finado Barão de Corumbi. Era mais que oportuno se reunirem, os três soberanos, pois as terras que Corumbi ara confrontavam com os três reinados. O Elo Dourado ainda não havia conseguido consenso quanto à partilha de cada um. Rei Naldo também precisava ter a última palavra de Rei Mor quanto ao acordo que propôs na derradeira vez em que se encontraram para tratar do assunto. Ele só não desejava que Rei Mor usasse mais uma vez de sua astúcia para atrelar a cessão das terras do Barão de Corumbi contíguas ao reino de Trindade e Avilhanas ao casamento de sua filha com o Príncipe Gesu Aldo. Aquele assunto já estava resolvido. Sem mencionar o nome do Bruxo Neno, Rei Mor, Rei Naldo e Rei Médium conversaram longamente, a respeito de interesses de seus próprios reinados. Conforme suspeitavam, a repartição das terras de Corumbi foi o que motivou Rei Mor a aceitar o convite de vir a Avilhanas para o casamento do viúvo Rei Naldo. Não se supunha, entretanto, que o plano final do Rei Mor era arrumar um casamento para sua filha, Anaconda, com o Príncipe Urucumacuã e não com os príncipes Kurokuru e Gesu Aldo ou o Conde Rasku. Depois de muitos rodeios e indiretas, Rei Mor finalmente se declarou: — Rei Médium, reconheço vossa preeminência como o mais poderoso soberano de um imenso império. Além das vastidões e das riquezas de vossas terras, tendes ainda o mais rico e encantador reinado. Sois dono de grande tesouro e uma nesga de terra a mais ou a menos não fará diferença na vossa fortuna. 331H. H. Entringer Pereira — Tendes razão, Rei Mor. Porém, desde que o Barão de Corumbi começou a plantar os algo dão, tivemos uma parceria de muita prosperidade. Toda sua produção era vendida a mim. — Mas os trabalhadores do barão eram servos cedidos por mim... — Entendo que tendes também interesse em continuar o cultivo das ementes do algo dão. — Não exatamente. Vou ser bem claro: proponho-lhe casar minha filha Anaconda com o seu filho Urucumacuã e, como dote, dou-lhe toda a parte de terras que a mim certamente faz jus, para incorporar aos vossos domínios. Rei Naldo, que até então apenas ouvira, sem se manifestar a favor de um ou de outro, esboçou um sorriso irônico e interveio: — Rei Mor, Príncipe Urucumacuã está noivo de minha filha, faz mais de um ano. Tão logo volte de sua grande viagem, casar-se-á com Irina. Podeis negociar de outra maneira as terras que Corumbi ara. Rei Mor franziu o cenho, enrubesceu e, por breves instantes, não conseguiu falar... Apercebendo-lhe o desagrado, Rei Médium, com serenidade e paciência, deu novo rumo à conversa: — Faça-me outra proposta, Rei Mor! Podemos também repartir as terras em proporções às nossas divisas. Traçamos uma linha na metade do terreno. Ficas com a parte esquerda ao Rio da Dúvida e a mim basta a porção contígua às minhas terras, na margem direita. — Adianto-vos que não é uma justa partilha. Ficarei no prejuízo, porque a maior parte da área já pertence ao reino de Avilhanas. Não posso ficar prejudicado. — Então, o que me propões? — Que mande seu filho Urucumacuã a Trindade, antes que se case, logo que voltar da viagem, para que façamos um acordo... se não... — Se não...? — Usarei meus próprios meios para promover a partilha! — Concordo mandar Urucumacuã ao vosso reinado, tão logo volte de sua grande viagem. Haveremos de nos entender. A Lua estava tão clara que parecia um archote entre as nuvens espessas. A noite, porém, não se apresentava completamente iluminada, porque o céu só permitia o vazamento da claridade entre uma e outra nuvem. Ainda assim, um foco de luz prateada projetou-se sobre a Rainha Alimpa. Como se sentisse o peso do clarão sobre seu corpo, acordou, ficando insone por alguns momentos. Aproveitando o silêncio repousante dos seus confortáveis aposentos no Palácio das Esmeraldas, começou a prestar atenção no ruído das aves noturnas que cruzavam o céu refletindo o brilho do luar, no movimento rápido das asas e no quase imperceptível barulho dos pequenos animais roedores que circulavam sorrateiros pelos pátios, entre as fontes de água e os jardins do suntuoso palácio. De repente, um pensamento de medo lhe ocorreu e começou a se lembrar das inúmeras versões que já tivera oportunidade de ouvir sobre o aparecimento do fantasma da Mula Sem Cabeça. Assustou-se com a possibilidade de ouvir os relinchos aterradores da assombração, mas algo mais aterrorizante fez com que se levantasse e viesse até a 332H. H. Entringer Pereira janela ver o que se passava. Um uivo lôbrego e retumbante ecoou na direção dos fundos do palácio, bem próximo da ala onde ela se hospedava, juntamente aos familiares do Rei Médium. Rainha Alimpa tinha certeza de que o apavorante lamento, semelhante ao rosnado de um lobo, deveria ter acordado, se não todos, a maioria dos hóspedes e moradores da casa. Amedrontada, mas confiante de que logo teria outras companhias às janelas, abriu as cortinas e olhou para baixo, no local onde lhe parecera ter se originado o bramido. Passados alguns minutos, ninguém mais chegou às janelas; nem a guarda palaciana tocou os sinos para comunicar qualquer imprevisto. Mais amedrontada ainda se sentiu. Agora desconfiava de que somente ela teria acordado com aquele uivo terrível. Para se certificar de que não estivera sonhando simplesmente, escancarou a pesada janela e se debruçou, inclinando-se ligeiramente sobre o parapeito para melhor observar o que porventura pudesse estar encostado nas paredes de pedras, debaixo uns dez metros de seu quarto. Uma grande sombra escura projetada na parede pelo clarão da lua a fez estremecer. Ao direcionar o foco de sua visão pouco mais adiante, seus olhos se encontraram com os olhos faiscantes de um ser diferente, enorme, equilibrado sobre as pernas, ereto, à semelhança de um homem. O corpo escuro parecia coberto por uma espessa pelagem e, nas extremidades, os dedos terminavam em unhas pontiagudas. O olhar coruscante do monstrengo cruzou com a visão amedrontada da rainha. Com o coração acelerado de medo e curiosidade, direcionou seu olhar sobre a criatura e viu quando ela, erguendo a cabeça, também a olhou. Assustou-se ainda mais porque a cabeça do monstrengo tinha as feições do Conde Rasku. A cara do animal era o rosto de Rasku, com sua beleza cínica, estonteante, sedutora e única. Ao se reconhecerem, o monstro desviou o olhar de imediato, abaixou a cabeça e colocou-se de quatro pés. O encontro dos olhares, todavia, fez com que a aparência de monstro começasse a desvanecer, imediatamente. Como estátua de cera derretendo ao calor do sol, seus pelos desapareceram, formatando-se em feitio humano novamente. Em menos de um minuto, era exatamente o Conde Rasku que estava ali, ainda mais belo do que lhe parecera antes. A certeza de que anteriormente o temível animal a amedrontara, apavorando-a, fê-la recuar, como se evitasse deixar o coração sentir a paixão que a dominara por uns tempos. Afastando-se do raio de observação daquele belo homem, que também, ao perdê-la de vista, emitiu ainda um último rosnado apavorante, percebeu quando se afastou. Bem longe de sua janela, acompanhou-o com o olhar, quando caminhou rapidamente e despareceu nas sombras do bosque. Rainha Alimpa não teve dúvida: aquele bicho esquisito com corpo de lobo e cabeça humana era mesmo o Conde Rasku, o assustador lobisomem encantado de que tanto comentavam. O grotesco animal, percebendo que Rainha Alimpa o identificara, no momento em que se abaixou, colocando-se de quatro pés, rosnando baixo, transmutou-se diante de seus olhos para desaparecer nas sombras do bosque próximo ao palácio. Aterrorizada e estupefata, mas com o pensamento perturbado pela beleza do rosto que enxergara, trancou bem a janela e teve vontade de ir ao quarto da Rainha Alzira, acordá-la para contar o que havia presenciado. Ou, quem sabe, de bater à porta do quarto do noivo, Rei 333H. H. Entringer Pereira Naldo, para compartilhar a visão espantosa do animal com a cara do Conde Rasku. Temendo, em contrapartida, que pudesse ser tida como louca ou desvairada, Rainha Alimpa respirou fundo, tentando se controlar. Logo depois, sentiu-se um pouco melhor. Acalmou-se por completo quando viu a lua enorme, bem no alto do zênite, mostrar-se inteira. Achou prudente recolher-se à cama. Precisava repousar bem. Afinal, já passava da meia-noite e, naquela manhã, começariam as cerimônias de suas bodas com Rei Naldo. Queria estar descansada e bela. E na medida do possível, esquecer tudo o que vira e sentira. Cobriu-se dos pés à cabeça, imaginou-se já na noite seguinte nos braços de Rei Naldo. Então, o temor abrandou e conseguiu adormecer serenamente. Galos cantando avisavam o começo de um novo dia. Lentamente, as janelas do palácio se abriam, cortinas se afastavam e a movimentação de serviçais cruzando os pátios, corredores e salões indicava que a rotina não era a mesma. Não demorou muito, um grupo de camponeses empunhando estandartes vermelhos e pretos batia os sinos no portão secundário, pedindo entrada no Palácio das Esmeraldas. Estavam agitados, afobados, conversando alto e ao mesmo tempo. Os estandartes rubro-negros eram um código particular usado pelos súditos do Rei Naldo, para sinalizar a ocorrência de alguma desgraça ou sinistro nos limites habitados do reinado. Imediatamente, a guarda palaciana os acolheu e conduziu seu líder mais velho até o Salão do Trono, onde Rei Naldo já se encontrava, convenientemente trajado para a primeira cerimônia da manhã. Aguardava a chegada da noiva, dos filhos, da rainha-mãe, dos convidados e do Mago Natu para oficiar as celebrações solares do ritual das bodas. Surpreendido pela entrada do líder da inesperada comitiva, inadequadamente trajado para a ocasião, conduzido pelo Mestre-Sala Kari Jó, Rei Naldo deixou os protocolos de lado, para encontrar-se no meio do salão com seu vassalo, que comunicou diretamente aos seus ouvidos: — Senhor Rei Naldo de Avilhanas, perdoe-me a inconveniência, mas algo desagradável e nada auspicioso aconteceu esta madrugada. A Casa das Moças incendiou-se, ou foi incendiada, ao que dizem os camponeses, sacrificando todas elas, juntamente aos seus filhos inocentes. Mantendo a serenidade necessária e própria dos bons soberanos, Rei Naldo interpelou: — Por que não vieram antes, enquanto havia tempo de impedir o desastre? O mais idoso, líder dos camponeses, tomou a palavra: — Perdão, Senhor Rei Naldo, a Casa das Moças fica meia légua afastada de nossas terras, um tanto distante de nossas casas. Sabíamos que nas noites de lua cheia, às sextas-feiras, as moças acendiam fogueiras para cultuar a Lua, dançando nuas ao redor. Vimos o clarão e a fumaça, mas julgamos que fosse resultado do ritual que tantas vezes repetiram. — Não se atinaram para o aumento da fumaça? — Sim, Senhor, porém nossas esposas não nos permitiram ir até lá, pois sabíamos que elas poderiam estar dançando peladas à volta da fogueira. — O que quereis que façamos agora? Alguma das moças, por acaso, era filha de algum de vós? — Sim, Senhor, uma era minha filha... — Igualmente a minha, Senhor... 334H. H. Entringer Pereira — Minha também, Senhor Rei Naldo... — Nenhum dos filhos do Conde Rasku escapou? — Pelo que sabemos, tem um, Senhor Rei. Aquele rapaz que a mãe morreu no segundo parto e os avós pegaram pra criar... o menino Órfão. — Pois bem. Senhor Mestre-Sala, traga-me o Cavaleiro da Ordem de Avilhanas. Os senhores, por gentileza, aguardem para ouvir minhas determinações. Em menos de um minuto, estava à frente do Rei Naldo um jovem homem de compleição física forte, espadaúdo e elegante, em uniforme de gala, pois a cerimônia de casamento real previa revista à Cavalaria da Ordem de Avilhanas, com pompa e fausto somente igualados à Cavalaria do Elo Dourado. Vendo o airoso traje de seu cavaleiro número um, Rei Naldo, em tom coloquial determinou: — Cavaleiro Serafim, troque de uniforme. Vista-se apropriadamente para trabalhar. Congregue-se aos outros trinta e dois e vá à Casa das Moças que Pintam e Bordam. Salvem o que for possível. Descreva-me minuciosamente o que encontrar e como encontrou. Determino também que meu mensageiro particular se dirija ao Condado de Rasku, sob o pretexto de buscar a carne de caça que ele se comprometeu em providenciar para o banquete de hoje. Informe-se discretamente sobre o que o Conde Rasku fez da noite de ontem para hoje. Discretamente... Depois, vá à casa dos avós e traga-os com o neto, Órfão, para festejar conosco. À hora do banquete, ao meio-dia, algumas das compridas mesas que acomodavam os convidados e cortesãos tinham diversos lugares desocupados. Embora circulasse por toda a cidade a notícia do incêndio na casa das moças, nem todos ainda sabiam do desastre. Rei Naldo já havia sido informado pelo Cavaleiro da Ordem, cujo relatório fora minucioso, mas não muito elucidativo, de que não se tratara de um incêndio corriqueiro, acidental. Tudo fazia crer que fosse obra premeditada de algum criminoso, possivelmente praticado sob requintada crueldade. Pelas descrições do Cavaleiro Serafim, feitas sigilosa e pesarosamente ao Rei Naldo, Rei Médium e Mago Natu, num dos compartimentos da casa, se encontravam corpos adultos amontoados e carbonizados, levando a crer que na hora do sinistro estivessem todos trancafiados, sem possibilidade de defesa ou fuga. Noutro compartimento mais adiante, os escombros ainda deixavam à vista, carbonizados, corpos menores, possivelmente de crianças, filhos e filhas das moças. Algo terrível chamou mais ainda a atenção do Cavaleiro Serafim: alguns corpos carbonizados estavam inteiros, porém, duas cabeças de criança separadas dos corpos, soltas, levavam a pensar que foram decapitadas antes do incêndio. Rei Naldo, estarrecido com a narrativa, preferiu não contar a sua mãe, Rainha Alzira, a trágica e funesta descrição do cenário encontrado pelo seu fiel e leal cavaleiro. Mago Natu reservou-se ao mais profundo e pesaroso silêncio e o Rei Médium também se fechou num sofrimento solidário, camuflado pela alegria que a maioria dos convidados aparentava, dada a festividade das bodas reais. Sem querer ocupar-se com nomes deste ou daquele suspeito que lhe vinham ao pensamento, Rei Naldo, por mais que procurasse desviar as evidências para outros possíveis criminosos, tinha a mais forte intuição apontando na direção do próprio irmão, Conde Rasku. A única pessoa que poderia se interessar pela destruição da casa e das 335H. H. Entringer Pereira moças era ele, devido ao comprometimento nunca assumido com as mães de seus prováveis filhos. Mas as informações que o Mensageiro havia trazido, de outro lado, confrontavam-se, fechando-se numa espécie de álibi perfeito. O relatório do Cavaleiro Serafim não parecia conclusivo, porque o conde saíra naquela noite a caçar, chegando ao amanhecer. Trouxera no carroção cinco corças abatidas, além de outras caças já descarnadas, prontas para a confecção dos embutidos que o próprio Conde Rasku gostava de preparar, com as carnes minusculamente picadas e temperadas com ervas aromáticas e condimentos fortes, para serem colocadas dentro das tripas limpas dos animais abatidos. Era uma especialidade gastronômica apreciadíssima pelo conde e por aqueles a quem ele dava a degustar. Durante o banquete, entre o alarido dos convidados, a execução de boas músicas e a degustação de finos manjares com bebidas suculentas e águas aromáticas, poucos notaram diferença no comportamento do Conde Rasku. Ao contrário de outras ocasiões, quando abusava de sua arrogância e exibia sem modéstia sua galante e sedutora beleza, percorria gentil e sorridente todas as mesas, levando bandejas com as iguarias assadas que ele mesmo preparara, fazendo questão de entregá-las à apreciação dos mais exigentes paladares, esperando os elogios pela sua invenção mais recente no terreno da gastronomia. Antes de chegar à mesa em que se encontravam os familiares das duas casas reais mais proeminentes, Avilhanas e Elo Dourado, Mago Natu instruiu os comensais discretamente: — Por favor, não comam os embutidos servidos pelo Conde Rasku. Agradeçam gentilmente, deixando de lado, no prato. — Por quê, Mago Natu? – quis saber o Príncipe Gesu Aldo. — Porque aquilo lhe enguiça... lhe enguiça... por mais saboroso que aparenta... tenho certeza de que lhe enguiça... ouça meu conselho. — Enguiça como, Mago Natu? — Não vou revelar os porquês, mas todos os que comerem daquelas carnes ficarão contaminados com uma insaciável vontade de comer carne humana... por gerações e gerações... e poucos conseguirão se dominar e extinguir o desejo. — Vade retro, livrai-nos! — Então, não comam as lhe enguiças! Assim fizeram. E o ódio dissimulado do Conde Rasku pela família de Rei Naldo, só fez aumentar, fermentado pelo ciúme e inveja. 33
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"The afterfire"
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Em setembro saíram os canteiros com feijão milho e aipim. No meio de dezembro saiu o feijão, daqui uns 15 dias o milho, e o aipim em maio. Mas este ano estou tentando uma coisa nova: fazer a safrinha de feijão ainda embaixo do milho que não foi colhido. A ideia é que a sombra do milharal ajuda a proteger do sol forte de verão o feijão enquanto está bem pequeno. Vamos ver se dá certo!
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URUCUMACUÃ BY H.H.ENTRINGER PEREIRA LIVRO 3 CAPITULO 80
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VISITANDO O VALE DO APERTADO Mago Natu, Rei Médium, Rainha Gônia, Rainha Alzira e Rei Naldo confabulavam os cinco numa sala secreta do Palácio das Esmeraldas, lembrando acontecimentos que há alguns anos causaram grandes mudanças em todos os doze reinados daquela imensa região, dos mais longínquos aos vizinhos. Rainha Alzira iniciou o assunto, bem-humorada, provocando Mago Natu: — Mago Natu, por que não devolves meu pote de esmeraldas? — Quem vos garante que estão comigo? — Dou-vos a metade delas, se me entregares... — Rainha Alzira, sabeis que comigo elas estão seguras... e tua própria vida a salvo. Se teu filho Rasku ao menos desconfiar de que aquele tesouro está contigo, certamente arrumará meios de subtraí-lo, atentando contra tua vida, se necessário. É melhor que fiquem onde estão. — Posso ao menos saber onde estão? — Sim, sabereis. Inclusive, sabereis de onde as retirei, sigilosamente, desde a visita que fiz quando seu neto Gesu Aldo nasceu. Que tal irmos amanhã, bem no raiar do dia, ao lugar onde vosso marido, Rei Albe, o Rico se enforcou? — Posso convidar Alimpa? – Rei Naldo perguntou, como se devesse satisfação de seus sentimentos e atos aos seus súditos. Todos concordaram que a futura rainha de Avilhanas também conhecesse o cenário onde se originou a história da Mula Sem Cabeça, e algum tempo depois o atemorizante lobisomem. Pessoalmente, não agradava à Rainha Alzira voltar àquele local, especialmente com plateia. Muitas recordações que preferia esquecer viriam à tona e algum desconforto seria inevitável. No entanto, diante da curiosidade dos amigos em conhecer a grande árvore de figueira-do-inferno... cadafalso onde Rei Albe, o Rico, enforcara-se pelo pé. Mesmo cemitério em que foram sepultados e incinerados os corpos dos protagonistas daquela sangrenta e misteriosa saga. Esforçando-se para não deixar transparecer que aquelas memórias ainda estavam muito vivas e amiúde a incomodavam, Rainha Alzira pedia em pensamento que Mago Natu mantivesse a necessária discrição, sem jamais revelar o segredo guardado por ela e ele: a verdadeira paternidade do Conde Rasku. Outros episódios e detalhes de somenos importância se quisesse revelar, não se importaria. Já fazia algum tempo que o fantasma da Mula Sem Cabeça descansava em tréguas com o Reinado de Avilhanas! Desde a visita ao Reino do Elo Dourado, quando o Grande Rei determinou que Mago Natu localizasse e desenterrasse o fabuloso pote de esmeraldas que o Rei Albe, o Rico, ocultara, transportando-o secretamente para o seu Santuário no Elo Dourado, ensinando-o a fórmula mágica para afugentar a fantasmagórica visagem da Mula Sem Cabeça, o sentimento geral de medo que assolava a população também arrefecera. Entretanto, a calmaria não permanecera longo tempo. Não muito depois, voltara o antigo pânico a tomar conta das populações e a andar pelas noites enluaradas. O espectro da Mula Sem Cabeça cedera lugar às aparições do não menos aterrorizante lobisomem. Assunto tabu, igualmente interditado 326 H. H. Entringer Pereira aos visitantes e forasteiros, circulava, no entanto, em formato de rumores. Não havia tantas testemunhas fidedignas, merecedoras de crédito para certificar a real existência da assombrosa criatura. Porém, alguns notívagos que vez por outra atravessavam as ruas da cidade madrugada afora relatavam encontros apavorantes com o avejão. Devido a boatos recorrentes, a cada vinte e oito dias, na casa das moças que pintam e bordam, em noites de lua cheia nas sextas-feiras, portas e janelas eram preventivamente fechadas antes do cair da noite. Atrás de cada uma das portas, reluzentes punhais de prata, pendurados um sobre o outro em formato de “X”, garantiam a tranquilidade das moças que juravam ouvir, a partir da meia-noite, uivos e rosnados aterradores de um animal coberto de pelos, com corpo de homem e cabeça de lobo, que rondava insistentemente a casa até a hora em que cantava o primeiro galo da madrugada! Ainda usando archotes e lamparinas, pois a alvorada parecia não estar com a mesma pressa que os compartes da combinada aventura, pelas quatro horas da manhã estavam todos de pé. A família de Rei Naldo, a família do Rei Médium, Mago Natu, Professora Plínia, o jovem Mulato e o Louco, esse último o primeiro a chegar ao pátio de onde a caravana partiria. Era sempre ele, quando convidado, a animar rodas de conversa, salões de dança, piqueniques e festas populares. Na maioria das vezes, tinha uma novidade para surpreender a plateia. Vestia-se com espalhafato, muitas cores e abandonara, a pedido da Rainha Alzira, suas ceroulas puídas e rasgadas nas nádegas. Todavia, seu figurino estava longe de ser convencional. Em poucos minutos, reuniram-se todos para iniciar a jornada rumo ao local mais evitado e ao mesmo tempo mais curioso de Avilhanas. A tropa que levaria suprimentos e as carruagens estavam prontas desde a véspera, aguardando seus ocupantes. O jovem Mulato deixara tudo muito bem-arrumado no dia anterior, comandando com maestria os animais cargueiros e os demais cocheiros. Alguns coches, mais confortáveis que os outros, faziam a distinção dos ocupantes pela idade: os mais velhos nos mais estofados e os mais novos nos mais despojados. Mago Natu ainda não decidira quem escolheria como parceiro de viagem. Do Palácio das Esmeraldas, na cidade de Avilhanas, até o Vale do Apertado levariam seguramente duas horas de viagem. Ao final, todas as parcerias estavam feitas e restavam um coche e dois passageiros para embarcar: o Louco e o Mago Natu. Os dois se olharam e, apontando-se mutuamente, com uma risada estridente, o Louco perguntou ao Mago Natu: — Não te importas de ir comigo? — Por que me importaria? — Porque somos muito diferentes... — Enganas-te. Somos tão iguais que se usasses minhas roupas e eu as tuas, nem eu nem tu saberíamos onde começa o Louco e termina o Mago, nem onde começa o Mago e termina o Louco. — Gostei da ideia! – disse o Louco, sorrindo, dando uma cambalhota no ar, seguida de uma pirueta que terminou por acomodá-lo no assento ao lado esquerdo do coche. — Veja bem, isso nos faz diferentes! Sou incapaz de tais acrobacias. — Enganas-te. Se usasses as minhas roupas certamente farias o mesmo. 327 H. H. Entringer Pereira — Quem sabe? — Vamos experimentar... Aproveitando-se de que o cortejo já se pusera a caminho, ficando os dois por derradeiro, combinaram de trocar suas vestes no intuito de chacotear com os amigos, dando-lhes a oportunidade de se divertir. Queriam saber qual dentre eles seria capaz de perceber a troca de vestimentas, antes que eles mesmos revelassem a brincadeira. Assumindo um a personalidade do outro, imitando também seus comportamentos, acomodaram-se na condução, e o Mago Natu, vestido como o Louco, solicitou que o deixasse conduzir a caleça, ao que o outro, vestido como o mago, sentado com ares enigmáticos, sequer objetou. Antes de chegarem ao Bosque do Iludido, já no Vale do Apertado, o comboio parou para se refrescar. Havia ali uma Gameleira Branca, árvore gigantesca muito parecida com a Figueira-do-Inferno sob a qual o Rei Albe, o Rico, havia enterrado seu tesouro e se enforcado, pendurado pelo pé. Um regato de águas cristalinas serpenteava sob a frondosa árvore, transformando o lugar num aprazível ponto de descanso, recreio e restauração de energia. Rainha Alzira foi a primeira a descer de seu cabriolé. Como se o tempo não tivesse passado, veio-lhe à memória cena por cena do dia em que passara por ali, bem ao entardecer, dera de beber ao seu fogoso alazão e, com o coração em sobressalto, acompanhou seu ajudante de ordens, Senhor Dugo, cujo nome verdadeiro desconhecia, até o Claro da Gemedeira, cenário da mais inusitada história que testemunhara e palco de suas desilusões, próximo dali vinte minutos. Refazendo-se ainda do choque das lembranças, arrumou suas vestes, suspendeu a saia para não arrastar no chão meio úmido e gritou para o Mago Natu e o Louco que vinham mais atrás: — Ei, parem! Vamos comer alguma coisa e dar água à tropa! Estamos chegando, não precisamos pressa! No momento em que o Mago parou a carruagem sob a árvore, num ponto distanciado dos outros, lateral às bordas da vegetação alta e cerrada, ouviu-se o som de algo cortando os ares, veloz como um pássaro flechando em voo. No mesmo instante, o ruído de um corpo caindo e o baque seco de algo no chão. Outros dois dardos seguidos cortaram o ar a esmo, sem destinatário escolhido. Enorme pavor tomou conta da caravana. Todos correram assustados ao encontro do corpo que ainda se debatia no chão. Rainha Alimpa foi a que primeiro denunciou desesperada: — Binah! Chokmah! Flecharam Mago Natu! – exclamou Rainha Alimpa, unindo fervor e pânico. Percebendo que nenhum deles ainda se dera conta de que o corpo com as vestes do mago era, na verdade, do Louco, Mago Natu, usando da serenidade que o momento exigia, na busca de acalmar os ânimos para que ninguém entrasse em desespero, levantou o rosto da Rainha Alimpa, direcionando o olhar dela para ele, dizendo firme, mas compassivo: — Rainha Alimpa, Mago Natu sou eu. Mataram o Louco, em vez do mago! — Oh, Céus! – suspirou, aliviada. — Por Zeus, o que fazes com estas roupas? – observou Rainha Alzira. — Por que trocaram de vestes? – atalhou Rainha Gônia. 328 H. H. Entringer Pereira — Explicai o que está acontecendo, Mago Natu – interferiu Rei Médium. — Tudo tem dois polos; e cada um, seu par de opostos. Somos idênticos em natureza, mas diferentes em grau. Todos os paradoxos tendem a se reconciliar. Nos períodos de avanço, às vezes, é preciso retroceder. Todo movimento é como pêndulo, ora para a direita, ora para a esquerda e a compensação é o ritmo. Rei Naldo, Rainha Alzira, é prudente que voltemos daqui. Sepultemos o Louco sob a Gameleira Branca e ela lhe servirá de morada e abrigo eternamente. — Mago Natu, quem nos emboscou? – quis saber Príncipe Gesu Aldo. — Por que preferiu atingir o Louco e não a mim? – Rei Naldo queria ouvir a resposta às suas indagações tanto quanto o Rei Médium. — Amigo Calico. Não era o Louco o alvo do assassino, na verdade. Era o Mago. Por não conhecer e saber diferenciar um do outro, a não ser por suas vestes e aparência, atingiu o Louco pensando acertar o Mago. Não importa quem matou. Importa quem morreu. Se matares quem matou, não trarás à vida quem morreu. A conversa entre Rei Naldo, Mago Natu e Rei Médium prosseguia com muitas considerações filosóficas e iniciáticas, até que Rainha Alzira os interrompeu: — Amigos, tudo me parece lógico: suponho saber quem nos acompanhou e esperou a oportunidade de matar o Louco, pensando que fosse o Mago! É claro que o assassino conhecia o percurso que faríamos. Também sabia que o Mago Natu iria nos conduzir ao local onde estava enterrado o tesouro do Rei Albe, o Rico. Parece lógico que... Mago Natu não deixou Rainha Alzira concluir o raciocínio. Terminou a frase, ele mesmo: — Ele não desejava que fosse revelado para tanta gente, menos para ele, evidente, onde Rei Albe, o Rico, enterrou as esmeraldas e se suicidou pendurado pelo pé, de cabeça para baixo, simplesmente para morrer olhando o local exato onde deixava seu tesouro escondido. — Ah, que salafrário! – exclamou Rainha Alzira, meio alterada. — Calma, amiga, teu pote de esmeraldas está em lugar seguro, e ao tempo certo o Príncipe Urucumacuã haverá de entregá-lo a ti. Feitas as cerimônias fúnebres que antecipavam o sepultamento propriamente, Mago Natu pronunciou a sentença: — Amigo Louco, voltastes finalmente à estaca zero! Que esta Gameleira Branca te sirva de eterno símbolo e morada. Adeus. As roupas do Louco ficaram com o Mago Natu, que preferiu não as destrocar naquele momento. Sepultado o Louco com suas vestes, Mago Natu gracejou: — Bem-aventurado é aquele que tem um Louco a dar a vida por ele! O cortejo entristecido, dali mesmo, retornou silencioso e consternado ao Palácio das Esmeraldas.
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Novo ciclo, novas sementes 🌱
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